Author:
José Manuel Fernandes
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Date Posted: 12/08/05 18:56:52
Se o primeiro-ministro não estivesse de férias no Quénia talvez tivesse podido tomar uma medida de elementar higiene política: evitar que alguns dos seus ministros andassem a escrever barbaridades para os jornais
Primeiro foi o ministro da Economia, Manuel Pinho. Em artigo no Expresso defendeu a Ota e o TGV com base num estudo sobre o efeito do investimento público que incidia no período entre 1976 e 1998, altura em que Portugal era um país sem infra-estruturas. Já aqui denunciei tal falácia, mas entretanto vi com alegria um dos autores do estudo, Marvão Pereira, vir dizer que o seu trabalho académico não servia para caucionar as opções do Governo.
Agora foi o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, a escrever para o Diário Económico, pedindo "decoro" e insurgindo-se contra "a demagogia". O texto chega a ser penoso de ler, pois para o ministro tudo se resume a uma luta política dirigida contra o Governo e as "difíceis medidas que este tem vindo a aplicar", afirmação espantosa quando o primeiro texto a levantar dúvidas sobre a bondade deste tipo de investimentos foi escrito por Campos e Cunha, então ainda ministro das Finanças e principal rosto das tais "difíceis medidas". Mais: o grosso do debate público tem sido protagonizado por cidadãos sem militância partidária, por gestores como os presidentes da TAP e da Portugália e até por economistas da área política do Governo, como alguns dos subscritores do "manifesto dos treze".
O ministro fala a seguir sobre a "pretensa inexistência" de estudos, mas teve o azar de o seu texto ser divulgado no mesmo dia em que o PÚBLICO escrevia que o seu ministério reconhecia que faltava o estudo fundamental, o de viabilidade económica. Mais: também classificava de "pretensa" a inexistência de divulgação pública dos estudos existentes quando da lista de 70 trabalhos que o ministério disse existirem, apenas um está disponível no site da NAER-Novo Aeroporto, SA, sob a designação de "EPIA - Estudos Preliminares de Impacte Ambiental". Quanto aos restantes, o ministério diz que os divulgará em conjunto com o tal estudo que falta fazer e só lá para Outubro, data que o próprio ministro adianta no seu artigo, sem ter reparado que assim se desmentia a si próprio. Pior: ao verificar a lista que ontem publicámos, notámos a falta do estudo que contraria a urgência da opção pela construção de um novo aeroporto na Ota, o que foi realizado pela empresa que gere o aeroporto de Manchester, cujo conteúdo hoje recordamos. Ou seja: não só falta realizar o crucial estudo económico e não estão disponíveis 69 dos 70 estudos que se diz existirem, como o ministério omite na sua lista um estudo desfavorável à opção tomada. Se Mário Lino anda à procura de mistificações, talvez devesse começar por não se dedicar ele mesmo a construí-las.
Por fim, é espantoso que tenha enchido página e meia de jornal com torrencial prosa, mas tenha omitido quer onde podemos encontrar um estudo - só pedimos um - que nos mostre como vai ser e por onde vai passar o TGV, quer onde podemos consultar a lista completa dos projectos que foram seleccionados para integrarem o PIIP (Programa de Investimentos em Infra-estruturas Prioritárias).
É talvez pedir demais. Até porque Mário Lino tem o seu tempo e o seu ritmo. Basta recordarmo-nos que foi só em 1991, dois anos depois de o Muro de Berlim lhe ter caído em cima da cabeça e quando já contava 51 anos, que descobriu a mentira do comunismo e rompeu com a ortodoxia do PCP, de onde foi expulso. É duvidoso, pois, que ainda vá a tempo de descobrir que não é com o toque de Midas das obras que encomenda que tira o país da depressão: isso perceberão os que ficarem para pagar a factura.
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