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Subject: Tres textos de Guilherme Statter acerca tres paises


Author:
Paulo J. N. Silva
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Date Posted: 6/08/05 16:08:37

Benefícios e Efeitos Colaterais do Capitalismo – O caso da Zambia

Até 1964 a Zâmbia era conhecida como Rodésia do Norte. Resultara da expansão colonial britânica sob impulso da British South Africa Company, companhia magestática fundada por Cecil Rhodes (o magnata dos diamantes e do ouro que esteve na origem da famigerada questão do “Mapa Cor de Rosa”).
Pode assim tirar-se uma
Primeira conclusão: Se não fosse a expansão colonial do capitalismo, não teríamos Zambia. Outra coisa qualquer (talvez uma Angola mais alongada para o interior, quem sabe...) mas não Zambia. Nada de especialmente grave.
Desde os anos 1920’s, com a descoberta de minas de cobre, que a exploração deste minério se tornou determinante para a vida económica e social da então Rodésia do Norte.
Na altura da independência (em 1964) a Zambia tinha apenas 6 graduados universitários (bacharéis) zambianos (numa população de 5 milhões) e 80 quilómetros de estradas alcatroadas. Já os caminhos de ferro (essenciais para o transporte do cobre) eram alguns milhares de quilómetros. Toda a estrutura física construída (transportes, comunicações, escolas, hospitais...) estava quase que exclusivamente orientada ou ao serviço das companhias mineiras.
Segunda conclusão: o capitalismo – muito naturalmente – faz apenas aquilo que lhe interessa (dá lucro). É assim e não há que haver “queixas” ou “lamentos”.
A partir de 1965, o governo da Zambia (uma espécie de marxismo MUITO mitigado pelo humanismo cristão professado por Kenneth Kaunda) começou um movimento de desenvolvimento do novo País. A subida do preço de cobre no mercado de Londres (o principal e determinante à escala mundial), assim como o aumento da produção, permitiu à Zambia arrecadar fundos que foram aplicados em escolas, estradas, uma universidade, hospitais, zambianização da administração pública. Mesmo com todos esses investimentos, em 1969 o estado zambiano tinha um excedente de capital (superavit) em resultado do preço favorável do Cobre (90% das exportações, o resto eram outros minérios (cobalto...)) e dos lucros das companhias mineiras.
Uma terceira conclusão: Não há nada melhor para o desenvolvimento de um país do que os seus dirigentes aproveitarem os bons preços (daquilo que podem produzir) nos mercados mundiais do capitalismo. Em particular quando estes sobem e/ou são estáveis e, sobretudo, compensadores
O mundo corria “na maior” (havia uma guerra no Vietname…) para os produtores de cobre. Em 1969 a Zambia era o terceiro maior produtor mundial de cobre com mais de 12% da produção mundial (depois dos EUA e da ex-URRSS) e à frente do Chile (esse mesmo, o do Allende e mais tarde do Pinochet (e da ITT... “isto” está tudo ligado – é o tal “sistema-mundo”).
A kwacha era uma moeda forte e a Zambia um dos mais ricos países de África... O pessoal, (zambianos e “expatriados”), vivia “na maior”... respirava-se prosperidade. Mesmo com os custos de transporte do minério (já refinado) e das importações através de Angola, Rodésia do Sul e Moçambique.
Depois, A acabou a guerra no Vietname (em Abril de 1975), B começou-se a falar de uma nova invenção, que iria substituir os cabos telefónicos (as fibras ópticas), C cresceram as vozes a falar de reciclagem dos metais já existentes nos milhões de electrodomésticos e outros motores por esse mundo fora e, azar dos azares (...), em Setembro de 1975 o preço do cobre caíu assim, de repente, de um dia para o outro, para pouco mais de metade.
Entretanto houvera já em 1973 o primeiro choque petrolífero (e o custo das importações de combustíveis “disparou”, como eles gostam de dizer).
Tudo coisas sobre as quais o estado zambiano não tinha obviamente qualquer espécie de controle. E no entanto tinha feito tudo segundo os cânones da economia clássica... Investimento em estruturas essenciais para uma economia nacional poder funcionar, educação de base e ensino universitário...
Era provavelmente um caso excepcional de baixíssima corrupção ao nível mais elevado do Estado.
E no entanto, apesar de tudo isso, a partir de meados dos anos Setenta, foi a degradação progressiva a culminar nos inevitáveis “Programas de Ajustamento Estrutural” impostos pelas instituições do “Washington Consensus”.
Uma quarta (e para já última) conclusão: Quando o Mar bate na Rocha, quem se lixa é o mexilhão.
E, claro está, o funcionamento do capitalismo à escala global do nosso planeta não tem nada a ver com isto...

