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Subject: Discurso na Assembleia Geral da ONU:


Author:
Hugo Chavez
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Date Posted: 21/09/06 18:51:19

Discurso na Assembleia Geral da ONU:
"Eles, governo dos EUA, são os extremistas"
# "Não podemos permitir que se consolide a ditadura mundial"
# "O Império tem medo à verdade"
# "Mas que cinismo!" [o de Bush]
# "Acuso o governo dos Estados Unidos de proteger o terrorismo"
# Refundar a ONU e retirar a sua sede dos EUA
por Hugo Chavez

Senhora Presidenta, Excelências, Chefes de Estado, Chefes de Governo e altos representantes dos governos do mundo. Muito bons dias a todos e a todas. Em primeiro lugar quero com muito respeito, àqueles que não puderam, a que o leiam o livro Hegemonia ou sobrevivência – A estratégia imperialista dos Estados Unidos, de Noam Chomsky, um dos mais prestigiosos intelectuais desta América e do mundo. Excelente trabalho para entender o que se passou no mundo no século XX, o que se está a passar hoje e a maior ameaça que se debruça sobre o nosso planeta, a pretensão hegemónica do imperialismo norte-americano que põe em risco a própria sobrevivência da espécie humana. Continuamos a alertar sobre esse perigo e a fazer um apelo ao próprio povo dos Estados Unidos e ao mundo para deter esta ameaça que é como a própria espada de Damocles.

Pensei ler algum capítulo, mas para respeitar o tempo deixo-o antes como uma recomendação. Lê-se rapidamente. É muito bom, senhora Presidenta, certamente a senhora o conhece, está certamente publicado em inglês, em alemão, em russo, em árabe (aplausos). Vejam, creio que os primeiros cidadãos que deveriam ler este livro são os irmãos e irmãs dos Estados Unidos, porque a ameaça têm-na na sua própria casa, o Diabo está em casa pois. O Diabo, o próprio Diabo está em casa. Ontem o Diabo veio aqui, (risos e aplausos) ontem o Diabo esteve aqui, neste mesmo lugar. Esta mesa onde me coube falar ainda cheira a enxofre. Ontem, senhoras e senhoras, desta mesma tribuna o Senhor Presidente dos Estados Unidos, a quem eu chamo "O Diabo", veio aqui falando como o dono do mundo. Um psiquiatra não estaria a mais a fim de analisar o discurso do Presidente dos Estados Unidos. Como porta-voz do imperialismo veio dar as suas receitas para tentar manter o actual esquema de dominação, de exploração e de saque dos povos do mundo. Para um filme de Alfred Hitchcok estaria bem, inclusive eu proporia um título: "A receita do Diabo". Ou seja, o Imperialismo norte-americano, e aqui o diz Chomsky com uma clareza meridiana e profunda, está a fazer esforços desesperados para consolidar seu sistema hegemónico de dominação. Não podemos permitir que isso ocorra, não podemos permitir que se instale a ditadura mundial, que se consolide a ditadura mundial.

O discurso do Presidente "tirano mundial", cheio de cinismos, cheio de hipocrisia, é a hipocrisia imperial, a tentativa de controlar tudo, eles querem impor-nos o modelo democrático como o concebem, a falsa democracia das elites, e a além disso um modelo democrático muito original, imposto a bomba, a bombardeios e a ponta de invasões e canhoneios. Mas que democracia! Seria preciso rever as teses de Aristóteles e dos primeiros que na Grécia falaram da democracia para ver que modelo de democracia é esse, o qual é imposto a ponta de marines, de invasões, de agressões e de bombas.

