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Entrevista de Ana Paula Correia a Pacheco Pereira
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Date Posted: 2/03/05 19:55:41
Resultado do PS é muito artificial
Entrevista de Ana Paula Correia a Pacheco Pereira, JN, 26/02/05
APC - (...) "Ainda em relação aos resultados eleitorais, como avalia a subida de todos os partidos de Esquerda, apesar da maioria absoluta do PS?
PP - Aconteceu que PS e PSD não foram capazes de bipolarizar. O PS deslocou-se para o Centro, ocupou grande parte do eleitorado do PSD e não conseguiu o voto útil à Esquerda. O resultado do PS é muito artificial e conjuntural. Duvido que tenha um estado de graça. Porque assumiu compromissos em matéria de despesa pública, terá já o problema do orçamento rectificativo, das receitas extraordinárias. Até Outubro, o novo Governo vai ter muitas decisões difíceis e aí é que se vai medir a direcção de Sócrates, que terá de dar sinais de aumento da credibilidade do país em termos internacionais, que diminuiu nos últimos tempos. Se a aproximação do PS ao Centro não foi meramente estratégia eleitoral - e eu acho que não - tem de transformar isto em actos. E como não anunciou nenhuma medida difícil, é muito importante que indique o caminho que seguirá. Por isso, o PSD tem de ser uma oposição credível e com solidez programática. Quem ficar à frente do partido, tem de ter isso em conta, até porque o PS vai ter muitas dificuldades a curto prazo.
APC - O Bloco de Esquerda, que teve uma subida apreciável, e a CDU, que também conquista mais deputados, foram factores surpreendentes nesta campanha. Como será o relacionamento dos socialistas à Esquerda?
PP - Ficou demonstrado que a escolha de Jerónimo de Sousa foi um factor importante de identidade do PCP. E ele deu um enorme sinal de moderação, que foi o acordo entre as centrais sindicais e o patronato, que não era possível sem o beneplácito do PCP. Penso que é mais fácil o PS entender-se nalgumas matérias com o PCP do que o BE, que é um partido tribunício e em grande parte inócuo.
APC - Mas tem oito deputados.
PP - Contrariamente ao que diz Paulo Portas, partidos radicais com resultados como o do Bloco de Esquerda existem por todo o lado. O problema de Portas é a comparação do PP com a democracia- cristã. Partidos como o BE, de causas de uma certa juventude urbana, muito significativamente bem instalada na vida, não representam, evidentemente, os pobres. O PCP, sim.
APC - Jerónimo falou directamente ao eleitorado comunista, como não fazia Carvalhas.
PP - Uma coisa que me chocou nesta campanha é que ninguém discutiu o problema do trabalho. Toda a gente falou das empresas, da economia, das finanças, mas há milhares de portugueses que são operários, que são trabalhadores rurais, que trabalham em fábricas e em oficinas e que não encontram um único político que se lhes dirija, com a excepção de Jerónimo de Sousa, que tem origem operária. O PCP ficou sendo o único a falar para certos sectores, a propor políticas que os defendem, mesmo que ponham em causa o crescimento económico. São políticas de resistência de pequenos sectores da sociedade. Quem é a voz que defende um trabalhador rural alentejano, praticamente analfabeto, que não tem trabalho e que viveu sempre no limiar da miséria? Esse homem vota no partido que na autarquia lhe dá o mínimo de condições sociais, que é o PCP. O BE só tem importância pela importância que se lhe dá. O BE é um ecossistema." (...)
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