Author:
Vasco Pulido Valente
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Date Posted: 14/10/05 9:22:44
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "As eleições em FelgOeiras e GondoMarco" on 13/10/05 15:54:25
A tese de que o voto de domingo não foi também, e sobretudo, um voto contra o Governo é uma tese falsa. O "povo", essa entidade inefável, pode ter gostado do aperto que Sócrates deu a certos grupos privilegiados (militares, juízes, professores, por aí fora), embora ele metesse no mesmo saco os "corpos de Estado" - o corpo judicial e o corpo militar - e corporações como os professores. Mas com certeza não gostou da revisão do regime de pensões e de carreiras do funcionalismo, nem do aumento do IVA, nem do jejum orçamental. Sobretudo já viu que não há a esperar tão cedo um alívio do mau tempo económico e, com ele, do desemprego. Isto criou um ressentimento profundo e, pior ainda, insegurança.
O Governo alterou unilateralmente as regras pelas quais viviam centenas de milhares de pessoas: nada o impede de amanhã alterar outras no trabalho, na saúde, na educação. Como em França, como em Itália, como na Alemanha, as pessoas percebem que, em nome da necessidade, se prepara o desmantelamento do "modelo social europeu" e naturalmente reagem a qualquer espécie de mudança, venha ela de quem vier e atinja quem atingir. A consequência é a ingovernabilidade, como se vê um pouco por toda a parte. Na Alemanha, por exemplo.
A fuga e a ligeireza de Guterres, que pareceu na altura uma excepção, a fuga de Barroso, que a dúbia promoção para a "Europa" disfarçou, e, no fim, a loucura do "santanismo" esconderam a lógica da realidade portuguesa: ou seja, como lá fora, a resistência à reforma. Enquanto o primeiro-ministro e os maiorais do PS garantiam insistentemente que o colapso autárquico do partido não afectava a estabilidade da maioria e do Governo, ninguém se lembrou de observar que Guterres se rendeu depois de um colapso igual e que Barroso viu a escrita na parede depois de um derrota arrasadora em eleições para o Parlamento Europeu.
O eng. Sócrates não perdeu o crédito por causa do insignificante Vara ou da habitual voracidade da sua clientela partidária. Seis meses chegaram para fazer dele o inimigo do conservadorismo indígena, que é hoje o conservadorismo dos trabalhadores, da classe média e até de uma pequena parte da "burguesia democrática". Não por acaso, o Partido Comunista, o mais sólido e mais consistentemente conservador, acabou por conseguir os melhores resultados (relativos, claro) da eleição autárquica.
Estes sinais não enganam. Portugal entrou numa fase de crise permanente, que não se deve ignorar, subestimar e obscurecer com futilidades. O desagradável feitio de Carrilho e de Assis ou a natureza política de Isaltino, Valentim e Fátima não contam. São acidentes, não são a substância.
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