| Subject: O PCP, o PS e a distribuição de papeis à esquerda |
Author:
Manuel Correia
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Date Posted: 30/07/05 9:11:27
In reply to:
Ruben de Carvalho, DN, 30/07/05
's message, "Ota e TGV - a confusão" on 30/07/05 7:36:42
O PCP, o PS e a distribuição de papeis à esquerda
Isto é assim mesmo. Cada um fala do que quer quando melhor lhe aprouver. Mas eis que um outro aspecto das falas e das análises ganha proeminência, - o do sentido de oportunidade de acordo com o calendário político-eleitoral.
De acordo com esse calendário, o mais importante é conseguir o maior número de votos possível, pois é com eles que as forças políticas fazem valer a sua influência legítima.
Por isso, em véspera de eleições autárquicas com dificuldades acrescidas a ensombrarem as metas do PS, devido, em grande parte, aos sacrifícios pedidos a determinados grupos sociais e profissionais, é significativo que um socialista venha expor publicamente as suas preocupações quanto ao papel que hoje o PCP desempenha. (Refiro-me, é claro, ao poste anterior, assinado pelo meu amigo Raimundo Narciso).
Porque «tende paulatinamente para valores residuais»? Não. Porque aparenta uma influência social que excede visivelmente os seus scores eleitorais.
Não sendo este um dado novo (o PCP elevou a sua influência eleitoral até final dos anos 70 e entrou, depois, num declínio gradual até ao presente) a sua influência político-social sempre excedeu visivelmente os resultados eleitorais obtidos, se comparado com os restantes partidos do arco parlamentar.
Essa característica radica, suponho, na cultura política que tem raízes históricas na luta antifascista, em que muitos portugueses (e eu com eles) conhecendo embora bastante daquilo que considerávamos perversões do socialismo, apostámos no PCP como organização cuja capacidade organizativa e dinâmica revolucionária oferecia especiais garantias na preparação e execução do derrube do fascismo.
De facto, o PCP perdeu muita da sua influência mas permanece um marco, um ponto de referência, na defesa dos direitos dos trabalhadores e na obstinação anticapitalista. Aquilo que, não tendo completamente desaparecido das preocupações do PS, acusa hoje um défice notável.
O PS não pode aspirar a ganhar a simpatia dos grupos sociais afectados pelas políticas que está a implementar. Não está a conseguir convencê-los de que o sacrifício que lhes exige é justo, vale a pena, e garante um futuro melhor. As lutas sociais comprovam isto.
Acusar, agora, os sindicalistas de se deixarem instrumentalizar pelo PCP, ou acusar o PCP de estar a encorajar e a tentar coordenar essas lutas, não adianta nada ao que tem sido repetitivamente propalado nos últimos trinta anos.
Os sindicalistas do PS e os seus domínios de influência não estão muito longe do mesmo sentimento, nem deixam de acompanhar muitas movimentações que têm tido lugar.
Penso que o problema é outro.
O PS está a governar demasiado à direita. Pôde contar com uma maioria absoluta. Não pode contar nem com o entusiasmo nem com o apoio de uma boa parte (talvez a maior) dos que lhe confiaram os seus votos.
E esse é que é o problema.
Também não é novo, mas desta vez reveste uma gravidade particular.
# posted by MC, //puxapalavra,blogspot.com
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