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Ricardo Cabral, CM, 05/08/05
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Date Posted: 5/08/05 10:19:22
In reply to:
Paulo Raimundo, Avante, 04/08/05
's message, "Sacrifícios, privilégios e governos" on 5/08/05 9:44:13
Setúbal: PSP e família tentaram impedir a morte do agente
Reforma leva a suicídio
Ricardo Cabral, CM, 05/08/05
O agente principal da PSP parou o carro à frente do Comando da PSP de Setúbal e despediu-se com o disparo de uma caçadeira na cabeça
O agente principal Valter Machado passou o dia a sorrir.
Ninguém suspeitava que o tempo de espera pela pré-aposentação o estava a perturbar.
O segundo comandante da PSP de Setúbal soube-o uma hora após o polícia deixar o serviço. Quando este lhe telefonou a dizer que estava a caminho de Fátima para se suicidar. Horas depois, Valter Machado voltou do Santuário para cumprir a promessa. Estacionou o carro à frente do Comando da PSP e despediu-se com um disparo mortal na cabeça. Num bilhete escreveu: “Adeus reforma, adeus amigos”.
A questão da pré-reforma a que o polícia tinha direito, segundo o comandante do Comando da PSP de Setúbal, “nunca foi um assunto obsessivo”, disse ao Correio da Manhã o superintendente Guedes da Silva. As medidas anunciadas pelo Governo suscitaram preocupação em todos os polícias “mas nada que fizesse prever um desfecho assim”, acrescentou.
Descrito pelo comandante como “cumpridor e socialmente correcto”, o agente principal Machado, de 50 anos, tinha um comportamento exemplar. A sua ocupação era, há mais de 20 anos, com os carros da polícia.
Em casa, o agente manifestava sérias preocupações pelo facto de ter pedido a pré-reforma há dez meses e de ainda não ter recebido uma resposta. No trabalho, essa queixa, de acordo com o comandante, não existia.
Anteontem Valter Machado saiu do serviço às 17h00. Ainda esteve com um colega que não lhe notou qualquer comportamento suspeito. Uma hora depois, Valter escreve um bilhete de despedida à mulher e deixa-o em cima da mesa. Enfia-se no seu Mercedes e ruma para Fátima.
Ainda faz um telefonema ao segundo comandante, no qual anuncia a sua decisão. “Vou para Fátima e vou suicidar-me.” O pânico instalou-se no edifício da polícia.
A PSP de Setúbal informa a Brigada de Trânsito e a PSP de Fátima das características do carro. O segundo comandante põe-se a caminho, sempre em contacto com Valter, para o tentar demover.
A mulher do polícia chega a casa e depara-se com o bilhete. Tenta também fazê-lo mudar de ideias, via telemóvel. O polícia grita que a “ideia” não lhe sai da cabeça.
Em Fátima, o agente compra a imagem de um santo e volta para Setúbal. À 01h30 fica incontactável. Valter estaciona o carro à frente da PSP meia hora depois. Pega numa caçadeira e, com um disparo, põe termo à vida. “Adeus reforma, adeus amigos”, escreveu.
RECADO DESESPEROU MULHER
Ana Gamito, 57 anos, vivia maritalmente com Valter Machado há 20 anos. Os familiares são testemunhas da vida a dois. “Tinham uma vida tão bonita”, dizem entre lágrimas. Quando Ana chegou a casa, anteontem pelas 20h00, tinha acabado de receber um telefonema do marido. “Disse-me para ver o recado que tinha deixado na mesa. Pensava que ia jantar fora”, disse ao CM. “Afinal o recado dizia que me amava e que ia para Fátima acabar com a vida”, recordou. Ana tentou impedi-lo e ele chegou a prometer que voltava para casa, mas tarde. Ela acreditou e esperou até às 02h00. Mas quem chegou à sua casa foram dois polícias de Setúbal. “O seu marido acabou com a vida”, disseram. O agente principal Machado era pai de João Miguel de 29 anos.
DETALHES
PRÉ-APOSENTAÇÃO
O agente Machado pediu a pré-reforma em Maio último, com pedido de entrada de execução em Julho. Tinha 36 anos e nove meses de serviço (já com as percentagens atribuídas à PSP). Não seria abrangido pela reforma do Governo.
FÉRIAS
O polícia nunca se manifestou desesperado. Em Fevereiro comemorou o 50.º aniversário com uma grande festa. No final do mês tinha as férias dos seus sonhos marcadas para Cuba.
PSICÓLOGOS
Dois psicólogos da PSP estão a prestar apoio aos colegas do polícia e à sua família. Os sindicatos dizem que o caso é a prova do desespero no seio da polícia.
BAIXAS
No currículo de Machado só existem baixas por um problema no joelho. Nunca precisou de acompanhamento psicológico. Pediu para ser cremado.
Sónia Simões
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