Author:
Vasco Pulido Valente
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Date Posted: 12/08/05 19:07:55
Carrilho e Prado Coelho admitiram esta semana por meias palavras que reprovam a candidatura de Soares, protestando, evidentemente, que não querem pôr em causa a unidade do partido. De qualquer maneira, resta o facto de que a esquerda do PS não gosta, e nunca poderá gostar, de Soares. Ele afinal foi o homem da resistência ao PREC e ao MFA; da "contra-revolução legislativa" de "76/77; da aliança com o CDS; do "Bloco Central"; da guerra contra Eanes; do sumário afastamento dos "militares de Abril" e da aliança implícita com Cavaco no princípio da sua Presidência. Toda esta composição com a direita foi vista com rancor pela gente, que, recusando o PC, escolhera o PS como um mal menor. As candidaturas de Zenha e Pintasilgo, em "86, mostraram claramente até que ponto chegava a hostilidade ao homem.
Pior ainda, em Belém, Soares não deixou, como a esquerda esperava, de intervir no partido. Embora cheio de razão, correu rapidamente com Vítor Constâncio. Não levantou, muito pelo contrário, um dedo para ajudar Sampaio. E tentou fazer a vida negra a Guterres, especialmente com o congresso "Portugal: que Futuro?" (uma iniciativa extraordinária para um Presidente em exercício). A ideia era preservar a sua influência no PS, que ele o considerava, e considera, como criação e propriedade quase pessoal. O resultado acabou por ser que se incompatibilizou com as poucas pessoas que insistiram em conservar um vestígio de independência. Nem Guterres, nem Gama, nem Sampaio, por exemplo, morrem de amores por Soares. Mesmo Sócrates (que preferia Guterres) só o aceitou em desespero e desconfia dele.
Entretanto, houve a queda do Muro e o colapso do império soviético e Soares ficou no desemprego ideológico e político. O anticomunismo que sempre o inspirara já não lhe servia para nada. Como John Le Carré ou Tom Clancy perdeu o "assunto". Precisava de uma causa e, por isso, influenciado por cinco anos de Bruxelas, virou para a esquerda. E não virou moderadamente, virou radicalmente. O anticomunismo passou a antiamericanismo, a utopia "europeia" a defesa à outrance do Estado-providência e a recusa estridente do que chama "globalização liberal". Isto devia em princípio permitir que a esquerda, sua velha inimiga, o adoptasse. E, em parte, adoptou. Mas não o considera um dos seus. O apoio que lhe dá é forçado, relutante, azedo. A memória pesa e também o medo do que ele, se for eleito, tenciona perpetrar em Belém. Daí os desabafos.
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