| Subject: NEM O RAMBO... |
Author:
Artur Fernandes
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Date Posted: 2/08/05 14:16:43
Artur Fernandes,
in JORNAL DE NEGÓCIOS 22 de Julho, 2005
Um contribuinte chegou à repartição pública e viu a porta fechada. Surpreendido, dirigiu-se ao segurança de empresa privada que estava à porta e perguntou-lhe:
Hoje não trabalham?
O segurança respondeu:
Não trabalhar é nos outros dias. Hoje estão de greve.
Esta anedota ilustra de forma clara o que os contribuintes pensam dos funcionários públicos. É uma visão, naturalmente, deturpada, mas se os contribuintes a têm é porque alguém deu razão para ela existir.
Uma das razões que nos levam a ter esta ideia prende-se com a facilidade, a raiar a irresponsabilidade, com que os funcionários públicos e similares recorrem à greve, e a forma como a utilizam para defender os seus eventuais interesses.
Desde pequeno que me impressionam os filmes de Hollywood em que o mau da fita, para conseguir os seus intentos, ameaçava a família do herói. Este, quando se tratava de lutar de acordo com as regras, era invencível, mas ao ver a sua família sob a mira do mau da fita, cedia de imediato.
Sempre me pareceu uma atitude de grande cobardia, opinião em que era seguido pelos realizadores das fitas, que utilizavam este tipo de cena para nos dar uma imagem verdadeiramente horripilante e cobarde do mau da fita.
Tenho exactamente a mesma sensação quado leio nas notícias que os médicos ou enfermeiros, funcionários públicos, fazem greve.
Para atingir os seus intentos, esses profissionais decidem agredir, prejudicar, “bater” nos doentes, como forma de obrigar o Ministério da Saúde a ceder.
Que culpa têm os doentes se as horas extraordinárias dos médicos não são pagas? Ou se as carreiras dos enfermeiros não são do seu agrado? O que pode o doente/contribuinte fazer para que o médico ou o enfermeiro tenha as suas reivindicações satisfeitas? Nada. Apenas aguentar e continuar a pagar impostos para que quem o trata sem o menor respeito continue a receber o salário e a usufruir de regalias com que quem trabalha não pode sonhar.
O mesmo raciocínio se aplica aos professores. Zangam-se com o Ministério da Educação e “batem” nos alunos. E vão batendo nos alunos até o ministério ceder.
O ministério não os deixa reformarem-se aos 50 anos? Os alunos não fazem exames!
Estão a ver a lógica não estão? Eu não! Acham isto sério?
A mesma sensação tenho quando são os trabalhadores dos transportes públicos a fazer greve. Aqui com mais um detalhe de verdadeira preversão: o utente já pagou adiantado, quando comprou o passe social. E agora? Os administradores das empresas públicas de transportes continuam a andar de motorista, mas os contribuintes que andem a pé, faltem ao trabalho ou apanhem um táxi. Ninguém os mandou não ceder! Não cedem, agora sofrem! E o contribuinte chega a casa cansado por vir do escritório a pé e pensa: "Que culpa tenho eu que estes gajos não se entendam? Quem é que me pôs neste filme?"
O mesmo se passa com os juizes e outros profissionais ligados à Justiça. O ministério não faz o que eles querem? “Pancada” no contribuinte até o ministro ceder!
É que, para complicar, se o Exterminador Implacável deita fora a arma quando vê a filha ser ameaçada, se Santo se rende quando vê a amada em risco, se o Homem Aranha perde os poderes quando a tia é ameaçada, se até o Rambo, sim, o Rambo! desiste quando vê a criança em perigo, o governo ri-se ao ver os seus contribuintes a levar pancada.
E o raciocínio é simples: é que enquanto os trabalhadores ou os funcionários públicos estão em greve, não recebem!
Cada dia de greve é um défice menor, um dia de lucro líquido. Ficam os doentes mais um dia sem ser atendidos? O que é isso em listas de espera de anos? Os alunos ficam sem aulas? Grande novidade! Até parece que não estão habituados... Os processos ficam parados mais uns dias nos tribunais? Diluem-se na imensidão dos atrazos.
A menos que a intenção seja mesmo essa: ajudar o Governo e as empresas públicas a reduzir o défice ou os prejuízos...
Recordo um filme do Stalone em que ele era um dirigente sindical envolvido em lutas por aumentos salariais. Perante a intransigência das empresas em ceder, Silvester olhou o patrão com o olhar de desprezo que só ele sabe fazer e atirou-lhe: "Não nos dá 10 dólares? Vamos ver quanto lhe vai custar uma greve!". E esta frase soava, de facto, a ameaça. O argumento obrigava o patrão a pensar o que lhe seria mais vantajoso.
Na administração pública portuguesa este argumento não serve. Imagino um daqueles simpáticos dirigentes sindicais olhar nos olhos de um qualquer ministro ou gestor público e dizer-lhe, com rancor: "Não nos deixa reformar aos 45 anos? Vai ver o enxerto de porrada que vou dar nos contribuintes!"
O ministro ou gestor público mantém a sua postura de coragem e intransigência.
Pudera! Uma greve até o ajuda a cumprir os objectivos de contenção de custos ou os compromissos com Bruxelas!
Responde o ministro: "Quantos dias estão a pensar parar? Pelo menos uma semana, senão não vale a pena..."
Como a crise começa a apertar, já se anunciam greves e greves. Começa-se sempre pelas manifestações. É da cartilha. Depois vêm as greves. Não há motivo para fazer greve? Arranja-se. Isto é sério?
No meio de tudo isto, os únicos sérios são os polícias. Se o governo não lhes dá o que querem, não multam.
Assim está bem! O ministro da Administração Interna é obrigado a pensar: "Quanto me vai custar uma greve?" Por isso, só a muito custo foi reconhecido o direito à greve às forças de segurança. É que, neste caso, uma greve dói.
Proponho, por isso o seguinte: quando os médicos, professores ou juizes quiserem obrigar o governo a ceder nas suas reivindicações, não “batam” nos contribuintes, chamem a polícia! Imagine a solidariedade que todos passariam a ter dos contribuintes! O ministro da Saúde não paga as horas extraordinárias? O médico do sindicato, olharia o ministro da Saúde nos olhos e diria, tal como o Stalone: "Quanto lhe custarão cinco dias sem multas?"
Os professores querem a reforma aos 45 anos? O professor do sindicato, igualzinho ao Silvester, com os olhos de carneiro mal morto, rosnaria aos ouvidos da ministra: "Já fez contas quanto lhe custarão duas semanas sem multas?"
Se a coisa pegar, nas mesas de negociações, perante a intransigência do governo, seria suficiente o Carvalho da Silva deixar cair qualquer coisa do género "Onde está o telemóvel do camarada da polícia?".
Terá certamente efeitos mais imediatos do que bater no ceguinho até o governo ceder.
É que isso, já nem o Rambo...
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