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Subject: A realidade: o grãozinho de areia na engrenagem do ideal comunista (I)


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Date Posted: 10/07/05 23:28:23

A realidade: o grãozinho de areia na engrenagem do ideal comunista (I)

Comentando o meu texto “Um novo projecto comunista? Para quê?”, FPR teve a gentileza de me informar sobre as posições que vem defendendo desde 1990 acerca do socialismo real e das críticas que manifestou no XII Congresso do PCP às teses defendidas por este partido acerca da causalidade da grave crise e posterior derrocada do comunismo. Depois de uma leitura, ainda que ligeira, da resolução política aprovada naquele congresso e da sua intervenção, permito-me retomar o tema, como, aliás, havia prometido. Esta intervenção, devido à sua extensão, será dividida em duas partes. Na primeira, abordo a análise do PCP, sem recorrer a pormenores excessivos, porque a resolução do XII Congresso está transcrita no fórum, e sem questionar directamente o tipo de causalidade apontada, porque me parece superficial em demasia e não chega ao âmago da questão; na segunda, abordo a posição do FPR e de outras correntes, e avanço com a minha própria crítica do projecto comunista.

1-A análise da crise do comunismo feita pelo PCP.

A análise feita pelo PCP à grave crise que na altura assolava o comunismo, e que prenunciava a sua total derrocada, identifica uma causalidade devida a “erros, atrasos e deformações em relação ao ideal comunista”. Recorrendo à tradicional verborreia descritiva e aos estereótipos laudatórios, características inconfundíveis do estilo de Álvaro Cunhal, a resolução aprovada naquele congresso extraordinário do PCP (por uma elucidativa maioria de 99% dos delegados presentes e com a oposição de apenas quatro suspeitos desmancha prazeres) caracteriza a crise como sendo “gerada por orientações e práticas que se afastaram dos objectivos, métodos e valores do ideal comunista”, e enumera “cinco traços negativos” que teriam infringido as “cinco características fundamentais de uma sociedade socialista em construção”.

O facto de aqueles traços negativos terem atingindo todas as enumeradas cinco características fundamentais da construção da sociedade comunista, de estarem presentes na generalidade dos países então em crise, ao ponto de configurarem um “modelo”, o qual significava “não apenas um afastamento, mas o afrontamento do ideal comunista”, não motivou o PCP para qualquer análise mais profunda que pudesse vir a pôr em causa o projecto comunista, como chegaram a fazer outros partidos congéneres. Na perspectiva do PCP, o passado só poderia ser analisado pelos “erros, atrasos e estagnações”, e, ainda que constituíssem desvios, teriam de ser encarados com atenuantes, devido ao circunstancialismo em que aconteceram as revoluções e se haviam edificado as sociedades comunistas. Neste sentido, preservando a fé inabalável na ideologia comunista, apesar dos acontecimentos que contrariavam a sua glorificada supremacia em relação ao capitalismo, o PCP manteve-se fiel à ortodoxia, contrariamente ao que ocorria com outros partidos comunistas, e merece justamente o epíteto de ter continuado um partido ortodoxo.

O que interessava ao PCP, perante aquela crise gravíssima, que alastrava e acabaria por promover a queda dos regimes comunistas, era encontrar uma causalidade que pudesse, de algum modo, ser plausível e aceitável para os militantes, demarcar-se dela pondo em evidência as suas características singulares quanto ao programa da revolução, às modalidades de organização e ao trabalho de direcção, elementos de garantia de que não cometeria erros idênticos ou similares, e, acima de tudo, fazer aceitar a crise como uma derrota, quem sabe se ainda reversível, embora difícil. Esta primeira análise crítica – e também auto-crítica, por “num ou outro momento e num ou outro aspecto da sua actividade” ter partilhado apreciações sobre a realidade dos países socialistas e ter reflectido concepções do modelo, “designadamente no que respeita a alguns traços negativos”, e por não ter informado convenientemente o partido – delimitava o campo admissível da análise e preparava o partido para a derrocada geral dos regimes comunistas, que já se prenunciava.

Reconhecendo erros e desvios na edificação do socialismo e do comunismo, mas restringindo o seu alcance e significado; demarcando-se do modelo por rejeição dos traços negativos que identificava; reafirmando a validade do ideal comunista perante a manutenção do rol de iniquidades e de injustiças provocadas pela exploração capitalista e a opressão imperialista; o PCP procurava responder à perplexidade e ao choque que os acontecimentos produziam no partido, prepará-lo para o descalabro que se adivinhava, fazendo aceitar a derrota do socialismo como coisa inerente à vida, porque nada está à partida garantido para todo o sempre, e, se possível, reforçar a combatividade do partido perante a adversidade. Por isso, ao contrário de muitos outros partidos, que se preocupavam excessivamente com o passado, pondo quase tudo em causa, o “PCP procede(u) à sua análise com uma óptica necessariamente diferente: procurar alcançar um conhecimento mais rigoroso do mundo contemporâneo, da evolução da sociedade, das experiências e ensinamentos dos factos”, porque, apesar de tudo, “o ideal comunista da construção a nova sociedade mantém a sua validade”.

