| Subject: Trecho em falta |
Author:
IA
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Date Posted: 30/06/05 3:33:05
In reply to:
entrevista de José Saramago
's message, ""Cuba irradia solidariedade"" on 26/06/05 22:20:05
Falta o trecho final da entrevista nesta versão.
Sartre, que teria cumprido 100 anos na terça-feira passada, descreve em A Razão Dialéctica o que ele chamou “o grupo em fusão”, isto é, quando o indivíduo substitui totalmente os seus interesses pessoais pelo destino do grupo. Ele olhava a fundo o momento em que o povo francês se lançou à tomada da Bastilha. Haverá possibilidades com o modelo político em voga que uma fusão dessa natureza aconteça?
Não é nada fácil responder a essa pergunta. Não creio que devemos propor-nos como esquerda uma fusão tal na qual se dilui completamente o ser individual, ainda que aspiremos a que o ser humano não deixe de ter consciência e responsabilidades colectivas. Também não vamos transformar-nos todos em missionários laicos. Não. As pessoas têm a sua própria vida, o direito ao seu pequeno grande egoísmo pessoal e inclusive compartilhá‑lo com os demais. Compartilhá-lo no sentido de que o que tu queres para ti também tens que o querer para o outro. Entender que o que é para ti em exclusivo, o estás a tirar, ainda que não te dês conta, ao outro.
E nisto não se pode desdenhar a prática. Quando essas jovens que na UCI me diziam de uma forma emocionada e emocionando-nos, como é que eles cuidavam das pessoas que chegavam, eu perguntava‑me: elas vão mudar?, vão transformar-se em pessoas duras, egoístas, interessadas só no seu, ou vão ficar como as maravilhas que são neste momento? Não sei qual é a resposta, e vamos pensar que ocorrerá o melhor, o melhor para cada um, mas também, se se puder, o melhor para todos. De qualquer modo alguém que expresse dessa maneira a sua solidariedade, que a pratique, tem muitíssima mais humanidade, do que aquele que só se valorize a si mesmo.
O EVANGELHO SEGUNDO SARAMAGO
Comentava‑me Pilar que por trás de toda essa catedral que é O Evangelho segundo Jesus Cristo está o fantasma de um amigo judeu que o ajudou a olhar Jesus não como filho de Deus, mas como criatura humana.
Era um amigo nosso, um judeu libanês que já morreu. Sam Levi adoptou uma amizade por nós e nós por ele, e ajudou‑me a entender as origens do cristianismo, em particular no que tinha a ver com rituais, ritos, orações... Dificilmente teria podido levar ao livro essa sensação de realidade que ele criou. Alguns judeus escreveram‑me para me perguntar: “Como é que você sabe tanto da vida dos judeus de há 20 séculos?” Não na história que eu conto de Maria Madalena, esse é outro conto. Sim no fundamental: numa base de informação histórica sólida.
Ainda que aí esteja, como em toda a sua obra, o ser humano no centro de todas as coisas.
Sim, ainda que não haja nada no planeta que possa dizer que está no centro de todas as coisas. Para estar no centro de todas as coisas é preciso poder rodear, passar o olhar e o olhar é também o entendimento, a inteligência, a sensibilidade, e nós somos os únicos que podemos fazê-lo.
Não é que estejamos no centro das coisas, porque sejamos a coisa mais importante que uma vez existiu e existirá no universo. Ao invés, um dia tudo isto acabará. No centro da via láctea há um buraco negro que vai absorvendo matéria, luz e esse será o nosso destino provável em milhões de anos, se antes o sol não se apagar. Seria preciso ser muito vaidoso para continuar a pensar que se é o centro do universo.
Agora, no mundo do inteligível, do que se pode entender, compreender, nós somos os únicos que podemos ter uma noção do universo, uma noção da vida. Não há outros; a abelha não pode, o mosquito não pode, o chacal não pode… Ninguém pode senão nós, e nesse sentido sim somos o centro, mas é um centro que tem de ser responsável por si mesmo, e responsável pelos demais.
Ainda que se reconheça ateu, você dá‑se muito bem com Deus: escreveu duas novelas, uma obra de teatro e pelo menos um artigo muito conhecido em cujo título ele aparece.
Eu não acredito em Deus, mas há algo que eu não posso ignorar, e é a importância de Deus ou, mais ainda, do factor Deus, que tanto decide nas nossas vidas. A mim desde muito jovem interessou‑me muitíssimo a história da religião, muitíssimo. Sempre digo: “Eu sou ateu, mas tenho uma mentalidade cristã”, e não posso ter outra: não sou muçulmano, nem budista, nem animista. Do ponto de vista da minha cultura, da minha sensibilidade, sou um cristão e, portanto, tenho o direito de ocupar-me, preocupar-me, estudar, escrever sobre o que, em grande parte, fez de mim a pessoa que eu sou…
…um elo ainda entre o macaco e o ser humano.
O filósofo conductista Conrad Lorenz tinha realmente muita razão quando descobriu que o elo entre o macaco e o Homem não está perdido: somos nós. Primeiro estamos nós e depois virá o ser humano, se algum dia chegar. Nesse caso devemos aferrar‑nos à ideia, à única crença válida em tudo isto: pensar, ter a ilusão de que algum dia seremos verdadeiros seres humanos.
Um homem novo, talvez?
Não, esse é já um conceito cansado, fatigado. Deixemo-lo em paz.
http://infoalternativa.fateback.com/autores/saramago/saramago006.htm
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