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Subject: O fim dos intelectuais


Author:
Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva
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Date Posted: 13/08/05 18:06:58

NA 2.ª metade do século XX, havia um grupo de pessoas a que os esquerdistas mais velhos ainda fazem, por vezes, referência. Eram os «intelectuais», ou praticamente sinónimo, «intelectuais de esquerda» (a direita, por definição dada pela esquerda, não tinha intelectuais). O que era um intelectual? Era bastante simples imitá-los. Havia que citar Marx, ter preocupações sociais bastante abstractas e independentes da felicidade ou infelicidade das pessoas. Além disso, havia um cunho estético muito marcado nos intelectuais: gostavam de arte moderna, rejeitavam toda a tradição romântica e favoreciam uma visão «estrutural», sem sentimentos, do mundo, que se traduz muito bem na arquitectura de aço, vidro e betão e, na música, pelo serialismo, uma técnica de composição em que os elementos meramente formais têm importância enquanto que o conceito de beleza não a tem. Tudo tinha de ser «puro», «desencarnado». Alternativamente, podia-se admirar a estética de culturas diferentes da nossa: o «étnico», embora diferente do «puro», podia, em certo sentido, coexistir com ele.

Todos os intelectuais eram de esquerda porque, para se entrar nesses círculos, era necessário partilhar o credo marxista. Não sei até que ponto os vários intelectuais sérios o partilhavam (Althusser, por exemplo, é uma espécie de idealista do materialismo). Em qualquer caso, Marx era apenas uma figura de identificação. A verdadeira ideologia resumia-se a uma atitude: quebra com o passado e com a burguesia. É essa noção de quebra que se encontra nos ângulos do modernismo, quer musical, quer plástico, quer arquitectónico. Havia uma estética da ruptura com o nosso passado cultural.

Havia outro elemento estético: a ininteligibilidade e extrema codificação dos significados. Barthes, um dos mais puros intelectuais de esquerda, é, ao mesmo tempo, interessante, grosseiramente trivial, especiosamente frívolo e, claro, era um homem da ruptura. Mas nenhum dos intelectuais de esquerda consegue a beleza de ininteligibilidade de um Jacques Lacan na escrita ou de um Pierre Boulez na música. Ler Lacan é ou um desespero, se se tiver a ilusão de que ele diz qualquer coisa importante, ou um exercício de desmontagem da afirmação de coisa absolutamente nenhuma. Ouvi Pierre Boulez dizer, de uma das suas peças menos compreensíveis, que a explicação da peça era muito simples: baseava-se num intervalo ascendente (de qualquer grau) e na sua inversão; o que quer mais ou menos dizer que se baseava em duas notas que sobem ou que descem...

Os filmes dessa época eram, além de alguns que são efectivamente bons, apenas baseados em sequências que, aparentemente, não tinham qualquer sentido. Um filme característico é a versão cinematográfica do L’Année Dernière à Marienbad, de Alain Robbe-Grillet, arauto do Nouveau Roman, o romance novo que não tinha história nem nexo aparentes. Para que esses conjuntos de imagens e de diálogos ganhassem significado tinha de se lhes detectar a estrutura, escondida pelo jogo ilusório dos signos e sinais.

Apesar de as mensagens muitas vezes não terem qualquer sentido aparente (e muitas vezes também, sem significado absolutamente nenhum), estava implícito que havia uma mensagem. Para se poder compreendê-la eram necessários hermeneutas, tradutores. Mas esses hermeneutas usavam uma linguagem de tal maneira escondida que nem sequer se percebia se eles tinham compreendido o filme ou o romance (o que certamente não é coincidência). Entre nós, dois típicos hermeneutas foram José Pedro Vasconcelos (agora, salvo erro, comentador de futebol) e Prado Coelho filho (agora pós-moderno). Numa linha algo diferente, Vicente Jorge Silva (na época, do EXPRESSO; como director do «Público» foi um excelente editorialista) foi também um bom exemplo. Havia intelectuais de esquerda que falavam claro: António José Saraiva era um deles; mas ele foi sempre tão desalinhado que nunca se alinhou com o desalinhamento ordenadíssimo dos intelectuais de esquerda.

A quem lê isto agora, parece tudo muito cómico. Mas não era. Todos os intelectuais de esquerda tinham ou um ar terrivelmente severo ou um sorriso superior. Não se podia questionar a sua seriedade intelectual.

Para quem tinha tão pouco para dizer, estes intelectuais influenciaram de facto o mundo. A estética foi destruída; as noções de ética do passado também; e, em geral, nada restou. Todo este exercício de destruição (a que depois se chamou «desconstrução») tinha um teor messiânico: esperava-se a vinda da nova época em que a burguesia desapareceria. Para alguns, isso significava o triunfo da União Soviética; para outros, qualquer revolução que satisfizesse as tendências clássicas (quer dizer: vontade de quebrar e destruir).

Falei, aqui, dos intelectuais de esquerda que mais influenciaram a minha juventude. Mas houve os anteriores, e com uma agenda bem definida: servir a União Soviética. Há casos, documentados, de perseguições não oficiais a intelectuais e académicos apenas por não serem de esquerda.

