| Subject: Também lhe dou razão. Já abandonei a brincadeira |
Author:
Calado
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Date Posted: 15/06/05 22:41:35
In reply to:
Ana Maria
's message, "E é em nome destes valores de autenticidade, de verdade, de fraternidade..." on 15/06/05 21:08:01
>Eu não gritei "assim se vê a força do PC" porque nunca
>gostei dessa palavra de ordem. Quando começavam a
>entoá-la eu puxava pela "somos muitos muitos mil para
>continuar Abril" e com a minha teimosia conseguia que
>esta pegasse.
>
>Ao princípio, isto é, quando a urna saíu do Vitória
>bati palmas furiosamente porque a emoção nem me
>deixava falar. Mas quando começámos a subir a Avenida,
>desapareceu esse nó da garganta e nunca tive tal
>sensação de leveza, de orgulho e de pertença. Só mesmo
>quando no Chile a multidão não permitiu que
>continuásemos a avançar é que parei. Mas mesmo agora,
>várias horas depois, apesar das dores nos pés,
>continuo com essa sensação de leveza, de satisfação,
>de alegria.
>
>É que demos ao Álvaro a homenagem que ele gostaria de
>ter. A de comunistas a andarem livremente, por gosto,
>com o povo da cidade e de todo o país, de cabeça
>levantada, de punho no ar, a afirmar orgulhosamente,
>mas sem arrogância, naturalmente a alegria de sermos
>comunistas e de pertencermos a este nosso colectivo.
>Eu que não sou de Lisboa, hoje até me senti lisboeta,
>portuguesa, cidadã do mundo.
>
>E é em nome destes valores de autenticidade, de
>verdade, de fraternidade que eu lhe peço que deixe de
>usar os nomes de camaradas meus. Não há necessidade de
>o fazer, não acha?
>
>
>>Não gritei "assim se vê a força do PC" porque a força
>>do PCP estava ali diminuída pelo desaparecimento do
>>mais ínsigne dos seus militantes; não bati palmas
>>porque acho supinamente aberrante essa moda de bater
>>palmas nos funerais. Curvei-me apenas perante a urna
>>do Homem Ínsigne, do Português Ímpar, do Herói, do
>>Humanista que foi Álvaro Cunhal e senti com profunda
>>mágoa que uma época terminara e a minha juventude e
>>esperança porventura também. Mas apesar de tudo a luta
>>continua.
>>
>>
>>>Por respeito, não vou ao velório nem ao funeral.
>>>
>>>Devo-lhe isso. A sua dimensão merece a homenagem de
>>>não ter um punho caído no meio dos punhos fiéis na
>>>devoção.
>>>
>>>Devo-me isso. Pelo tempo em que o segui e tremia de
>>>orfandade antecipada ao lembrar-me que ele não era
>>>eterno. Segui-o e combati-o. Agora, respeitemo-nos,
>>>respeitando-nos.
>>>
>>>Ele com os seus, eu sem meus. E, no nós, não cabemos
>>>os dois, mesmo que cada qual na sua dimensão – a dele
>>>a transbordar moldura imperial, a minha em letra
>>>sumida de rodapé passageiro como as letrinhas
>>>apressadas a anunciar notícias frescas ou velhas a
>>>seguir no telejornal.
>>>
>>>Não retiro uma letra ao meu combate contra o seu
>>>modelo, a sua liderança, a sua teimosia, o seu
>>>egocentrismo, a sua autoridade unicista e a sua
>>>herança. Muito menos agora que a qualidade de vencido
>>>pela vida, somando-se à de vencido político, o
>>>banaliza na absolvição com que os portugueses tratam
>>>os seus mortos, auto-absolvendo-se da cobardia das
>>>dentadas que não lhes deram enquanto vivos.
>>>
>>>Amei-o décadas a fio.
