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Subject: Uma guerra de morte


Author:
Clara Ferreira Alves
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Date Posted: 22/07/06 17:52:03
In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "As sementes de um novo holocausto ?" on 15/07/06 16:35:26

O LÍBANO não existe. Existe no mapa, com uma população, não existe como Estado autónomo, politica, militar e geograficamente independente. Não existe como unidade social e religiosa. Desde o fim da guerra civil que o Líbano reconstruído é controlado no Norte pela Síria e no Sul pelo Hezbollah que é controlado pelo Irão. O Hezbollah apareceu em 1982, quando Israel invadiu o Líbano e cercou a Fatah de Arafat. Nesse tempo, o Líbano era controlado por grupos e facções, credos e seitas religiosas, cristãos e muçulmanos, palestinianos, druzos, maronitas, e outros, todos com nomes curiosos, facções resultantes das religiões do Livro entretidas nas suas disputas de território, armas, dinheiro, poder. A Suíça do Médio Oriente, o Líbano, e a mais viva e liberal e mediterrânica das cidades do Médio Oriente, Beirute, ficaram transformadas num monte de escombros, cinzas e cadáveres. Com a retirada dos israelitas e a retirada de Arafat para Tunes, e com os ataques terroristas do Hezbollah ajudado e treinado pelos guardas revolucionários iranianos, os Pasdaran, os americanos acabaram por retirar no fim, não antes de terem perdido 241 Marines num único atentado.

A Síria e o Irão, cúmplices e unidos no seu horror à América, fizeram o Líbano pensar que conquistara o direito a viver em paz. A hegemonia síria no Norte garantiu a partir de Damasco uma relativa coabitação com os políticos libaneses e no Sul o Hezbollah atormentava Israel e vice-versa sem que o mundo se incomodasse muito. Uns foguetes e mísseis eram disparados na região da fronteira, uns soldados e militantes eram raptados. De vez em quando, Israel negociava a libertação dos seus em troca da libertação dos deles. O Irão continuou a armar e treinar o Hezbollah e o Hezbollah a controlar uma parte de Beirute, onde tinha o seu estado-maior e os seus escritórios e propaganda. Dentro do Hezbollah cresceria a Jihad Islâmica, união de outras militâncias extremistas, a qual acabaria por tornar a vida difícil aos israelitas em Gaza e na Cisjordânia. Israel nasceu rodeado de inimigos, nasceu fazendo inimigos, e durante estes anos todos manteve uma enorme pressão sobre os inimigos, demonstrando-lhes pelo medo, a repressão e a humilhação, quem mandava na região. Nada de novo ou essencialmente novo aconteceu no Sul do Líbano para justificar esta guerra e aquilo que os políticos chamam a desproporção da resposta. Israel sempre foi especialista em respostas desproporcionadas, era uma regra do jogo. Aqui mando eu, e eu tenho a América por trás. E, do outro lado, enquanto o ressentimento e o ódio cresciam, também ninguém tinha dúvidas sobre quem mandava. A relação destes militantes e dos palestinianos com Israel, sendo fundada na violência, no ódio e na não-rendição, era também fundada no medo e na certeza de que Israel não tem escrúpulo. Uma democracia especial, com métodos terroristas e terrorismo de Estado. Brutais e corajosos, inteligentes e unidos na sobrevivência da raça e numa avaliação moral do mundo em que se vêem a si mesmos, sempre, como vítimas e perseguidos, em vez de perseguidores e carrascos, os israelitas criaram uma nação.

Os últimos anos trouxeram grandes alterações a este estado de coisas, a que israelitas e palestinianos se tinham habituado. E os últimos meses alteraram as regras do jogo. Arafat e a secular Fatah desapareceram e foram substituídos pelo Hamas. Sharon transformou-se em «pomba» e resolveu retirar de Gaza unilateralmente, «morrendo» a seguir. Na Casa Branca surgiu um grupo de falcões que, apanhando nas garras um Presidente ignorante e ingénuo, concebeu o projecto imperial de moldar um novo Médio Oriente a partir do Iraque «democrático» e «livre». O 11 de Setembro e Bin Laden criaram uma nova retórica da guerra dos mundos. Bush resolveu encetar a guerra antiterrorista universal, acompanhado do seu amigo Blair, um trabalhista. A Europa desapareceu, dividida pela fraqueza e a relação com a América por causa do Iraque. O Iraque secular perdeu-se. Os sírios assassinaram Rafik Hariri, que julgou ser primeiro-ministro de um país livre. E, por último, e mais importante do que tudo isto, o Irão elegeu um Presidente fanático que ameaça destruir Israel, diz que o Holocausto nunca existiu, controla os xiitas iraquianos, e quer fabricar armas nucleares. Dentro de Israel temos um primeiro-ministro inseguro de um partido recém-criado, o Kadima, com Sharon em coma e os generais clamando por uma demonstração de força. Fora de Israel temos uma Síria beligerante e controlada pelos serviços secretos e no Líbano um Hezbollah com capacidade bélica. Na Casa Branca, tal como em Downing Street, Israel tem dois aliados, e tão cedo não voltaria a ter uma oportunidade de mostrar que continua a mandar na região, que a sua força aérea é invencível e que não hesita em bombardear alvos civis e em sofrer baixas para dar cabo do inimigo. Na reunião dos G-8, os donos do mundo assobiaram para o lado e deram graças por alguém fazer o trabalho que eles não podem, por razões maiores da diplomacia e do direito internacional, fazer: a guerra da intimidação. Bush queixou-se vagamente sobre «this shit», e Blair nada disse, como de costume, com o esfíngico Putin no meio. Kofi Annan e as Nações Unidas estão como a Europa, dormentes. No Irão, eles perceberam. Esta guerra é contra eles e com eles. É uma guerra de morte.

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Subject Author Date
Re: As sementes de um novo holocausto ?Ruben de Carvalho (DN)18/08/06 15:27:03


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