Mas o discurso oficial soviético não podia ser completamente defendido. A partir dos anos 70, os partidos comunistas começaram a perder votos. E a revolução clamada pelos intelectuais tornava-se casa vez mais incongruente: falava-se de proletariado, e ele não existia em número significativo; de camponeses que passavam fome, e eles não existiam. O facto é que, depois da Guerra, a Europa se tornou, até à crise do petróleo, um local onde o capitalismo triunfou completamente. Os proletários deixaram de o ser; os camponeses com fome desapareceram. Para quem falavam, pois, os comunistas com os discursos de Lenine? Onde estava a realidade social dos proletários? Alguns chefes comunistas, como Enrico Berlinguer, compreenderam a necessidade de mudar. Outros, como em França e, notavelmente, em Portugal, o país mais reaccionário mesmo na causa revolucionária, continuaram a defender uma vanguarda de um proletariado inexistente que era apenas um conjunto de funcionários cheios de privilégios no então presente ou uma clique de psicopatas assassinos no passado.

O discurso falhava, pois, o alvo, porque não havia alvo. Os intelectuais passaram, então, a falar uns para os outros. Foi nessa fase que os apanhei e os conheci, no fim da minha adolescência. Entre eles viviam a ilusão da necessidade socialista, da revolução, mesmo que só pela linguagem (Barthes). Ainda assim tinham influência, ou pelo menos eram escutados e estudados nas faculdades. Assisti de perto à formatura (com notas altíssima) de uma aluna de Letras nos anos 80. Devo confessar que nunca vi tanto despautério, tanta afirmação descabelada, tanta imbecilidade entronizada. Não, não fui eu que não percebi. Se percebi Kant não havia de perceber uma famosa professora de letras que dizia que os problemas de linguagem de Vasco Gonçalves (que se corrigia constantemente ao dizer as frases mais simples) eram um índice revolucionário, pois ele punha o seu próprio discurso em causa de cada vez que falava? Não, não há desculpa.

Mas defender a União Soviética (ainda que da forma mais indirecta e quimérica) tornou-se impossível depois da Glastnost. Pessoas que toda a vida tinham ouvido falar das chacinas de Staline sem as pôr em causa, viram-se, de repente, sem quem as protegesse - como os apóstolos depois da morte de Jesus. Tal como os discípulos, tinham abandonado tudo (a moral, a estética, a própria lógica) à espera da vinda do Messias. Mas foi o próprio Messias que disse, pela boca de Gorbatchov, que não viria, e que nem sequer existia. O que fazer?

Sem valores, mas com contra-valores; sem verdades e sem contra-verdades, sem estética rígida e dogmática (porque os dogmas desapareceram), sem missão messiânica, o que puderam eles fazer?

Deleitar-se com o facto de os valores serem todos relativos. Achar muito engraçado mostrar que nada tem sentido. E então fizeram-se pós-modernos. É engraçado citar; é engraçado imitar, mas de maneira grotesca, a ornamentação; é fascinante gostar do grotesco porque é tolo e não faz sentido. Não é por acaso que Tom Waitts, um «clown» que nem cantar sabe, é uma figura de culto. A outra hipótese é cultivar a depressão da falta de sentido de Laurie Anderson, ao mesmo tempo que se procura subir nas carreiras artísticas.

Ficou, pois, o vazio. Mas, o mais caricato de tudo isto, é ser a afirmação da ausência de valores que foi propalada pela esquerda (e quase demonstrada, porque os valores são necessariamente uma construção) que abriu o caminho ao capitalismo mais selvagem. Em nome da liberdade, e perdidos que estão os valores, pode vender-se tudo. As consciências sempre se venderam, como os intelectuais sempre o mostraram. Mas agora vende- se tudo: pornografia repelente, violência alucinante, a estupidez mais sórdida, e até drogas que se sabe serem mortais. E tudo isto em nome da liberdade e da democracia - democracia capitalista, que o foi sempre. Mas enquanto era também burguesa sempre havia alguns valores.

Estamos, pois, em roda livre. O capital manda no mundo como nunca sucedeu até agora (penso eu - admito que possa estar a ser ingénuo), sem quaisquer restrições morais. E os jovens crescem sem referenciais, sem valores a não ser a competição ou o prazer. Falar de «dever» a um jovem leva-o sempre a protestar: não gosta do termo. «Honra» faz rir. «Pátria» dá náuseas. Não estou a defender estes valores em particular. Mas foram conquistas difíceis para tornar o mundo vivível, as relações entre as pessoas toleráveis e, no fim de contas, permitir um mínimo de harmonia na sociedade. E não existe qualquer sociedade que não tenha valores positivos, isto é de afirmação dogmática.

O curioso é que os intelectuais desapareceram. Eles ainda existem? Sim, em certos bares, ligados a meios artísticos e muito misturados com o pós-modernismo e os grupos homossexuais. São uma espécie de gueto a que se remeteram os autoproclamados detentores da verdade. Mas já não têm qualquer influência, porque ao defenderem a ausência de valores deram caminho totalmente livre ao capitalismo que, no processo, se alimenta deles - dando-lhes produtos culturais de segunda ordem - e são substituídos por «entertainers» que dizem imbecilidades e alienam as pessoas (tenho bem consciência de que estou a usar um conceito marxista; mas o meu problema nunca foi com Marx mas com a União Soviética). E, como se destruíram os valores sobre que a nossa civilização assentava, nem sequer há alternativas. De modo que, de mãos juntas, comunismo e capitalismo conseguiram destruir o altíssimo nível cultural a que tínhamos chegado no Ocidente. Curioso paradoxo. Dramática situação.

Professor da Universidade de Lisboa

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Subject Author Date
Biografia intelectual (prefaciada)Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva13/08/05 19:37:00


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