Author:
Fernando Ilharco (Publico)
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Date Posted: 25/07/05 15:04:51
Economia? Cultura
Fernando Ilharco
O problema de fundo da produtividade nacional,
do défice público, da dimensão do Estado e da sua ineficiência, etc., é uma questão cultural, ou seja,
é o resultado de um somatório de práticas,
de costumes e de mentalidades.
No essencial, a competitividade de um país é o que ao longo do tempo resultar da produtividade dos seus lideres e decisores - do Governo e instituições do Estado às grandes e às pequenas empresas e aos profissionais liberais. Também o tipo de economia e de Estado em que assenta cada sociedade é fundamentalmente um efeito do tipo de cultura que essa mesma sociedade é. Isto porque o que cada sociedade é condiciona todas as formas como ela mesma se pode manifestar. O problema de fundo da produtividade nacional, do défice público, da dimensão do Estado e da sua ineficiência, etc., é uma questão cultural, ou seja, é o resultado de um somatório de práticas, de costumes e de mentalidades; que hoje, como se vê, não funcionam mais. E tanto assim é quanto se tem visto ser difícil fazer coisa alguma para resolver o problema. Pode, claro, fazer-se algo; pode e deve-se, mas a dimensão de fundo da questão, decisiva porque capaz, pelo menos em potência, de criar um novo status quo, é cultural e não apenas económica ou política.
Qualquer que seja o governo que governe, o problema de fundo dos portugueses mantém-se: a sua invulgar capacidade de não estar no mundo. Entre nós as coisas em geral não têm consequências e o estrangeiro, apesar de hoje estarmos longe do "orgulhosamente sós", continua a ser uma espécie de curiosidade, destinada a ser diariamente experimentada na televisão. A história continua a pesar e o futuro pouco nos tem perturbado. De alguma forma, tendo-nos feito de costas para Espanha sempre estivemos como que excluídos do mundo; sempre nos fomos conhecendo como que noutro mundo... Como se o mundo não fosse para ser levado a sério, vamos contando e recontando histórias e arrastões. Ganhar o prémio do ano, na televisão ou na imprensa cor-de-rosa, isto é, ver quem ganha o quê na freguesia, é muito mais importante do que, por exemplo, qualquer prémio Nobel. Mas hoje nos filmes americanos, nos produtos alimentares espanhóis, nas lojas de tudo chinesas, nas roupas da Indonésia, nas bombas de Londres e de Madrid, no "made in global" onde vivemos, o mundo entra-nos vida dentro. Assim, à força no mundo, continuamos a pensar no mercado e na sociedade... portugueses. Enquanto por defeito, isto é, "a priori" e naturalmente, não entendermos o que somos, a sociedade que formamos, os mercados onde competimos, a profissão que temos, em termos ibéricos ou europeus para não dizer globais, vai ser muito difícil mudar a forma como as coisas têm vindo a decorrer. A pequena dimensão do mercado português é de facto um problema porque a maioria dos nossos agentes assume esse mesmo mercado, e não a Espanha, a Europa, o Brasil, etc., como o mercado natural. Para os dinamarqueses, holandeses ou finlandeses, para só referir alguns nacionais de pequenos países como Portugal, pensar daquela forma é hoje seguramente algo de absurdo. É o desenvolver dessa nova mentalidade que é o desafio do país: naturalmente, e por defeito, pensar nos mercados europeu e mundial.
Escreveu Pessoa, aquilo que por vezes hoje parece ler-se em todas as manchetes: "Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem". Veio a última caravela de Timor, deixámos Macau e chegou Bruxelas e um novo inglês, e com eles os mercados, os telemóveis, a TV cabo e a pressa, mas fomos ficando na mesma...: um pais fechado, a viver para si próprio, praticamente desligado do que se passa lá fora, afinado pela RTP e pensando que os Estados Unidos, a China, a Espanha e o resto, tudo isso é paisagem.
A história pesa mas o futuro também. Muitos países têm mudado nestes últimos anos e hoje ser português passa não por levar o passado para o futuro mas pelo contrário: por projectar um futuro exequível e assim entender o que se tem que fazer no presente. Os mercados são hoje o que acontece e o que acontece é determinado pela capacidade, pela competência e pela inovação. A longo prazo, um país que funcione de outra forma, assentando não no conhecimento mas "nos conhecimentos", corre o risco de desaparecer, por não se dotar dos mecanismos necessários para gerar competências para sobreviver na arena global. A integração progressiva em espaços supra-nacionais e a invasão de entidades, de produtos e de modelos estrangeiros, tenderão a acentuar-se tanto quanto menos soubermos tomar conta de nós próprios. Lembramo-nos por vezes do comentário que ouvimos a uma mulher africana, da África que fala português: "Tenho tanto medo que Portugal acabe!"... "Porquê?" perguntámos. "Por causa dos meus filhos", respondeu ...
As decisões que mais pesam, influenciam e marcam o desenrolar da História e o emergir de oportunidades e de ameaças, bem como o sucesso de uns e o fracasso de outros, em rigor não são propriamente decisões mas antes acções, colectivas. Trata-se de ambições e de projectos que enquadram o futuro no fluir quotidiano das coisas . Por isso, as regras do jogo, isto é, a cultura em que estamos imersos, é, sempre foi, o que há de mais decisivo para o futuro. O défice é muito alto? É. E isso é mau? É, a menos que, por exemplo, tal excesso fosse resultado de uma acção que em dez anos triplicaria os níveis de educação dos portugueses.
Hoje um país faz-se e sobrevive em função da sua capacidade de ser distinto dos outros no mundo globalizado. A sua competitividade é assim a produtividade dos seus nacionais e de quem lá vive colocada no contexto especifico do mundo global e tecnológico. E o que mais influencia o que cada um de nós faz num dado contexto é o entendimento colectivo e partilhado desse mesmo contexto.
O problema da produtividade que hoje enfrentamos, em rigor, pouco tem de solucionável por parte de cada um de nós, quando individualmente considerados. O aumento da produtividade que Portugal necessita depende da capacidade do país colocar nos mercados maior valor. O aumento do valor do "output" por hora do trabalho pode fazer-se dentro daquilo que sempre se fez, ou seja no âmbito das estruturas, das tecnologias, dos sistemas, das qualificações, das competências de cada um, mas apenas até um certo ponto - um sapato é sempre um sapato, nunca poderá ser "software" ou design. Este é o ponto para o aumento da competitividade via produtividade: não melhorar o que se faz, mas antes mudar o que se faz; fazer outras coisas - e para isso, obviamente, é necessário gente capaz, gente educada, formada e alinhada com os novos desafios. E isto depende, como se sabe, do quadro educativo em que se baseia o país. Não é de facto suar mais, mas suar o mesmo fazendo coisas diferentes. Assim, o caminho urgente para a criação de um país onde valha a pena viver depende de uma mudança cultural, a qual passa de uma forma não menosprezável pelos media, mas que assenta essencialmente no sistema de educação, isto é, no ensino, na formação, na investigação e no desenvolvimento de novos conhecimentos por um número crescente de portugueses. Professor Universitário
www.ilharco.com
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