Ontem, nesta mesma sala, o presidente dos Estados Unidos disse o seguinte (cito): "Para onde quer que o senhor olhe, ouve extremistas que lhe dizem que pode escapar da miséria e recuperar sua dignidade através da violência, do terror e do martírio". Para onde quer que ele olhe vê extremistas. Estou certo de que te vê a ti, irmão, com essa cor, e crê que és um extremista. Com esta cor. Evo Morales, que veio ontem, o digno Presidente da Bolívia. Por todos os lados os imperialistas vêem extremistas. Não, não é que sejamos extremistas, o que se passa é que o mundo está a despertar e por todos os lados insurgimos os povos. Tenho a impressão, senhor ditador imperialista, que o senhor vai viver o resto dos seus dias com um pesadelo, porque onde quer que olhe nós vamos surgir, os que nos insurgimos contra o imperialismo norte-americano. Nós, os que clamamos pela liberdade plena do mundo, pela igualdade dos povos, pelo respeito à soberania das nações. Sim, chamam-nos extremistas, insurgimo-nos contra o Império, insurgimo-nos contra o modelo de dominação. A seguir, o senhor presidente veio falar-lhe e disse assim: "hoje quero falar directamente às populações do Médio Oriente. Meu país deseja a paz". Isto é certo, se andarmos pelas ruas do Bronx, se andarmos pela ruas de Nova York, de Washington, de San Diego, da Califórnia, de qualquer cidade, de San Antonio, de San Francisco e perguntarmos às pessoas nas ruas, aos cidadãos estadunidenses, este país quer a paz. A diferença está em que o governo deste país, dos Estados Unidos, não quer a paz, quer impor-nos o seu modelo de exploração e de saque e a sua hegemonia a ponta de guerras, essa é a pequena diferença. Quer a paz e o que se está a passar no Iraque? E o que se passou no Líbano e na Palestina? E o que se passou em cem anos na América Latina e no mundo e agora as ameaças contra a Venezuela, novas ameaças contra o Irão? Ele falou ao povo do Líbano: "muitos dos senhores viram como seus lares e suas comunidades ficaram presas no fogo cruzado". Mas que cinismo! Mas que capacidade para mentir descaradamente perante o mundo! As bombas em Beirute lançadas com precisão milimétrica são fogo cruzado? Creio que o Presidente está a pensar nos filmes do far west, quando se disparava a partir da cintura e alguém ficava atravessado no fogo cruzado.

Fogo imperialista! Fogo fascista! Fogo assassino! E fogo genocida do Império e de Israel contra o povo inocente da Palestina e contra o povo do Líbano. Essa é a verdade. Agora dizem que sofrem, que estamos a sofrer porque vemos seus lares destruídos. Enfim, o Presidente dos Estados Unidos veio falar aos povos, veio dizer além disso, eu trouxe senhora Presidenta uns documentos, porque estive esta madrugada a ver alguns discursos e a actualizar as minhas palavras. Ele falou ao povo do Afeganistão, ao povo do Líbano, ao povo do Irão. Mas pode-se perguntar, assim como o Presidente dos Estados Unidos diz: digo a esses povos, o que diriam esses povos a ele? Se esses povos pudessem falar, o que diriam? Eu lhes vou dizer porque conheço a maior parte da alma desses povos, os povos do Sul, os povos atropelados diriam: Império yankee go home! Esse seria um grito que brotaria por toda a parte, se os povos do mundo pudesse falar com uma só voz ao Império dos Estados Unidos.

Por isso, senhora Presidenta, colegas, amigas e amigos, nós no ano passado viemos aqui a este mesmo salão como todos os anos e durante os últimos oito, e dizíamos algo que hoje está plenamente confirmado e creio que aqui quase ninguém nesta sala poderia parar para defendê-lo, para defender o sistema das Nações Unidas, aceitemo-lo com honestidade, o Sistema das Nações Unidas nascido depois da Segunda Guerra Mundial entrou em colapso, afundou-se, não serve. É bom para vir aqui fazer discursos, para ver-nos uma vez por ano, sim, serve para isso, e para fazer documentos muito extensos e fazer boas reflexões e ouvir bons discursos como o de Evo ontem, como o de Lula, sim, serve para isso e muitos discursos, como o que estávamos a ouvir agora mesmo do Presidente de Srilanka e da Presidenta do Chile, mas converteram esta assembleia num órgão meramente deliberativo, meramente deliberativo sem nenhum tipo de poder para causar o mínimo impacto à realidade terrível que vive o mundo. Por isso nós voltamos a propor, a Venezuela tornar a propor hoje aqui, neste dia 20 de Setembro, que refundemos as Nações Unidas e nós no ano passado, senhora Presidente, fizemos quatro modestas propostas que consideramos de necessidade inadiável que as assumamos, bem, os Chefes de Estado, os Chefes de Governo, nossos embaixadores, nossos representantes e as discutamos.

Primeiro: a expansão. Ontem já o dizia Lula aqui mesmo, do Conselho de Segurança tanto nas suas categorias permanentes como nas Não Permanentes, dando entrada a novos países desenvolvidos e a países subdesenvolvidos, o Terceiro Mundo, como novos membros permanentes. Isso em primeiro lugar.

