| Subject: Pois é... |
Author:
Militante
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Date Posted: 12/07/05 11:33:19
In reply to:
Visitante
's message, "A realidade: o grãozinho de areia na engrenagem do ideal comunista (II)" on 12/07/05 7:11:57
>Porque este texto é mais longo do que o previsto, ao
>contrário do que anunciara anteriormente haverá uma
>terceira parte, a elaborar quando for possível, onde
>abordarei a utopia idealista do comunismo marxista.
>
>2-As posições de Fernando Penim Redondo (FPR).
>
>FPR não poderia ter começado da pior forma a sua
>intervenção no XIII Congresso do PCP. Afirmar, logo de
>entrada, que as “teses do CC não constituem uma
>análise marxista” e que as “«cinco causas
>fundamentais», os «erros e desvios», nada têm a ver
>com os conceitos marxistas de modo de produção e de
>processo de transição entre modos de produção, à luz
>das quais as sociedades, e as tentativas de as
>modificar, devem ser encaradas”, foi uma táctica
>ingénua, de militante dedicado, quiçá imbuído das
>melhores intenções, procurando o debate genuíno, mas
>que se entregou de bandeja em sacrifício às feras,
>consciente ou inconscientemente. Se as afirmações não
>despertaram alarido entre os delegados, elas
>certamente não passaram despercebidas aos dirigentes.
>A partir daí estaria catalogado e seria mantido
>debaixo de olho, rebatido e atacado, se necessário. É
>a tradição, mesmo que a tradição, por vezes, se
>manifeste com variações e pareça já não ser o que era.
>E a tradição diz também que os congressos,
>conferências, etc., pela forma controlada como são
>escolhidos os delegados e pelo desconhecimento prévio
>que têm de posições diferentes das dos órgãos
>dirigentes, não são instâncias onde ocorram grandes
>debates, mas instâncias de prática de rituais de
>consagração e de ratificação do está previamente
>decidido.
>
>Sustentava FPR que “nos países de Leste nunca se
>implantou o socialismo, que não se implantou um novo
>modo de produção”. Se a sua primeira tese punha em
>causa a capacidade e os instrumentos analíticos do CC,
>esta outra situava-se já na heresia. Levada às últimas
>consequências, se o modo de produção existente não era
>o socialismo (enquanto primeira fase do comunismo), só
>poderia ser o capitalismo, ainda que não afirmado
>expressamente. De qualquer modo, a afirmação punha em
>causa a História dos últimos setenta anos, sugerindo
>que estaria toda muito mal contada. A Grande Revolução
>Proletária de Outubro de 1917 não teria passado duma
>Revolução Democrática, prolongamento da Revolução de
>Fevereiro, portanto, e o Outubro Vermelho, e tudo o
>que se lhe seguiu, seria apenas mero travesti duma
>revolução burguesa. Para a época, era uma tese audaz;
>apresentá-la num congresso do PCP, não pode deixar de
>se reconhecer que exigiu muita coragem.
>
>Em meu entender, esta é uma tese reactiva à grande
>desilusão que constituiu o conhecimento das práticas
>totalitárias e das realizações sociais, técnicas e
>científicas do comunismo real, após se descobrir que
>durante tempo demasiado a propaganda nos fizera crer
>num logro, que ficaria constituindo a maior
>mistificação política do século passado, em total
>contradição com o que se idealizava ser o comunismo.
>Para um crente no comunismo marxista ou
>marxista-leninista, como eu fui, “aquilo”, o comunismo
>real, não poderia ser o resultado prático duma
>ideologia que se proclamava realizadora da abundância
>material, da igualdade entre os homens e da
>fraternidade universal. Um crente que se mantivesse
>ainda fiel a uma utopia tão bela, no fundo, um puro e
>verdadeiro crente, só poderia renegar “aquilo”, o
>comunismo real. E a rejeição não poderia abarcar
>apenas o período negro do estalinismo, em que
>proliferou o puro terror, mas todo o passado, desde
>Outubro de 1917.