No fundamental, os objectivos do PCP foram alcançados. A descrença não se generalizou e a debandada geral não ocorreu, o partido no seu conjunto digeriu a derrocada do comunismo confortado com as justificações que lhe foram propostas, cimentadas pela autoridade analítica que atribuía ao seu líder indiscutível, que era a encarnação do próprio partido, e as poucas vozes discordantes que procuravam deslocar a análise da política e dos erros para o campo das condições objectivas necessárias para a construção da sociedade socialista e comunista, para além de esboçarem críticas muito limitadas e de não terem tido qualquer possibilidade de se dirigirem ao partido com os mesmos meios da direcção (nos partidos comunistas, em geral, monopólio reservado aos órgãos dirigentes), cometeram erros elementares que impediram que as suas críticas tivessem qualquer eco (que, de resto, também não é seguro que procurassem).

A desagregação social que se seguiu à queda dos regimes comunistas, a proliferação do saque por parte de oportunistas de todas as espécies e de máfias organizadas, o aumento da pobreza e a emergência da miséria nalguns daqueles países, devido a uma inflação galopante que desvalorizava impiedosamente os salários e as pensões de reforma e ao desemprego provocado pela paralisação de boa parte do tecido produtivo obsoleto e pela desorganização dos circuitos de distribuição estatais, conjugadas com as investidas do imperialismo, ajudando à desorganização social, incentivando rivalidades étnicas e agudizando contradições nacionais, procurando, enfim, tirar o máximo proveito duma situação que lhe caíra de bandeja, desejada mas de que não suspeitava, contribuiu para fazer aceitar pacificamente a análise aprovada pelo congresso e para reforçar a unidade do partido. Em geral, as movimentações críticas que se seguiram não tiveram como pressupostos directos o questionamento do comunismo ou a análise da sua derrocada, mas razões de organização e de táctica.

Para além daquela primeira análise, passados que estão quinze anos, o PCP não fez qualquer outro aprofundamento do tema. Não só não teve necessidade, porque não mais foi levantado, mas também porque tomar a iniciativa de abordá-lo novamente poderia tornar-se perigoso, numa altura em que o seu líder decidira retirar-se da actividade executiva e dedicar-se a outras artes – reservando-se o papel de polícia para meter na ordem os dissidentes mais atrevidos que ousavam descaracterizar e apropriar-se do “seu” partido – e a capacidade de análise e de resposta da direcção às eventualidades que poderiam ocorrer se encontrava assim enfraquecida, quando os dados conhecidos sobre a realidade dos regimes comunistas permitiam refutar a causalidade identificada na resolução do XII Congresso, e quando, acima de tudo, havia combates mais urgentes e importantes a travar, nomeadamente, contra as vozes que se foram levantando questionando o excessivo centralismo e a táctica demasiado rígida do partido, para além, naturalmente, dos combates eleitorais, que são os que parecem agradar sobremaneira aos militantes.

Em boa verdade, na melhor tradição dos partidos comunistas, os militantes estiveram e estão-se borrifando para análises complexas, para as quais a esmagadora maioria não sente atracção nem tem preparação, contentando-se com o que a direcção lhes oferece, e, além do mais, não desejam discussões que possam pôr em causa a ideologia e a utopia comunistas em que acreditam piamente. No seu entender, só os traidores ousariam empreender ou colaborar em discussões que possam fazer esboroar a fé no comunismo que tem orientado as suas vidas e fazer perigar a existência do partido a que se dedicaram de alma e coração e a que deram o melhor do seu empenhamento. Por vezes, não sabem por onde ir, mas sabem que por aí não vão. Até quando a fé resistirá aos embates da realidade, é caso para ir vendo.

Em resumo, apesar de mais de setenta anos de prática de edificação do socialismo e do comunismo, na Rússia, ou de quarenta e cinco anos, noutros países europeus, que produziram tanta coisa boa, que os comunistas não se cansam de exaltar, aqueles regimes caíram de podre, uns a seguir aos outros, através de contra-revoluções pacíficas, sem que os trabalhadores, em nome dos quais o poder era exercido, mexessem uma palha para os defender. Se os regimes eram tão bons como é apregoado por quem está de fora, dá que pensar, no mínimo, que os primeiros interessados não se tenham levantado a defendê-los, de armas não se necessário. Se os erros cometidos e os atrasos verificados eram tão graves e generalizados, é estranho, no mínimo, terem sido detectados apenas quando era tarde de mais. Se, apesar de tudo, o ideal comunista mantém a sua validade, não restam dúvidas de que para os comunistas as ideias se sobrepõem à puta da realidade.
(continua)

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Quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão?João Luís11/07/05 14:43:52
Declaração de interessesVisitante12/07/05 9:38:31


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