Em segundo lugar, bem, a aplicação de métodos eficazes de atenção e resolução dos conflitos mundiais. Métodos transparentes, de debate, de decisões. Terceiro, parece-nos fundamental a supressão imediata, e isso é um clamor de todos, desse mecanismo antidemocrático do veto. O veto nas decisões do Conselho de Segurança. Veja-se um exemplo recente: o veto imoral do governo dos Estados Unidos permitiu livremente às forças israelenses destroçar o Líbano na cara, diante de todos nós, evitando uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

E em quarto lugar é necessário fortalecer, dizemos sempre, o papel, as atribuições do Secretário Geral das Nações Unidas. Ontem o Secretário Geral dava-nos um discurso praticamente de despedida, e reconhecia que nestes dez anos o mundo o que fez foi complicar-se e que os seus graves problemas, a fome, a miséria, a violência, a violação dos direitos humanos o que fez foi agravar-se. Isto é uma consequência terrível do colapso sobre o sistema das Nações Unidas e da pretensão norte-americana. Por outro lado, Senhora Presidenta, a Venezuela decidiu há vários anos travar esta batalha dentro das Nações Unidas, reconhecendo as Nações Unidas como membro que somos, com nossa voz, com nossas modestas reflexões. Somos uma voz independente, para representar a dignidade a busca da paz, a reformulação do sistema internacional, para denunciar a perseguição e as agressões do hegemonismo contra os povos do Planeta. A Venezuela dessa forma apresentou o seu nome. Esta pátria de Bolívar apresentou o seu nome e postulou um lugar como Membro Não Permanente do Conselho de Segurança. Como a senhora sabe, o governo dos Estados Unidos iniciou uma agressão aberta, uma agressão imoral no mundo inteiro para tentar impedir que a Venezuela seja eleita livremente para ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança. Têm medo à verdade. O Império tem medo à verdade, às vozes independentes, acusando-nos de extremistas. Eles são os extremistas.

Quero agradecer aqui a todos aqueles países que anunciaram o seu apoio à Venezuela, apesar de a votação ser secreta e não ser necessário que ninguém a anuncie. Mas creio que dada a agressão aberta do Império norte-americano, pois isso acelerou o apoio de muitos países, o que fortalece moralmente a Venezuela, o nosso povo, o nosso governo. O Mercosul, por exemplo, em bloco, anunciou seu apoio à Venezuela, nossos irmãos do Mercosul. A Venezuela agora e membro pleno do Mercosul com o Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e muitos outros países da América Latina como a Bolívia. O Caricom em pleno anunciou o seu apoio à Venezuela. A Liga Árabe em pleno anunciou o seu apoio à Venezuela, agradeço muito ao mundo árabe, aos nossos irmãos da Arábia, essa Arábia profunda, aos nossos irmãos do Caribe. A União Africana, quase toda a África, anunciou o seu apoio à Venezuela. E países como a Rússia, como a China e muitos outros países do Planeta. Muitíssimo obrigado em nome da Venezuela, em nome do nosso povo e em nome da verdade, porque ao ocupar um lugar no Conselho de Segurança a Venezuela vai trazer a voz não só da Venezuela, a voz do Terceiro Mundo, a voz dos povos do Planeta, aí estaremos a defender a dignidade e a verdade.

Para além de tudo isto, senhora Presidenta, creio que há razões para que sejamos optimistas. Irrenunciavelmente optimistas, diria um poeta, porque para além das ameaças, das bombas, das guerras, das agressões, da guerra preventiva, da destruição de povos inteiros podemos verificar que se está a levantar uma nova era, como canta Silvio Rodríguez, "a era está parindo um coração". Levantam-se correntes alternativas, pensamentos alternativas, juventudes com pensamento diferente. Já se demonstrou, em apenas uma década, que era totalmente falsa a tese do Fim da História, totalmente falsa a instauração do Império Americano, da paz americana, da instauração do modelo capitalista, neoliberal que o que gera é miséria e pobreza. É totalmente falsa a tese, veio abaixo agora que há que definir o futuro do mundo. Há um amanhecer no Planeta e vê-se por toda a parte, pela América Latina, Ásia, África, Europa, Oceania. Quero ressaltar essa visão de optimismo para que fortaleçamos nossa consciência e nossa vontade de batalha para salvar o mundo e construir um mundo novo, um mundo melhor.

A Venezuela soma-se a essa luta e por isso somos ameaçados. Os Estados Unidos já planificaram, financiaram e impulsionaram um golpe de estado na Venezuela. E os Estados Unidos continuam a apoiar movimentos golpistas na Venezuela e contra a Venezuela, continuam a apoiar o terrorismo. Já a Presidente Michel Bachellet recordava há alguns dias, perdão, há alguns minutos, o terrível assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier. Eu apenas acrescentaria o seguinte: os culpáveis estão livres. E os culpáveis por aquele facto em que morreu também uma cidadã estadunidense são norte-americanos, da CIA. Terroristas da CIA.