>
>Esta tese de FPR, distinta da tradicional tese
>trotskista do desvio burocrático estalinista, não era
>nova nem original, e também entre nós tinha
>seguidores. Um antigo e então promissor companheiro de
>Álvaro Cunhal no secretariado do CC do PCP, em 1961,
>Francisco Martins Rodrigues (FMR), defende-a
>igualmente, desde há alguns anos. FMR, baseando-se,
>como FPR, no fraco desenvolvimento das forças
>produtivas à época na Rússia, elabora-a um pouco mais
>e vai ao ponto de designar a Revolução de Outubro como
>uma revolução operária e camponesa, uma revolução
>popular, mas uma revolução burguesa de novo tipo,
>dirigida pela burocracia.
>
>Uma tal tese, quer na versão menos elaborada de FPR,
>quer na de FMR, é apenas mais radical do que a versão
>ortodoxa dos “erros, atrasos e estagnações”
>justificados pelo circunstancialismo, adoptada pelo
>PCP. Tem a seu crédito fazer uso de instrumentos
>analíticos como os conceitos de modo de produção, de
>desenvolvimento das forças produtivas, produtores
>associados, mas, se virmos bem, estes são igualmente
>conceitos teóricos, pertencentes ao campo das ideias,
>com os quais a prática não se pode comparar. A
>prática, na sua singularidade, permite confirmar ou
>infirmar a teoria; a teoria não pode infirmar a
>prática. Ora, tanto a versão de FPR e de FMR, como a
>do PCP pretendem julgar a prática pelo recurso à
>teoria. O que vimos com a Revolução de Outubro e com
>as sociedades edificadas nos países comunistas foi uma
>tentativa, séria, de levar à prática a utopia
>revolucionária proletária e os esboços teóricos
>produzidos pelos clássicos do marxismo sobre a
>sociedade comunista. A elaboração de FMR é um pouco
>mais caricata, porque acaba por remeter para o campo
>do maquiavelismo – a malvada burocracia que realiza a
>política da burguesia em vez da política do
>proletariado – mas quer ela, quer a de FPR, são de
>muito difícil aceitação.
>
>Tal como a dos ortodoxos, esta tese tem uma
>comodidade: permite manter a fé na utopia comunista.
>Se o comunismo não tivesse entrado em derrocada, após
>a inglória tentativa gorbatchoviana de o reformar,
>estou certo de que os ortodoxos, reconhecidos os
>“erros, atrasos e estagnações” postos a nu com a
>perestroika, se esforçariam a tentar corrigir os
>aspectos aparentemente mais arcaicos e supostamente
>causadores dos gravíssimos problemas de
>desenvolvimento que a URSS atravessava, e que eram
>afinal a ilustração da incapacidade do comunismo
>competir com o capitalismo. Basta, aliás, ver as suas
>primeiras reacções de reconhecimento e de aceitação
>dos “erros, atrasos e estagnações” e a esperança que
>colocavam na perestroika para os corrigir (ainda que
>depois tenham renegado o aplauso inicial e tenham
>culpado o seu líder Gorbatchov pelo desenlace). Caído
>o comunismo, derrotadas as revoluções comunistas, os
>ortodoxos continuam a lutar pela revolução (ou pelo
>menos, a afirmá-lo). Tal como eles, também FPR e FMR
>continuam a lutar pela revolução comunista.
>Distinguem-se entre si apenas por aspectos meramente
>tácticos e pela apreciação que fazem do passado –
>estes renegam-no, aqueles aceitam-no, ainda que
>criticando-o.
>
>A argumentação de que o modo de produção comunista não
>foi implantado devido ao fraco nível de
>desenvolvimento das forças produtivas, em que se
>baseiam FMR e FPR, tem neste uma pequena clarificação,
>que ele também aborda num outro texto de sua autoria.
>Dizia FPR ao congresso que tal “como o capitalismo não
>se construiu sobre a base material do feudalismo,
>também o socialismo não se podia edificar, e não se
>edificou, sobre a base material do capitalismo, a
>grande indústria mecanizada”, pelo que “a experiência
>do Leste foi tecnologicamente prematura”. O conceito
>marxista de “forças produtivas” tem-se prestado a
>muitas confusões, mas FPR tem o mérito de usar em sua
>substituição outro mais claro, ainda que muito mais
>redutor: tal é o conceito de “base material”, que
>identifica com a “tecnologia”. Desta sua interpretação
>resulta que só da “tecnologia nova” “poderá nascer um
>novo mundo”, faltando “perceber que novas relações de
>produção resultarão da nova tecnologia”, ainda que o
>socialismo só chegue “tanto pela luta dos explorados
>como pelo desenvolvimento da tecnologia”.
