| Subject: E é em nome destes valores de autenticidade, de verdade, de fraternidade... |
Author:
Ana Maria
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Date Posted: 15/06/05 21:08:01
In reply to:
João Luís de Melo e Castro
's message, "Pois eu, por respeito e admiração, fui." on 15/06/05 20:45:20
Eu não gritei "assim se vê a força do PC" porque nunca gostei dessa palavra de ordem. Quando começavam a entoá-la eu puxava pela "somos muitos muitos mil para continuar Abril" e com a minha teimosia conseguia que esta pegasse.
Ao princípio, isto é, quando a urna saíu do Vitória bati palmas furiosamente porque a emoção nem me deixava falar. Mas quando começámos a subir a Avenida, desapareceu esse nó da garganta e nunca tive tal sensação de leveza, de orgulho e de pertença. Só mesmo quando no Chile a multidão não permitiu que continuásemos a avançar é que parei. Mas mesmo agora, várias horas depois, apesar das dores nos pés, continuo com essa sensação de leveza, de satisfação, de alegria.
É que demos ao Álvaro a homenagem que ele gostaria de ter. A de comunistas a andarem livremente, por gosto, com o povo da cidade e de todo o país, de cabeça levantada, de punho no ar, a afirmar orgulhosamente, mas sem arrogância, naturalmente a alegria de sermos comunistas e de pertencermos a este nosso colectivo. Eu que não sou de Lisboa, hoje até me senti lisboeta, portuguesa, cidadã do mundo.
E é em nome destes valores de autenticidade, de verdade, de fraternidade que eu lhe peço que deixe de usar os nomes de camaradas meus. Não há necessidade de o fazer, não acha?
>Não gritei "assim se vê a força do PC" porque a força
>do PCP estava ali diminuída pelo desaparecimento do
>mais ínsigne dos seus militantes; não bati palmas
>porque acho supinamente aberrante essa moda de bater
>palmas nos funerais. Curvei-me apenas perante a urna
>do Homem Ínsigne, do Português Ímpar, do Herói, do
>Humanista que foi Álvaro Cunhal e senti com profunda
>mágoa que uma época terminara e a minha juventude e
>esperança porventura também. Mas apesar de tudo a luta
>continua.
>
>
>>Por respeito, não vou ao velório nem ao funeral.
>>
>>Devo-lhe isso. A sua dimensão merece a homenagem de
>>não ter um punho caído no meio dos punhos fiéis na
>>devoção.
>>
>>Devo-me isso. Pelo tempo em que o segui e tremia de
>>orfandade antecipada ao lembrar-me que ele não era
>>eterno. Segui-o e combati-o. Agora, respeitemo-nos,
>>respeitando-nos.
>>
>>Ele com os seus, eu sem meus. E, no nós, não cabemos
>>os dois, mesmo que cada qual na sua dimensão – a dele
>>a transbordar moldura imperial, a minha em letra
>>sumida de rodapé passageiro como as letrinhas
>>apressadas a anunciar notícias frescas ou velhas a
>>seguir no telejornal.
>>
>>Não retiro uma letra ao meu combate contra o seu
>>modelo, a sua liderança, a sua teimosia, o seu
>>egocentrismo, a sua autoridade unicista e a sua
>>herança. Muito menos agora que a qualidade de vencido
>>pela vida, somando-se à de vencido político, o
>>banaliza na absolvição com que os portugueses tratam
>>os seus mortos, auto-absolvendo-se da cobardia das
>>dentadas que não lhes deram enquanto vivos.
>>
>>Amei-o décadas a fio.
>>
>>Na noite fascista, ele foi o farol do exemplo máximo
>>de combatente feito homem. Não o seguir seria
>>claudicar. Pior, era colaborar. E para lutar, mudar,
>>respirar, só ele tinha direito a lugar no centro do
>>altar. Cunhal era o Santo em cujo manto de aço se
>>afiava a espada do combate contra o fascismo, a
>>opressão, o obscurantismo da sotaina, terço e
>>sacristia, a exploração desenfreada, a falta do ar da
>>liberdade, a porrada por discordar e a caneta partida
>>para não se escreverem sonhos de um qualquer amor.
>>Concordo com os que dizem que foram Salazar e
>>Cerejeira que nos ofereceram Cunhal. Para mais, Cunhal
>>ou estava preso, ou clandestino ou exilado, distante
>>sempre. Isso mais a têmpera única, fizeram o mito.
>>
>>Na revolução, ele foi guia na bebedeira revolucionária
>>de querer empurrar a história a pontapé. Porque era o
>>mais sóbrio de todos. Este abstémio a servir-nos copos
>>de três em rodadas permanentes transformou o seu mito
>>numa forma de carisma feita culto, distância e
>>sabedoria. Além de Santo, passou a Sábio. Inacessível?
>>Sempre.
>>
>>(Estive com ele várias vezes. Duas vezes, face to
>>face, em que me senti palerma, seco de palavras e de
>>capacidade de pensar, esmagado por aquele olhar de
>>expectativa e só disponível para argumento grande e em
>>ambas suei a bom suar na pressa de me libertar do
>>magnetismo da sua companhia que me reduzia à mais
>>ínfima insignificância. Numa outra vez, no meio de um
>>auditório gordo de malta quente de fervor, ousei falar
>>para discordar do seu discurso, sentindo o que valem
>>centenas de olhos – menos os dele - virados contra o
>>peito pela obscenidade da ousadia profana. Muitíssimas
>>vezes fomos companheiros de balcão na Sede para
>>entreter o estômago para a reunião da noite e
>>confirmei como se fazia silêncio absoluto para lhe
>>retribuir a distância no culto maníaco pela lonjura
>>iluminada, percebendo que, afinal, chamar-lhe camarada
>>era apenas exercício ritual daquele ofício entre
>>desiguais.)
>>
>>Fui seu adversário político noutras décadas. Desde que
>>entendi que ele não era Santo nem Sábio, apenas o
>>Maquinista de um projecto imutável e cruel. E percebi
>>que, estar onde ele estava, com ele, só fazia sentido
>>para lhe dar o Poder que ele usaria, com a mesma
>>determinação com que combateu o fascismo e a
>>contra-revolução, mas agora para nos retirar,
>>primeiro, a liberdade e depois implantar outra
>>desigualdade, restringindo a fraternidade a um círculo
>>de aristocracia dos devotos mais próximos. Deixou de
>>me fazer sentido servir Cunhal para voltar a Caxias.
>>Com Cunhal ou sem Cunhal, porque a sua herança legou
>>uma versão menor. A última coisa que lhe devo, a
>>herança que me deixou, foi ter-me conciliado com
>>alguém que eu detestei décadas a fio – Mário Soares.
>>Mas, definitivamente, fiquei com o altar vazio de
>>ícones, curtindo a solidão de perda do nós. Paciência,
>>não se pode ter tudo.
>>
>>Respeito a partilha de emoções. Mesmo se colectivas
>>(ou colectivizadas). Até quando são encenadas.
>>Desculpo até alguma histeria no excesso de dor para
>>conferir grandeza emprestada e disfarçada de partilha.
>>Por causa disso é que não vou ao velório nem ao
>>funeral. Por respeito.
>>
>>in http://agualisa3.blogs.sapo.pt/
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