| Subject: Como é possível?... |
Author:
ANTÓNIO BARRETO
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Date Posted: 3/07/05 17:36:27
Como é possível que tenhamos chegado a este estado? Anos sucessivos de demagogia. Anos de governos em busca do caminho mais fácil, à procura de serem amados. Anos de criação de expectativas acima das possibilidades. Anos de satisfação de desejos para os quais não havia meios. Anos a dar o que não é seu, a gastar o que se não ganhou e a prometer o que não se pode ter. Como é possível que todos os governos, com mais ou menos descaramento, mais ou menos consciência, tenham sempre acabado por contribuir para esta lamentável situação financeira e tenham deixado, no Estado, compromissos insuportáveis, autênticas "bombas relógio"? Como é possível que só agora muitos dêem a impressão de descobrir o que outros há muito sabiam e denunciavam?
FELIZMENTE QUE A "EUROPA" deu e pagou. Mas agora sabemos melhor que temos de pagar a conta do farto almoço europeu. Adiaram-se reformas, esqueceram-se reconversões, desprezou-se a poupança, elogiou-se a economia de "sucesso" e o dinheiro fácil, estimularam-se os optimistas e os "ganhadores" e perdeu-se a "formação" com a qual se desperdiçaram centenas de milhões. Proclamou-se a facilidade. Decretou-se a felicidade. Para nada era preciso poupança, havia quem pagasse. Para nada era necessário esforço, havia quem trabalhasse. Para nada se impunha disciplina, a liberdade era sempre mais gostosa. E assim chegámos, alegremente, à inevitabilidade de perder uma parte do que obtivemos. E tenhamos a certeza: não vamos apenas perder privilégios. Vai perder-se nível de vida, consumo, poder de compra, bem-estar, segurança, conforto e prazer. E isso dói!
OS CIDADÃOS TÊM, CLARAMENTE, responsabilidades. Elegeram quem quiseram. São complacentes com a corrupção. Aceitam a demagogia. Não desgostam da aldrabice, desde que bem feita. Desculpam sempre "os seus", do clube, do partido, da autarquia, da empresa ou da família, porque há sempre sobras para distribuir. Detestam o fisco e as respectivas obrigações. Tentam trabalhar pouco. Chegam tarde ao emprego. Metem cunhas. Estudam pouco. Não protestam contra a justiça que têm. Não se revoltam contra a escola deficiente. Não se mobilizam contra as filas de espera nos centros de saúde e nos hospitais. Não se organizam contra o mau atendimento da maior parte dos serviços públicos. Não protestaram contra o atrevimento, seguido de erros, desastres e colossal desperdício das obras do Terreiro do Paço. Deixaram estes fidalgos arruinados fazer dez estádios de futebol. Como vão deixar comprar inúteis submarinos e aviões de combate, construir um estúpido TGV e um faraónico novo aeroporto. E não se importam com o colossal desperdício da educação e da saúde, com a preguiça na justiça, com a criação artificial de emprego na Administração, com a fundação de inúteis organismos públicos e com a construção de uma "cidade administrativa" ou de um "complexo judiciário".
CERTO. O POVO TEM RESPONSABIlidades. Mas a verdade é que há quem tenha mais. A elite política e empresarial, pois claro! E a elite intelectual e universitária, sem dúvida. É a elite que organiza e inspira. Em teoria, as elites servem para isso: dirigir. Não para tornar o povo mais fraco, mas para dar o exemplo, para "puxar para cima". Não para serem elas próprias parasitas e complacentes, mas para melhorar os outros. Ora, as elites portuguesas não cumprem os seus deveres. Não só porque não protestam e não criticam. Mas também porque colaboram no desperdício e na demagogia. E porque, finalmente, são parasitas. A elite portuguesa é geralmente predadora e ignorante. Ainda na fase da "acumulação primitiva", tem um interesse predominante: usar o Estado. Pretende fazer deste sua criada de servir, sua tesouraria privada, a força de choque dos seus interesses e sua protecção e seguro de vida.
DECLARAVA UM DIA, UM ANTIGO presidente da RTP, que a televisão não podia ser melhor do que os portugueses. Estes eram medíocres? A sua televisão também! Eis o ponto! À televisão pública, às universidades, aos políticos, aos governos, às autarquias, aos deputados, aos empresários, aos professores, aos intelectuais, numa palavra, às elites exige-se exactamente o contrário: que sejam melhores do que os seus contemporâneos, que "puxem por eles". Que empurrem para cima, não que se limitem às suas funções de parasitas.
COM A SUA CARGA DE DEMAGOGIA, o massacre dos funcionários públicos é chocante. Todos, com excepção do PCP e do BE, sempre fiéis às clientelas, responsabilizam os funcionários pelo estado a que chegámos. Gastam de mais, trabalham de menos, fazem greves. Foram transformados no bode expiatório de todos os males da fazenda e do tesouro. E é por causa deles que os portugueses têm agora de sofrer as consequências dos apertos e da austeridade. Os funcionários têm, evidentemente, privilégios. Têm-nos em doses surpreendentes. Gozam, em geral, de vencimentos superiores, melhores reformas, baixa idade de aposentação, pensões mais elevadas, garantia de emprego e melhores serviços de saúde. A isso tudo, que não é pouco, acrescentam-se vantagens impalpáveis: mais complacência dos chefes, menores exigências de produtividade, olhos fechados perante os resultados, horários mais elásticos, menos pontualidade e mais facilidade de organizar a vida privada. Sem falar das possibilidades de arredondamento do fim do mês oferecidas pelos cargos de quem dependem autorizações, adjudicações e licenciamentos.
TUDO ISTO É VERDADE. MAS, OUvindo os governantes e vários partidos de oposição, fica-se com a impressão de que "eles" são os culpados. "Eles" são os predadores do erário público. "Eles" conseguiram, por vias ilegítimas, os privilégios de que desfrutam à custa dos outros... Ora, tal é absolutamente mentira. Os enormes privilégios dos funcionários foram inventados, arranjados, organizados e concedidos pelos dirigentes políticos e partidários que, nos governos, no Parlamento e nas autarquias, durante trinta anos, tentaram desta maneira conquistar votos, prender as clientelas e empregar os seus correligionários. Anos houve em que, de uma assentada, 30, 40 ou 50 mil funcionários foram acrescentados. Anos houve em que os vencimentos de certos sectores da função pública foram aumentados várias vezes. Anos houve em que foram decretados, por lei e orçamento, processos de promoção automática, de recompensa à antiguidade, de "reclassificação" e de "reparação de injustiças". Foram os governos que criaram, peça a peça, esta enorme desigualdade entre funcionários e trabalhadores da economia privada. Mesmo se os funcionários, como tantos outros, vão ter de pagar a factura das dificuldades actuais, é injusto e demagógico acusá-los das responsabilidades que são exclusivamente dos governos e dos partidos que governaram.
NÃO ME CHOCA QUE A DEMOCRACIA tenha acrescentado ao Estado mais meio milhão de funcionários e outros tantos beneficiários dos sistemas de segurança do Estado, assim como dois milhões de pensionistas. Tudo isso poderia fazer parte de um melhor Estado e de uma sociedade mais decente de que os portugueses necessitam há tanto tempo. O que me choca é que tal tenha sido feito sem peso e medida, sem recursos nem consciência, sem planeamento nem ponderação. Que os toques de alarme não tenham sido ouvidos. E que todos os governos tenham deixado um legado letal a retardador. Fraco o general que faz os soldados pagar pelos seus erros!
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