>
>Tal como outros, ao reduzir o conceito marxista
>“forças produtivas” à “base material” ou “tecnologia”
>FPR labora num erro de interpretação, e labora noutro
>erro ao pensar que as revoluções sociais resultam de
>revoluções tecnológicas completadas depois por
>revoluções políticas. Se assim fosse, tomando um
>exemplo próximo de nós, actualmente estaríamos numa
>época de nova revolução social, nomeadamente, devido à
>revolução científica e técnica que vivemos desde há
>alguns anos, a qual necessitaria de uma nova revolução
>política para se atingir um novo modo de produção. Não
>parece ser, de todo, o caso; nem foi também o caso no
>passado, nomeadamente, com a revolução industrial, que
>ocorreu quando já existia um novo modo de produção, o
>capitalismo. As revoluções sociais encontram
>correspondência naquilo que se pode designar por novas
>formas de produzir (os modos de produção marxistas), e
>essas novas formas de produzir respeitam ao tipo novo
>de relações sociais que os homens estabelecem na
>produção. Normalmente, estas novas relações sociais
>estabelecem-se usando ainda tecnologia antiga, e o
>desenvolvimento tecnológico acontece na medida em que
>a tecnologia antiga, colocando problemas produtivos
>que exigem solução, deixa de corresponder às
>possibilidades de desenvolvimento da produção sob as
>novas relações sociais.
>
>A emergência do modo de produção que designamos por
>capitalismo é um bom exemplo de como um novo modo de
>produção se estabelece através de novas relações
>sociais, ainda que usando tecnologia do modo de
>produção que o precede. O capitalismo distingue-se dos
>modos de produção que o precederam pela relação social
>nova através da qual uma nova classe social, os
>capitalistas, se apropria do sobreproduto social, no
>caso, através do salariato. Esta nova relação social,
>baseada na compra e venda da mercadoria força de
>trabalho ou capacidade para trabalhar, estabelece-se
>por múltiplas séries de relações causais que
>disponibilizam uns actores sociais dispostos a comprar
>e outros dispostos a vender força de trabalho, mas,
>tanto na produção agrícola, como na produção
>utensiliária, ela vai dar os primeiros passos e
>consolidar-se sobre a base das técnicas da produção
>artesanal que caracterizavam o modo de produção
>tributário (o modo de produção feudal, na terminologia
>marxista).
>
>Esta nova relação social na produção exigiu igualmente
>roturas concomitantes nas relações jurídicas e
>políticas, nomeadamente, a queda do monopólio
>produtivo das Corporações ou da exclusividade do
>pagamento da renda em espécie, que substituíra a
>corveia aquando da transformação dos servos em
>camponeses livres, e a instituição da renda em
>dinheiro, dando lugar ao aparecimento de rendeiros
>capitalistas, ou ainda a rotura com outras relações
>feudais, nomeadamente, os privilégios senhoriais,
>monásticos e reais em relação ao aproveitamento de
>fontes energéticas naturais ou à exclusividade
>produtiva de um ou outro ramo ou produto, nesta ou
>naquela região, que haveriam de culminar, mais tarde,
>com revoluções políticas, mas não há dúvidas de que a
>produção continuou a fazer-se na base da tecnologia
>antiga. Na manufactura capitalista, por exemplo, a
>nova relação social salariato coexistia com a
>tecnologia antiga da oficina corporativa que a
>precedeu, e só mais tarde, com a revolução industrial,
>vieram a ocorrer desenvolvimentos tecnológicos
>substanciais que tiveram expressão na produção fabril,
>onde persistiu o salariato. As mudanças nas técnicas
>ocorrem para responder às necessidades da expansão do
>mercado e da produção ainda possíveis sob uma
>determinada relação social estabelecida na produção,
>não são condição para o estabelecimento de novas
>relações de produção.