>>>
>>>Na noite fascista, ele foi o farol do exemplo máximo
>>>de combatente feito homem. Não o seguir seria
>>>claudicar. Pior, era colaborar. E para lutar, mudar,
>>>respirar, só ele tinha direito a lugar no centro do
>>>altar. Cunhal era o Santo em cujo manto de aço se
>>>afiava a espada do combate contra o fascismo, a
>>>opressão, o obscurantismo da sotaina, terço e
>>>sacristia, a exploração desenfreada, a falta do ar da
>>>liberdade, a porrada por discordar e a caneta partida
>>>para não se escreverem sonhos de um qualquer amor.
>>>Concordo com os que dizem que foram Salazar e
>>>Cerejeira que nos ofereceram Cunhal. Para mais,
>Cunhal
>>>ou estava preso, ou clandestino ou exilado, distante
>>>sempre. Isso mais a têmpera única, fizeram o mito.
>>>
>>>Na revolução, ele foi guia na bebedeira
>revolucionária
>>>de querer empurrar a história a pontapé. Porque era o
>>>mais sóbrio de todos. Este abstémio a servir-nos
>copos
>>>de três em rodadas permanentes transformou o seu mito
>>>numa forma de carisma feita culto, distância e
>>>sabedoria. Além de Santo, passou a Sábio.
>Inacessível?
>>>Sempre.
>>>
>>>(Estive com ele várias vezes. Duas vezes, face to
>>>face, em que me senti palerma, seco de palavras e de
>>>capacidade de pensar, esmagado por aquele olhar de
>>>expectativa e só disponível para argumento grande e
>em
>>>ambas suei a bom suar na pressa de me libertar do
>>>magnetismo da sua companhia que me reduzia à mais
>>>ínfima insignificância. Numa outra vez, no meio de um
>>>auditório gordo de malta quente de fervor, ousei
>falar
>>>para discordar do seu discurso, sentindo o que valem
>>>centenas de olhos – menos os dele - virados contra o
>>>peito pela obscenidade da ousadia profana.
>Muitíssimas
>>>vezes fomos companheiros de balcão na Sede para
>>>entreter o estômago para a reunião da noite e
>>>confirmei como se fazia silêncio absoluto para lhe
>>>retribuir a distância no culto maníaco pela lonjura
>>>iluminada, percebendo que, afinal, chamar-lhe
>camarada
>>>era apenas exercício ritual daquele ofício entre
>>>desiguais.)
>>>
>>>Fui seu adversário político noutras décadas. Desde
>que
>>>entendi que ele não era Santo nem Sábio, apenas o
>>>Maquinista de um projecto imutável e cruel. E percebi
>>>que, estar onde ele estava, com ele, só fazia sentido
>>>para lhe dar o Poder que ele usaria, com a mesma
>>>determinação com que combateu o fascismo e a
>>>contra-revolução, mas agora para nos retirar,
>>>primeiro, a liberdade e depois implantar outra
>>>desigualdade, restringindo a fraternidade a um
>círculo
>>>de aristocracia dos devotos mais próximos. Deixou de
>>>me fazer sentido servir Cunhal para voltar a Caxias.
>>>Com Cunhal ou sem Cunhal, porque a sua herança legou
>>>uma versão menor. A última coisa que lhe devo, a
>>>herança que me deixou, foi ter-me conciliado com
>>>alguém que eu detestei décadas a fio – Mário Soares.
>>>Mas, definitivamente, fiquei com o altar vazio de
>>>ícones, curtindo a solidão de perda do nós.
>Paciência,
>>>não se pode ter tudo.
>>>
>>>Respeito a partilha de emoções. Mesmo se colectivas
>>>(ou colectivizadas). Até quando são encenadas.
>>>Desculpo até alguma histeria no excesso de dor para
>>>conferir grandeza emprestada e disfarçada de
>partilha.
>>>Por causa disso é que não vou ao velório nem ao
>>>funeral. Por respeito.
>>>
>>>in http://agualisa3.blogs.sapo.pt/
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