Mas além disso há que recordar nesta sala que dentro de poucos dias também serão cumpridos 30 anos, igualmente, daquele feito terrorista horripilante da explosão do avião cubano em que morreram 73 inocentes, um avião da Cubana de Aviación. E onde está o maior terrorista deste continente e que assumiu a explosão do avião cubano como autor intelectual? Esteve preso na Venezuela durante uns anos, fugiu para o exterior por cumplicidade de funcionários da CIA e do governo venezuelano de então, está aqui, a viver nos Estados Unidos, protegido por este governo, e foi convicto e confesso. O governo dos Estados Unidos tem um duplo critério e protege o terrorismo. Estas reflexões são para dizer que a Venezuela está comprometida na luta contra o terrorismo, contra a violência, e une-se todos os povos que lutam pela paz e por um mundo de igualdade. Falei do avião cubano. Luis Posada Carriles, assim se chama o terrorista, está aqui protegido, como protegidos estão grandes corruptos que fugiram da Venezuela, um grupo de terroristas que lá puseram bombas contra embaixadas de vários países, que lá assassinaram gente durante o golpe de estado, que sequestraram este humilde servidor, e que o iam fuzilar, só que Deus pôs a sua mão e um grupo de bons soldados e um povo que foi às ruas e por milagre estou aqui. Estão aqui, protegidos pelo governo dos Estados Unidos, os líderes daquele golpe de estado e daqueles actos terroristas. Eu acuso o governo dos Estados Unidos de proteger o terrorismo e de ter um discurso totalmente cínico.

Falámos de Cuba. Viemos de Havana, viemos felizes de Havana, estivemos ali vários dias e ali se pode ver o nascimento de uma nova era na Cimeira do Grupo dos 15, a Cimeira dos Movimento dos Não Alinhados, com uma resolução histórica, o documento final. Não se assustem, não vou le-lo todo, mas aqui há um conjunto de resoluções tomadas em discussão aberta e com transparência, por mais de 50 Chefes de Estado. Havana foi a capital do Sul durante uma semana. Relançámos o Grupo dos Não Alinhados, o Movimento dos Não Alinhados, e se algo posso pedir aqui a todos vocês companheiros e irmãos e irmãs é que ponhamos muita vontade para fortalecer o Grupo dos Não Alinhados, importantíssimo para o nascimento da nova era, para evitar a hegemonia e o Imperialismo. E além disso os senhores sabem que designámos Fidel Castro como Presidente do Grupo dos Não Alinhados nos próximos três anos e estamos seguros de que os companheiro Presidente Fidel Castro vai usar a batuta com muita eficiência. Para os que queriam que Fidel morresse ficaram pois frustrados e frustrados ficarão porque Fidel já está novamente em uniforme verde oliva e agora não só é o Presidente de Cuba como também Presidente dos Não Alinhados.

Senhora Presidenta, queridos colegas, presidentes, aí nasceu um movimento muito forte, o do Sul. Somos homens e mulheres do Sul, somos portadores, com estes documentos, com estas ideias, com estas críticas, com esta reflexões, já fecho minha pasta e o livro que trago, não esqueçam que lhes recomendo muito, com muita humildade tratamos de contribuir com ideias para a salvação deste Planeta, para salvá-lo da ameaça imperialista e para que, oxalá em breve, neste século, não muito tarde, oxalá possamos vê-lo nós e vive-lo melhor nossos filhos e netos, num mundo de paz sob os princípios fundamentais da Organização das Nações Unidas, relançada e relocalizada. Creio que as Nações Unidas têm de ser localizadas em outro país, em alguma cidade do Sul. Propusemos a Venezuela. Os senhores abem que o meu médico pessoal teve que ficar encerrado no avião, o chefe da minha segurança teve de ficar encerrado no avião, não lhe permitiram vir às Nações Unidas. Outro abuso e atropelo, Senhora Presidenta, que pedimos que fique registado como atropelo do pessoal do Diabo, que cheira a enxofre. Mas Deus está connosco, um grande abraço e que Deus nos bendiga a todos. Muito bons dias.
20/Setembro/2006
O texto do original encontra-se em
http://listas.nodo50.org/cgi-bin/mailman/listinfo/diariodeurgencia

Este discurso encontra-se em http://resistir.info/ .

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