O caso da Argentina
A Argentina é o único país do mundo que nos anos Trinta do século XX era considerado “desenvolvido” – altura em que o seu rendimento “per capita” se comparava favoravelmente com o do Canadá – e que é considerado “subdesenvolvido” desde os anos Cinquenta para cá.
http://encyclopedia.farlex.com/Argentina
Quem viu o filme “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse” lembrar-se-á que as principais personagens são membros de uma família de milionários argentinos... Um deles um “play-boy” gozando a vida em Paris nas vésperas da invasão Nazi.
Em fins da década de Trinta a Argentina gozava ainda de um elevado nível de vida. No virar do século XIX para o século XX era mesmo um dos países mais ricos do mundo, em termos de PIB per capita.
Como se poderá explicar este estranho fenómeno de um país com grande cultura e avanço ciêntífico e tecnológico (ainda que específico ou "enviesado") tenha "descaído" de uma posição cimeira no concerto das nações (sem que lá tenha havido nenhuma "ditadura comunista" !... diga-se de passagem, eh eh eh) ???
Os especialistas em Economia Política (ou Sociologia) do Desenvolvimento, avançam com a seguinte explicação:

Durante as últimas décadas do século XIX e nas primeiras décadas do século XX a Argentina era um dos destinos de sonho de milhões de pobres emigrantes europeus, em busca de melhor vida. Convém lembrar a grande crise de fins do século XIX na Europa da Segunda Revolução Industrial...
A Onda de Kondratieff começara a descer em meados da década de Sessenta e veio a "bater no fundo" em meados dos anos Noventa...
Um país novo "cheio de oportunidades" com um tal influxo de capital humano (e de investimentos financeiros em busca de aplicação...) não podia deixar de ter um grande e rápido desenvolvimento, ainda que não isento de sobressaltos.
Primeira conclusão: O capitalismo pode (e a intervalos regulares é o que tem acontecido) gerar períodos de grande expansão e crescimento, em particular através da criação de novos mercados ou do aprofundamento de mercados já existentes.

Grande parte dos investimentos em capital (financiamento de estruturas e máquinas) teve origem na então grande potência financeira mundial: a Grá-Bretanha. Ao longo dessas décadas a Argentina, seguindo os cânones da Economia Clássica (e ainda hoje regra de ouro da Teoria do Comércio Internacional), especializou-se naqueles produtos em que tinha uma clara "vantagem competitiva": Em especial a criação de gado bovino, a cultura de trigo e a criação de gado lanígero.
Era assim que pagava as importações (do Reino Unido!!!...) para onde exportava principalmente carne, trigo e lã. Para o "sistema-mundo" centrado em Londres, a Argentina era assim uma espécie de Canadá ou Austrália, só que falavam Espanhol.
Segunda conclusão: Tudo vai bem no melhor dos mundos quando há entre regiões ou países diferentes, complementaridade na produção e consumo de bens e de serviços.

A partir da crise de liderança britânica (no nosso "sistema-mundo"), crise essa expressa, por exemplo, com o abandono do padrão-ouro em 1931, ocorrida na sequência da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha passara de grande banqueiro do mundo (detinha cerca de 40% das reservas financeiras da economia mundial) para devedor líquido (em particular dos EUA...).
Terceira conclusão: Quando alguém se mete em guerras - coisa demorada e cara - alguém acaba sempre por ter que pagar as despesas...

Entretanto, com a "passagem do testemunho" (da liderança do "sistema-mundo") de Londres para Nova-Iorque, nos anos Trinta do século XX, a economia britânica sofreu alterações estruturais de fundo e começou a ter que "seleccionar" os seus fornecedores de "carne, trigo e lã". E doutras coisas, claro. Mas isso não interessa para o caso argentino...
E por outro lado, as suas exportações (deles, dos britânicos...) tiveram que começar a subordinar-se às exportações dos americanos.
E foi assim que a Argentina começou a ter que ir "bater à porta" dos ditos americanos para se abastecer de coisas que não produzia (máquinas... electrodomésticos... automóveis...).
O problema é que os americanos, como bons capitalistas que são (e acho muito bem) queriam ser pagos em moeda forte. A qual só se obtém com exportações.
Pois é... O problema é que os americanos também produzem MUITO trigo e MUITA carne. Que aliás também queriam exportar para a Europa... Chatos.
E de lã, não precisavam assim muita.
Terceira conclusão: Tudo vai mal no pior dos mundos quando entre regiões ou países NÂO há complementaridade na produção e consumo de bens e de serviços.

