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| Subject: Re: Uma geração enganada | |
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Author: Asterix |
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Date Posted: 29/09/06 20:43:18 In reply to: Rui Ramos 's message, "Uma geração enganada" on 29/09/06 8:09:36 > > >Há-de ser duro, aos 50 ou aos 60 anos, ver >desmoronar-se o mundo em que se viveu. Mas é talvez >ainda mais duro, aos 20 ou aos 30 anos, ver >desmoronar-se o mundo em que se ia viver. É o que está >a acontecer a muitos dos portugueses mais novos. Esta >semana, os sinos oficiais continuaram a dobrar pelo >mundo para o qual foram criados e preparados. Era um >mundo em que qualquer curso universitário significava >um emprego e em que havia empregos vitalícios. Um >mundo em que as regalias eram regularmente >acrescentadas e em que as reformas vinham cada vez >mais cedo. Para os jovens actuais, esse foi o mundo >dos avós e dos pais. Já não vai ser o deles. Cada novo >anúncio das várias comissões de reforma e revisão >nomeadas por este Governo faz empalidecer a fotografia >da vida como era há cinco ou dez anos. Tudo parece que >foi há muito tempo. >Acontece que estas mudanças não chegaram gradualmente >ou com aviso prévio. As notícias apareceram em >catadupa, de repente, em meados de 2005, depois de >garantida a maioria absoluta de José Sócrates. Até aí, >o país (lembram-se?) andou convencido de que só tinha >um problema, chamado Santana Lopes. Nesses tempos, era >preciso ser um leitor fiel de Medina Carreira para >perceber que o mal não estava apenas no >primeiro-ministro e que a eleição de Fevereiro de 2005 >nunca poderia ser o fim de todas as dificuldades. >Agora, até os modelos que então nos venderam são >vistos a nova luz. Só agora sabemos que, afinal, os >escandinavos, os espanhóis e os irlandeses não andam >prósperos apenas porque puseram muita gente na escola, >mas porque sofreram "ajustamentos" dolorosos há dez ou >há vinte anos. Não era isso que nos tinham contado. >Não espanta, por isso, que muita gente nas gerações >mais novas tenha sido apanhada em contramão, >desprevenida, com as qualificações e atitudes >desadequadas para o mundo que surgiu em Portugal nos >últimos meses. >Essa falta de preparação nota-se, por exemplo, no >ensino superior, nessa forma mais benigna de abandono >escolar que é a fuga aos cursos "difíceis". Difícil, >segundo parece, é por definição todo o curso que tenha >a ver com "matemática". Percebe-se porquê: em 2005, os >exames de Matemática do 9.º ano produziram 70 por >cento de negativas. Em parte por causa disso, as áreas >de licenciatura mais produtivas continuam a ser >aquelas em que os lamentos sobre a saturação do >"mercado" são maiores. Não se trata de um simples caso >de imprevidência ou irracionalidade. Os estudantes e >as suas famílias reagiram simplesmente aos estímulos >que lhes foram administrados. E esses estímulos >passaram todos, até há pouco tempo, por um sistema de >ensino em que a inclusão era mais importante do que a >qualidade, e a auto-estima mais importante do que o >esforço disciplinado. >Em poucas áreas os equívocos foram maiores do que no >ensino. Em Portugal, inquéritos à origem social dos >estudantes e contas sobre o rendimento previsível dos >licenciados levaram sistematicamente à ideia de que um >diploma era um "privilégio": para os bem-aventurados, >era uma forma de se reproduzirem; para os outros, um >meio de ascenderem. Era de facto assim. Mas a partir >daí imaginou-se que a questão era expandir esse >"privilégio" administrativamente, da maneira mais >barata e expedita. A facilidade passou a ser encarada >como um princípio de justiça social. A mínima >referência à qualidade levava a suspeitas de >"elitismo". >Gerações sucessivas atravessaram um sistema de ensino >calafetado em geral contra qualquer forma de avaliação >externa, onde a aquisição de competências e de >conhecimentos foi frequentemente secundária em relação >a objectivos de suposta inclusão social. Durante anos, >enquanto o Estado, sempre em expansão, absorveu metade >dos licenciados, tudo correu mais ou menos bem, por >entre discussões inconclusivas acerca das "reformas >estruturais". Foi assim quase até ao Verão de 2005. >Então, subitamente, o mundo mudou. Agora, talvez >demasiados jovens estejam condenados a descobrir que >passaram pelo equivalente escolar das fábricas de >têxteis e de calçado mais obsoletas. Pedem-lhes agora >para competir num "mercado global". Hão-de perceber, >da pior maneira, que o sistema de ensino não os >habilitou verdadeiramente para nada que não fosse o >mundo que acabou. Que vão fazer? Ou antes: que podem >fazer? >Houve em Portugal gerações que gozaram a festa. Haverá >um dia gerações que já não vão esperar festa nenhuma. >Mas há, neste momento, gerações que foram convidadas >para uma festa que acabou antes de eles chegarem. >Histórias destas nunca terminam bem. Historiador Resposta ao historiador -Olha quem fala! -Este tipo diz que é historiador? -Onde tirou o cursinho? e quando o acabou? [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Re: Uma geração enganada | Beneditos | 30/09/06 14:03:59 |