Author:
Vasco Pulido Valente
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Date Posted: 16/09/05 17:28:33
Acampanha do dr. Mário Soares continua a pensar que na 2.ª volta vai "fazer" o "pleno da esquerda". Não se percebe este optimismo. A teoria parece ser a de que na 1.ª volta Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã "fixarão" o eleitorado do PC e do Bloco e que na 2.ª volta o mandarão votar contra Cavaco. As sondagens dizem o contrário e o que dizem - que uma parte apreciável do voto do PC e do Bloco passará directamente para Cavaco -, à primeira vista, é lógico. Pelo que se vê na televisão e se lê nos jornais, Jerónimo de Sousa está a "fixar" o eleitorado do PC contra o PS, ponto em que Louçã o irá forçosamente seguir. Como podem eles depois pedir a uma gente em pé de guerra com o PS o voto no candidato do PS. Ah, mas Soares tenciona tomar as suas distâncias do PS! Se tomar, não convence ninguém (afinal foi Sócrates quem o convidou) e ofende o único partido que em princípio o apoia e que já o engoliu contrariado.
Esta embrulhada táctica não é acidental. Existiu desde sempre na esquerda em todo o mundo; e em Portugal, naturalmente, também. O próprio Soares não apoiou a reeleição de Eanes, dividiu o PS e abriu uma guerra que só acabou com a mísera extinção do PRD. O próprio Soares, na primeira eleição para Belém, e fora Pintasilgo, teve contra ele Zenha, à cabeça da franja radical do PS e de um PC militantemente ortodoxo. Tirando com Sampaio, que chegou à Presidência numa onda geral de rejeição do "cavaquismo", a esquerda nunca se uniu, excepto, com repugnância, à 2.ª volta. E porquê? Por medo. Por medo da AD e de Sá Carneiro em 1981 e em "86 por medo de Freitas. Talvez seja bom lembrar que em 1980 não existia ainda a revisão constitucional de "82, nem em "86, quando Soares ganhou quase por milagre, a de "89. Em 1981, a esquerda queria uma tutela militar para impedir que a direita submergisse o regime; em "86 queria defender o que restava das "conquistas da revolução" (e Freitas não ajudou com uma campanha estridente e "revanchista").
E agora? O medo da direita, que deixou de ser "material", volta a funcionar? Não volta. Por duas razões. Para metade da esquerda a direita é Sócrates, com a agravante da inépcia. E para o Bloco e o PC a sobrevivência depende da preservação da sua identidade e não da espécie de "frentismo" que Soares representa e propõe, e que, em última análise, apagando as diferenças, beneficia o PS. Resta evidentemente o espectro de um Cavaco autoritário e "gaullista", pronto a subverter a República e a varrer a politicagem. Há, no entanto, um perigo nisso: e se o país gosta da ideia?
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