Desde aí para cá, para a Argentina (claro...) tem sido a descida na tabela classificativa dos países desenvolvidos... Já experimentaram muitas hipóteses de solução, desde o peronismo à ditadura do Videla y sus muchachos... Agora, com a estória do Mercosur parece que se estão a sair menos mal...
A ver vamos, como diria o cego.
Aqui há uns anos, em meia-duzia de semanas tiveram 5 Presidentes. Ninguém aguentava a "batata quente" (provocada – dizem – pela financeirização do "sistema-mundo" (raios o partam, ao "sistema-mundo", claro chiça....))
Mas claro que nada disto tem a ver com o funcionamento do capitalismo. Estas coisas aconteceem assim, ao sabor das circunstâncias. E quando dá na veneta a uns tantos activistas.

Entretanto – e para terminar – é interessante assinalar que o caso da Argentina é também um exemplo paradigmático de como a teoria acaba sempre por ter que se ajustar à prática.
Foi exactamente a partir da sua observação directa (e no posto de comando, como soe dizer-se...) do fenómeno argentino que o economista Raoul Prebisch (então governador do Banco da Argentina) veio a dar origem a uma escola de pensamento (em "Economia Política do Desenvolvimento") chamada "Teoria da Dependência".
O caso da África do Sul
Por razões que não importa muito aqui detalhar, mas que se poderão adivinhar ao longo deste curto texto, a África do Sul é bem capaz de poder ser considerada o país emblemático do funcionamento do sistema capitalista à escala planetária do "sistema-mundo".
Uma espécie de laboratório de ciências sociais. Ali se cruzam todas as perspectivas analíticas: a etnia, a classe, a cultura, o economismo, a industria, a agricultura, o comércio, a demografia, o meio ambiente... a geografia, a geologia e a história.

A África do Sul começa por ser inserida no sistema-mundo em expansão (no século XVII) pela simples razão de estar ali onde está... A meio caminho (marítimo) entre as duas extremidades então mais desenvolvidas e economicamente activas da economia mundial. A Europa e a Ásia de Leste e Sudeste. Começou por ser uma espécie de estação de reabastecimento nas rotas transcontinentais da Companhia holandesa das Índias Orientais.
Primeiras conclusões: O emergente capitalismo privado dos holandeses foi "mais esperto" do que o "temporão mercantilismo" do estado português.
E foi a geografia que primeiro determinou a inserção da África do Sul no "sistema-mundo".

Depois de dois séculos de relativa autarcia com base numa agricultura e pastorícia rudimentares, a descoberta de diamantes em Kimberley e de ouro no Transvaal (último quartel do século XIX), a África do Sul tornou-se na "última fronteira" da expansão do sistema no virar do século XIX para o século XX. Para lá convergiram grandes capitais, (britânicos, alemães, belgas, franceses) e aventureiros e trabalhadores vindos da Europa, da Califórnia e da Austrália. Era mais uma – a última – "corrida ao ouro".
Em pouco mais de 20 anos a economia agro-pastoril dos africanderes ("holandeses" nativos...) e dos africanos "propriamente ditos", transformou-se numa economia industrial "vibrante" e "em grande expansão". Também ali houve uma espécie de "revolução ‘bolchevique’" (a Rebelião do Rand) em 1922. Esmagada com a intervenção directa das forças armadas.
Segundas conclusões:O capitalismo em expansão aproveita todas as oportunidades de aplicação rentável e não brinca em serviço quando os seus investimentos são ameaçados.
Por outro lado, foi a geologia quem determinou um segundo modo de incorporação no "sistema-mundo".

