| Subject: O vulcão adormecido das finanças globais |
Author:
Michel Rocard
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Date Posted: 19/08/05 9:37:36
A rejeição do Tratado Constitucional da União Europeia pelos votantes franceses e holandeses foi, segundo toda a evidência, mais uma rejeição de uma globalização desregulamentada do que uma rejeição da Europa.
A instabilidade geral das relações sociais - principalmente, mas não só, do desemprego - está a ficar lentamente intolerável para uma parte cada vez maior da população em muitos países desenvolvidos, não apenas na Europa. E não pode haver uma ordem económica estável - pelo menos nos países democráticos - se o eleitorado rejeita os seus alicerces.
O capitalismo pôde ser reconstruído depois da Segunda Guerra Mundial porque foi assente em três tipos fundamentais de regulamentação segurança social, que serviu como principal estabilizador, pelo menos nos países desenvolvidos; ferramentas keynesianas para combater as cíclicas curvas descendentes domésticas; e uma política universal de salários elevados destinada a estimular o consumo generalizado, sem o qual a génese do capitalismo - a produção em massa - não funciona.
Mas o realinhamento dos países desenvolvidos e ricos à volta de políticas monetárias promovidas por economistas como Milton Friedman, as quais começaram por volta de 1970, acabou com tudo isso. Pouco tempo depois, o dólar era desligado do ouro. Desde então, o sistema financeiro internacional tem sofrido uma instabilidade quase constante. As crises multiplicaram-se, com cada uma a parecer pior do que a anterior.
Por todo o mundo rico a pobreza voltou a aparecer. Desigualdades internas e externas têm vindo a crescer a uma velocidade impressionante. O emprego é cada vez mais precário. E onde o desemprego tem sido preferido à insegurança geral no trabalho, tornou-se impossível de suprimir.
Foi a este estado de coisas que os franceses e os holandeses disseram "não" há dois meses.
Paradoxalmente, contudo, é provável que uma Europa unida venha a ser mais necessária do que nunca num futuro próximo, muito mais do que foi no passado. No fim de contas, para além da miséria social causada pela crueldade nova-mente instituída pelo actual sistema económico global, o maior perigo que o mundo enfrenta hoje em dia é a instabilidade inerente a esse próprio sistema.
Não vejo nenhuma instituição que não a União Europeia que tenha peso e tamanho suficientes para proteger os europeus de uma possível implosão.
Consideremos o simples facto de a economia americana ter agora uma dívida superior a 600 mil milhões de dólares. Os Estados Unidos não podem funcionar sem estarem aptos a pedir emprestados 1,9 mil milhões de dólares todos os dias do ano, principalmente às economias emergentes da Ásia e acima de tudo à China.
Mas este apoio pode diminuir ou mesmo acabar se o dólar cair muito baixo, se o preço do petróleo aumentar demasiado, ou se a economia americana entrar em crise. Na realidade, a economia dos EUA tem vindo a tornar-se cada vez mais distante da realidade. O seu sector industrial representa agora uns meros 11% do PIB americano. A Ford e a General Motors estão com grandes dificuldades financeiras.
Entretanto, duas bolhas especulativas - no mercado imobiliário e nas hipotecas - ficaram enxertadas uma na outra e dominam agora a actividade económica nos EUA. É muito provável que aconteça uma crise, ou pelo menos um espasmo violento, num futuro próximo e, as consequências - para a América e para o mundo - podem ser catastróficas.
Esta instabilidade torna também difícil lidar com outros problemas graves que afectam o sistema financeiro global. A imensa dívida, necessária a todos os países, mas particularmente aos mais pobres, sofre profundamente com as erráticas taxas de juro e as alterações das taxas de câmbios. A ausência de um emprestador de último recurso no mundo actual apenas aumenta a ameaça inerente a cada crise.
Para tornar as coisas piores, os fracassos domésticos não podem ser resolvidos sem agravar a situação. É claro que - e evidentemente, acima de tudo o resto - em tais circunstâncias, os enormes investimentos necessários para ultrapassar o subdesenvolvimento e as inca- pacidades que ele acarreta são cada vez mais esquecidos pelo mundo financeiro internacional.
Com os países ricos ameaçados pela instabilidade e os países pobres em grande parte entregues aos seus próprios meios, a reconstrução do sistema financeiro mundial deveria estar no topo da agenda internacional. Um novo Bretton Woods não poderia ser mais urgente!
Michel Rocard, ex-primeiro-ministro de França e líder do Partido Socialista, é membro do Parlamento Europeu.
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