Author:
Miguel Sousa Tavares
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Date Posted: 3/09/05 10:50:35
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "Às arrecuas" on 25/07/05 11:16:13
Não sei que "amplos sectores da sociedade" terão convencido Mário Soares a esquecer o "bom senso" de que ele próprio falava há meses e a lançar-se numa aventura que, tudo o indica, terminará de forma inglória e porá termo, enfim e da forma mais injusta, a um percurso político como não há nenhum outro em Portugal.
Que eu tivesse dado por isso, apenas José Sócrates, os caciques das federações socialistas e alguns cortesãos nostálgicos dos dez anos de presidência de Mário Soares se mostraram entusiasmados com tão absurdo come back. Os restantes, incluindo muitos e muitos que estiveram com ele no passado, ficaram-se, siderados por aquilo que Manuel Alegre insinuou ser apenas um capricho monárquico.
Apresentada como um acto de optimismo contra o pessimismo e a descrença reinantes, a candidatura de Soares - a acrescentar à de Cavaco Silva - surge antes, aos olhos de muitos, como um factor mais de desesperança. Vinte anos passados, com o país submerso numa crise do Estado, das instituições e da própria nação, temos como candidatos únicos a chefiar o Estado o homem que teve dez anos e todos os meios possíveis para reformar o país e, como hoje salta gritantemente à vista, não reformou coisa alguma, e um ex-Presidente que confunde o seu maior prazer com os desejos e necessidades da nação e que acha que ter desfilado contra a guerra do Iraque na Avenida da Liberdade e ter sido recebido com gritos de "Soares é fixe" num acampamento juvenil na Figueira da Foz são suficientes garantias de sucesso para os males de que o país padece.
Vi muitas vezes discursar Mário Soares - em Portugal ou no estrangeiro, em discursos de fundo ou de ocasião, em palcos de comícios ou em sessões de Estado. Por vezes, viu-o mesmo forçar os acontecimentos, mudar o rumo da história, mobilizar multidões pela força da palavra e das convicções que deles transpareciam. Nunca, nunca, lhe escutei um discurso tão pobre de ideias, tão vazio de convicção e de razão, tão inútil, tão aborrecido como o de anteontem no Altis. Para uma plateia de pré-convencidos, cuja "juventude" média deveria rondar os 60 anos, Soares produziu um longo e fastidioso relambório de lugares-comuns digno de um director regional do Governo, a que acrescentou uma penosa descrição das coisas que andou a fazer nos últimos anos, destinada a fazer prova de vida. Se se esperava que, mais uma vez, ele fosse capaz de surpreender, de entusiasmar, de mobilizar, o resultado não poderia ser mais oposto. Queríamos saber porquê e para quê, se a pátria estava em perigo, se só ele, com o seu lendário instinto político, tinha visto o que mais ninguém enxergara, enfim, que razão profundamente generosa, que chamamento irrecusável, o tinham trazido ali. Mas, por mim, confesso que não descortinei nada, apenas uma indizível tristeza de quem assiste à reposição de uma peça de êxito com os actores 20 anos mais velhos. Mas também já não havia entendido o episódio da ida de Soares para o Parlamento Europeu, talvez porque nunca tenha conseguido entender deveras este apego ao poder dos homens políticos e a que, em tempos, acreditei que Soares fosse genuinamente imune.
Este funesto mês de Agosto, agora terminado e que deitou por terra, uma a uma, todas as ilusões e esperanças que os primeiros tempos do Governo de Sócrates tinham proporcionado, revelou, de forma exuberante, que o principal problema do país hoje é o problema dos partidos políticos. Da sua falta de credibilidade, de seriedade, de sentido de Estado e de serviço público. Como a democracia é um sistema que assenta no papel decisivo dos partidos políticos, estamos a um passo de confundir a crise do Estado e das instituições com uma crise de regime. Se fosse há 30 anos, tínhamos a estrada escancarada para uma ditadura, que grande parte do país receberia de braços abertos. Felizmente, os tempos e as circunstâncias são outros, mas que ninguém julgue que este contínuo deslizar para a podridão democrática poderá ser mantido indefinidamente como situação normal. Ora, as presidenciais, justamente, podem ser um momento único de reflexão, de regeneração da política, através da emergência de candidatos que representem a parte saudável e não contaminada da nação: a alternativa democrática a uma ditadura pessoal iluminada.
Mas não: o jogo já está feito e o PS e o PSD vão escolher entre si, de facto, quem será o próximo Presidente. Podem-lhe chamar sufrágio universal, mas, quando a escolha se resume a dois candidatos apresentados pelo núcleo duro proprietário da democracia, só resta a alternativa da abstenção ou do voto em branco. Portugal precisava e desejava outras e diferentes alternativas. Não as terá. Não poderá jamais tê-las - na Presidência da República, no Parlamento, nas autarquias - enquanto o sistema estiver assim montado. A democracia confundiu-se com o Estado e este com os partidos.
Se algum serviço verdadeiramente relevante Mário Soares poderia ainda prestar a Portugal, era justamente o de denunciar este abafamento da vida democrática, liderar o combate pela reflexão e regeneração do sistema, ajudar a emergir uma nova geração política, com novos valores e novos métodos. Mas pelo contrário: aceitando ser candidato apenas porque teve o apoio do estado-maior do PS (e só depois de o garantir), Soares fica automaticamente refém do apoio e emblema do sistema. Por mais que agora e depois trate de repetir que não é candidato do Partido Socialista, é exactamente isso que ele é. É porque Sócrates resolveu apoiá-lo a ele e não a Alegre que ele é candidato e Alegre deixou de ser. Porque não há vida nem há via para Belém sem ser à boleia de um dos dois partidos donos do regime.
Por isso, a candidatura de Soares não vem regenerar nem renovar nada. Pelo contrário, vem continuar o que está e vem dizer às pessoas que não há saída nos anos mais próximos. Não havia necessidade de voltar para nos dizer isto. Jornalista
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