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José Manuel Fernandes
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Date Posted: 1/08/05 14:00:59
Elevação no debate?
José Manuel Fernandes
Depois do artigo de Manuel Pinho ainda ficamos mais receosos sobre as reais motivações das grandes obras
O ministro da Economia, Manuel Pinho, pediu no sábado, em artigo publicado no Expresso, elevação no debate sobre os investimentos no aeroporto da Ota e no TGV. Infelizmente, no entanto, todo o seu artigo era um exemplo de falta de elevação.
Primeiro, o ministro invocou o Plano de Investimentos Prioritários (PIIP), no valor de 25 mil milhões de euros a aplicar até 2009, sublinhando que não pode ser acusado de despesismo pois apenas representa 30 por cento do investimento previsto para este período. Ora o ponto não é esse: o ponto é saber se os investimentos nele incluídos são realmente "prioritários", uma discussão que dificilmente se pode ter com elevação já que, se se fez um grande alarido com o plano, até ao momento só conhecemos as obras emblemáticas, não os dois mil projectos a financiar. O Governo da "transparência" e da "Internet" revela-se, afinal, opaco, apenas tornando públicas obras de "encher o olho". As outras não. Porque será?
Depois, o ministro recorreu a um estudo, muito citado por estes dias, dos professores Marvão Pereira e Andraz, segundo o qual, e cito, "o investimento em infra-estruturas de transporte tem um forte efeito multiplicador sobre o crescimento da economia", sendo que cada euro aí investido gera 8,1 euros de aumento da produção a longo prazo. Felizmente o essencial desse estudo encontra-se disponível na Internet e, consultando-o, é fácil constatar a falácia: ele incide sobre o período que vai de 1976 a 1998, isto é, sobre a época em que Portugal não possuía qualquer infra-estrutura e teve de as construir. Se estivéssemos hoje como estávamos em 1976 - com uns 40 km de auto-estradas... - seguramente que ninguém discutiria o efeito reprodutor do investimento em infra-estruturas. Mas estamos em 2005 e as infra-estruturas de que se fala são bem distintas das que nos faltavam em 1976, ou mesmo em 1986, ou até em 1996. Querer extrapolar no futuro os resultados da revolução do passado é, como um economista como Manuel Pinho deve saber, um erro que desafia não só a ciência como o mais elementar bom senso.
A seguir, o ministro compara Portugal com Espanha, utilizando curiosas metáforas de inspiração egípcia, mas não só falta à verdade (diz que a Espanha se lançou na alta-velocidade ferroviária em 1992, "numa altura de grandes dificuldades", omitindo que as dificuldades viriam depois e que a linha foi construída em anos durante os quais a economia espanhola chegou a crescer a mais de cinco por cento ao ano), como compara o que não é comparável. Pela sua lógica Portugal tem de ter TGV porque a Espanha tem (apesar do plano espanhol não especificar se a linha que ligará Madrid à fronteira é ou não de verdadeiro TGV...), o que o deveria, por exemplo, levar a defender também o investimento em centrais nucleares, que a Espanha também tem, nas barragens e regadios que a Espanha tem e nós não temos, e por aí adiante. Por outro lado, o argumento de Espanha, se serve para o TGV, não serve para a Ota, pois é sabido que na península o aeroporto de Madrid funciona como placa giratória e até "esvazia" outros aeroportos espanhóis.
Por fim, e mais importante, o ministro pede elevação ao mesmo tempo que garante que só se vai gastar dinheiro a sério depois de 2009. Ora é precisamente por não clarificar o que se vai gastar mais tarde que nos assusta. Porque o problema não é existir investimento público - é este ir para novos "elefantes brancos" como a barragem do Alqueva, que nada rega, o Porto de Sines, cronicamente subutilizado, ou os tão tristemente célebres estádios de futebol.
Por isso se Manuel Pinho queria convencer alguém, falhou o alvo: depois do seu artigo ainda ficamos mais receosos sobre as reais motivações das grandes obras.
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