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Subject: Sobre Mário Soares: as presidências não são apenas um cálculo aritmético!


Author:
www.comunistas.info
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Date Posted: 17/09/05 12:18:31

As presidências não são apenas um cálculo aritmético!

Paulo Fidalgo, 17/09/05



Vencer as presidenciais é com certeza um objectivo.



Mas a vitória da democracia carece de uma constante renovação e aprofundamento. Sob pena de andarmos apenas a administrar o status quo.



Para quem observa com distanciamento a história, poderia dizer-se que o rotativismo de bloco central está na origem de um grave imobilismo de políticas e de soluções governativas, que frustram as aspirações nacionais, iludem o desenvolvimento, aprofundam as desigualdades, engendram a corrupção e as conexões perigosas da política, do futebol e dos contratos ilícitos entre clientes públicos e fornecedores privados.



Este apodrecimento por onde espreitam providencialismos e concepções autoritárias alarma os democratas. Como tem aliás alertado infatigavelmente Manuel Alegre.



Ora, apostar numa solução presidencial, potencialmente maioritária em termos meramente aritméticos, mas essencialmente defensiva, que reproduz de facto o sistema em que temos vivido, poderá dar tranquilidade a Sócrates e ao seu governo, que dela bem precisam para escapar ao protesto popular. Pode até afastar o espectro de uma incerta coabitação com um presidente de direita. Mas a aposta em Mário Soares não deixa de suscitar muitas interrogações.



Se é uma evolução positiva da direcção do PS o tentar ganhar as presidenciais, quando muitos no largo do Rato se resignavam e até advogavam a ideia da coabitação com o candidato da direita, a verdade é que a aritmética fica em fanicos se o cheiro que sair desta iniciativa for o de uma colagem entre o PS oficial, o seu governo, e o candidato à presidência Mário Soares.



É preciso ser claro: o aroma de correia de transmissão entre o PS e o governo e Mário Soares tornam fraca a forte maioria de esquerda, a todos os títulos histórica, surgida nas últimas eleições legislativas. Essa maioria pode com certeza voltar a formar-se mas só se, nela e dela, não emergir a ideia de ressuscitar o principal factor de divisão na esquerda (no PS, e à sua esquerda): o governo do engenheiro Sócrates.



Essa maioria germinou na condenação dos desmandos do governo das direitas e na esperança de reformas inadiáveis. Os portugueses favoreceram que a esquerda à esquerda do PS, se consolidasse como espaço incontornável na política nacional.



Não surgiram é verdade, por enquanto, sinais de que uma alternativa se venha de facto a gerar. O PCP e o BE não produziram propriamente uma proposta de governo. O PS sentiu margem de manobra para formar governo ao centro e para escapar à resultante da maioria política e social que então se formou. Com este governo excêntrico, se olharmos ao ponto central da maioria de alcançada nas legislativas, a esquerda fragmentou-se e a luta contra o governo passou a mobilizar parte importante dos seus componentes. É portanto irrealista tentar forçar uma solução presidencial que tenha como pressuposto a ideia, que de resto parece passar pelos actuais dirigentes do PS, de obrigar a esquerda que combate este governo a submeter-se aos que o querem impor, para que Mário Soares possa disputar a vitória.



É uma evidência que a táctica de angariar por via das presidenciais um novo fôlego para o governo é uma obstinação sem saída. Com a tremenda recessão em curso, e o uso e abuso de medidas caducas de ajustamento, contraria o governo as esperanças dos eleitores. Não era isto que estava no programa quando tantos depositaram o seu voto no PS e na esquerda. É porventura por causa das autárquicas que podem não correr bem, e uma base social de apoio que se afasta, que as campainhas de alarme tocaram no largo do Rato e fizeram a direcção socialista descolar das sereias que entoavam o cântico da coabitação.



O PS percebeu a ameaça de Cavaco mas procurou uma saída que lhe permitisse não inflectir, com a necessária profundidade, o rumo que leva. Antes mostra preferir continuar a mesma orientação, sem correspondência com o sentimento maioritário das legislativas. É aparentemente esse o investimento dos que, no PS, descobriram à última da hora o filão Soares.



Melhor seria que as razões da erosão da base de apoio ao governo fossem equacionadas e se percebesse afinal que só pode um candidato presidencial almejar a vitória na medida em que deixe de ser parte de maquinismo que procura travar a queda do governo. A vitória só será possível se a candidatura constituir exactamente um momento de reequacionamento de expectativas. Um momento onde o país se abre às ideias que em última análise permitirão dar o pontapé na crise. Só na perspectiva de um país novo pode a grande maioria aritmética da esquerda transformar-se em maioria política e um candidato da esquerda alcançar a vitória. Fora deste horizonte, a candidatura de Mário Soares, por enquanto apenas a candidatura da direcção do PS, arrasta-se numa apagada e vil tristeza.



Ao lembrar-se de Mário Soares, a reserva da nação, O PS persegue pois, sobretudo, a segurança do seu governo sem cuidar verdadeiramente de atalhar aos factores que tornam inseguro o seu futuro.



Com este tipo de embrulho, a candidatura de Soares abrirá com certeza espaço ao travestismo oposicionista da direita e desmobilizará o eleitorado que não acompanha o continuismo. Um candidato da esquerda, mas conformista com o rumo que o país leva, favorece a propaganda da direita e pode proporcionar-lhe a vitória, por falta de comparência nas urnas, da esquerda que não se conforma.



Para reaproveitar o capital político reunido nas últimas legislativas, um candidato de esquerda, nos estritos limites e prerrogativas da função presidencial, tem de se apresentar com um discurso mobilizador da esperança num país melhor. Que seja claro no esforço de englobar todos os segmentos da vida nacional, sobretudo a esquerda fora do governo, os trabalhadores e o movimento social, e tenha sobretudo firmeza na denúncia dos nó-górdios que aprisionam a democracia no pântano dos interesses. Um discurso mobilizador pelo lado construtivo é a forma de capturar o centro eleitoral, mas igualmente de mobilizar a esquerda, demasiado céptica de resto para engolir o sapo de avalizar uma política e um governo, mesmo que seja Mário Soares a pedi-lo.



Sem competir ao Presidente de República formular programas concretos, o seu alto magistério deve contudo funcionar como consciência dos anseios e preocupações que mais inquietam os portugueses. De entre esses, o que importa é divisar o rumo, o plano, que vai fazer andar o país. A este desígnio de encontrar uma solução mais avançada, a direita e Cavaco nada terão a propor, a não ser a teimosa insistência em soluções mais do que condenadas.



É pois neste caldo de uma candidatura presidencial socialista, aparentemente estreita, que se desenvolvem incomodidades e tentativas de gerar outras soluções. Esse é deveras o sintoma que deveria fazer reflectir toda a esquerda: como atalhar ao mau estar que a situação encontrada comporta?

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