>
>Embora o nível do desenvolvimento do capitalismo na
>Rússia, em 1917, fosse muito inferior ao dos países
>desenvolvidos de então, e no campo ainda persistissem
>formas transformadas de servidão, apesar de
>formalmente abolida pelo czarismo na segunda metade do
>século XIX, e embora a ortodoxia marxista comungasse
>do preconceito, não fundamentado, aliás, a não ser a
>partir da crença no famigerado desenvolvimento das
>forças produtivas, de que a revolução comunista
>eclodiria primeiro nos países de capitalismo
>desenvolvido, não parece haver dúvidas de que foi o
>partido comunista que desencadeou o golpe de estado
>insurreccional vitorioso que o conduziu ao poder, e
>que foi também sob a sua direcção que a Rússia
>conheceria a transformação social mais profunda da sua
>história. As vicissitudes que permitiram a instauração
>do comunismo não se repetiriam, e todas as revoluções
>comunistas posteriores se traduziram por rotundas
>derrotas pouco após a sua eclosão, salvo as que
>evoluíram de revoluções democráticas e nacionais
>desencadeadas por lutas de libertação nacional. Só
>como rescaldo da segunda guerra mundial e nos países
>ocupados pelo exército soviético, o comunismo seria de
>novo implantado.
>
>O comunismo que existiu demonstrou uma incapacidade
>intrínseca para desenvolver as forças produtivas de
>forma ilimitada, e em nenhum campo relevante para o
>desenvolvimento superou sequer o capitalismo corroído
>de contradições. Por esse facto, as revoluções
>comunistas pereceram, esgotaram as suas
>potencialidades de desenvolvimento, apesar de tudo
>grandes, na Rússia, devido ao seu atraso, e muito
>menores noutros países já industrializados, como era o
>caso da Checoslováquia, e foram jogadas para o caixote
>do lixo da História. Dos crentes na utopia comunista
>marxista, uns, como FPR, afirmam que o comunismo
>realmente existente nada teve a ver com a verdadeira
>utopia comunista e renegam-no; outros, como os
>ortodoxos e os militantes do PCP, reconhecendo embora
>“erros, atrasos e estagnações” consideram-se herdeiros
>dos seus feitos gloriosos em prol do progresso da
>Humanidade; todos eles, apesar da trágica experiência
>e do pouco honroso desfecho, permanecem imbuídos da fé
>cega de que o comunismo será o modo de produção
>destinado pelas cartas a suceder ao capitalismo.
>
>Como todos os modos de produção baseados na
>apropriação privada do sobreproduto social, o
>capitalismo é um produtor de desigualdades, de
>injustiças e de iniquidades; como todos os que o
>precederam, não será eterno, está condenado a perecer.
>Nada nele ou na História permite predizer que o
>comunismo será seu sucessor, nem que o proletariado
>será a classe social que sucederá à burguesia. Uma
>predição idealista, similar a tantas outras antes
>dela, mas afirmando-se materialista e baseada na
>ciência, busca a suprema harmonia pela eliminação da
>contradição. Sonho vão, quando tudo o que existe, e
>enquanto existir, existe pela permanente e infinita
>superação dumas contradições dando lugar a outras.
>Produto dum iluminado, axioma profético tido por
>verdade sem necessidade de demonstração, seguido como
>religião laica por milhões de fiéis, tem no
>proletariado o povo eleito, no Mundo a Terra
>prometida, no marxismo-leninismo as sagradas
>escrituras, nos partidos comunistas as suas aguerridas
>seitas de fanáticos.
>
>Pode o comunismo marxista ser coisa diferente do que
>foi? Tem a utopia comunista marxista algo a ver com a
>ciência, como tem, por exemplo, a análise marxista do
>capitalismo, apesar de limitada e ultrapassada? É o
>que veremos, questionando a teoria com teoria.
>(continua)
Pois é, a puta da realidade é lixada.
O que os "marxistas-leninistas" da tanga que aqui aparecem a mando da direcção de trogloditas do PCP deveria era, apresentar argumentos válidos e racionais e não os habituais insultos que são a prova evidente do seu desespero e vazio ideológico.
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