Depois de esmagada a "Rebelião do Rand" foi preciso arrumar a casa e garantir mão-de-obra para as explorações mineiras, para as actividades industriais subsidiárias e para as explorações agrícolas comerciais emergentes.
Sucede que os "africanos" (os negros...) tal como outros povos, gostam pouco de trabalhar "de borla" para outros e preferiam continuar na sua tradicional economia de subsistência. Assim como assim...
Sucede também que as minas de ouro da África do Sul – sendo embora as maiores reservas conhecidas de todo o mundo – têm uma densidade de mineral "puro" MUITO mais baixa do que noutras jazidas conhecidas. Para produzir um quilo de ouro são precisas 100 toneladas de minério em bruto, sendo que esse minério em bruto está por vezes a dois ou três (e até quatro...) quilómetros de profundidade.
Moral da estória: só com uma mão-de-obra MUITO barata é que aquilo vale a pena.
Solução: um regime social de regulação e aproveitamento da mão-de-obra único na história da Humanidade. Vulgarmente conhecido por "apartheid".
Terceira conclusão: Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
O "mar" é aqui a potência naval britânica que em princípios do século XX ainda dominava os oceanos. E a economia mundial claro. A "rocha" são aqui os africanderes ("nativos" de origem europeia, predominantemente holandeses, franceses e alemães) e enraízados na agrico-pastorícia. E a quem os britânicos endossaram o encargo de "gerir" o capitalismo para ali transplantado.
Está-se mesmo a ver quem é o mexilhão desta estória...

Ao fim de mais ou menos uns 80 anos, os africanderes alcançaram o seu objectivo primordial: a paridade social e económica com os antigos senhores britânicos, que os tinham submetido depois da Guerra dos Boers. Até o Lenine escreveu sobre isso... a tal guerra.
Na década de Oitenta do século XX, os capitalistas africanderes "falavam" já de igual para igual com os seus pares britânicos (e de outras nacionalidades...).
Moral desta estória: o que era bom era acabar com esta vergonha do "apartheid" e dar o poder à esmagadora maioria da população. Além de que "isto" (a gestão deste sistema) já dava mais chatices que benefícios...
Quartas conclusões:O capitalismo acabou por contribuir decisivamente para uma (para muito boa gente) surpreendente transição democrática. E foi a tecnologia (designadamente instrumentos de mobilidade do capital financeiro como a Rede SWIFT) que permitiram aos capitalistas africanderes o integrarem-se de forma plena na globalidade do "sistema-mundo".

Depois da transição democrática e a chegada ao poder do ANC (com a ajuda e participação da "CGTP" e do PC lá do sítio), alguns grandes grupos financeiros pediram e obtiveram autorização para transferir as suas sedes para Londres (entre outros "paraísos financeiros").
No caso da Anglo-American Corporation (com um património em todo o mundo que é estimado em cerca de duas vezes o PIB português) a companhia obteve autorização para transferir a sua sede mundial para Londres passando a estar aí – na Bolsa de Londres, claro - aquilo que eles designam por "listagem primária". A razão invocada foi a de que a Bolsa de Joanesburgo era demasiado pequena para as ambições e necessidades de capitalização (através da cotação em bolsa) da AAC e dos seus "grandes projectos".
Mas eis senão quando, passados uns tempos, numa entrevista a um periódico inglês, o chefão máximo da AAC afirmou – em Londres - que os investimentos na África do Sul continham um considerável elemento de risco.
O Presidente da África do Sul (Thabo Mbeki) "foi aos arames" (sentiu-se aldrabado...).
Quinta e última conclusão: A globalização tem destas coisas...

Entretanto a África do Sul continua a ter um dos maiores índices de desigualdade social e económica do mundo. Apesar de tudo e por força de algumas résteas de keynesianismo e por força da "CGTP" e do PC lá do sítio, aquilo (as desigualdades) tem melhorado um pouco.
Por outro lado, a herança estrutural é mesmo MUITO pesada. Aquilo continua a ser um gigantesco campo mineiro – com algumas fábricas de empresas multinacionais para "alegrar a paisagem" (se você é o felizardo condutor de um Mercedes-Benz Série C, é capaz de conduzir um carro fabricado em Port Elizabeth). Mas de resto, os problemas estruturais de recursos humanos...
A África do Sul (que nunca teve nenhuma ditadura comunista... eh eh eh) tem cerca de 40% de desemprego... O HIV/SIDA assumiu proporções endémicas (estima-se que um em cada dois jovens de 15 anos vai morrer de Sida...)
Mas, como é evidente, nada disto tem a ver com o funcionamento do sistema capitalista, à escala global do nosso "sistema-mundo".
São os brancos africanderes que eram uns malandros... E os brancos ingleses que são uns hipócritas.
É, só pode ser...

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