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| Subject: O trabalho, o valor e a mais-valia no MPC. Introdução. | |
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Author: José Manuel Correia |
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Date Posted: 25/07/06 19:11:46 Os temas propostos para abordagem não são de fácil compreensão. Mais difícil se torna a sua compreensão para quem não os tem como objecto de estudo sistemático, porque tem mais que fazer com o seu tempo profissional ou de lazer, e os aborda esporadicamente, ou para quem não domina os aspectos fundamentais da extensa obra do Marx e se apresenta como aprendiz de marxista, ou ainda para quem, dominando-os, mas assumindo-se como adepto, não tem predisposição para a sua crítica. Também eu não os tenho como objecto de estudo sistemático, nem tenho qualquer pretensão de dominá-los, embora de vez em quando, cada vez menos frequentemente, me entretenha a discuti-los entre amigos. Não admira, por isso, que por vezes tenha abordado os temas por ângulos menos adequados, que me levaram a enveredar por caminhos tortuosos que não conduziram a resultados satisfatórios. Passaram mais de vinte e oito anos desde que fiz um pequeno estudo sistemático de O capital, mas essa abordagem foi para fundamentar em traços gerais o meu corte político com o comunismo, e não para empreender qualquer estudo crítico aprofundado da ideologia marxista. Há apenas meia dúzia de anos que a crítica a alguns postulados do Marx voltou a ser tema de interesse, meramente ocasional, ao sabor das conversas surgidas em tertúlia. O distanciamento temporal e a perda de ligação afectiva ao projecto político comunista e à ideologia marxista ajudam à elaboração da racionalidade crítica, mas mesmo eles não iludem a complexidade da realidade e as dificuldades do seu conhecimento, nem facilitam a crítica das interpretações do Marx, que ainda constituem o que de melhor foi produzido como crítica da economia política. Por todos estes factores, mais aqueles que se prendem com as limitações pessoais, a minha compreensão da realidade da economia política é restrita e precária, e vai sendo construída na medida das circunstâncias. Em Portugal, os meios de comunicação de massas não estão abertos à publicação de textos sobre o assunto. As revistas dedicadas às ciências sociais, fora dos circuitos académicos, praticamente desapareceram. Os sítios da Internet especializados nesta temática, em geral dirigidos por adeptos marxistas, estão apenas virados para o combate político e a propaganda ideológica apologética do marxismo e não praticam o debate; não aceitam, por isso, qualquer texto crítico, muito menos herético. As conversas entre amigos ainda constituem a única alternativa viável, mas também elas têm potencialidades restritas. Enquanto se mantém o interesse comum, o que acontece durante as fases de identificação dos pontos críticos ou controversos das interpretações do Marx e de discussão de hipóteses alternativas, cada um dos intervenientes, dentro das suas possibilidades, vai dando o seu contributo; depois, à medida que uma ou outra hipótese ganha consistência sob a forma de esboços de teoria, também nelas se esbatem os conflitos cognitivos, acabando os intervenientes por se darem por satisfeitos com os parcos progressos alcançados. O potencial das conversas quanto à produção de conhecimento esgota-se quando os intervenientes, dantes críticos activos, se transformam em apologetas passivos das ideias de que passaram a comungar, nem sempre as tendo assimilado correctamente. As conversas neste fórum, porque abarcam um círculo mais alargado e diversificado de intervenientes, poderiam constituir uma alternativa às tertúlias. Mais do que os artigos eruditos ou académicos, as conversas travadas poderiam contribuir para que fôssemos aprendendo a compreender melhor a realidade social. Infelizmente, também aqui é pequeníssimo o número dos que mostram interesse pela abordagem crítica das concepções marxistas da crítica da economia política, e o conteúdo não estruturado de algumas intervenções denota a existência de pouca reflexão pessoal sobre este assunto. Sintomático disso mesmo é ter tido, nas intervenções que ultimamente fiz neste fórum, um único interlocutor, o Guilherme Statter. Para ele vão os meus agradecimentos, por se prestar a contraditar-me, e as minhas desculpas, por qualquer eventual excesso de linguagem que tenha usado nas respostas às questões que levantou. As intervenções do Fernando Redondo, administrador do fórum e pessoa interessada, tanto mais que escreveu um livro sobre um pretenso novo modo de produção (o Digitalismo), por exemplo, são espelho dessa fragilidade reflexiva. No seu caso, ela traduz-se pela rejeição, sem apresentar argumentação crítica, de algumas das ideias expressas em intervenções alheias, e pelo lançamento de interrogações pondo em dúvida um ou outro conceito ou interpretação, também sem apresentar argumentação fundamentadora das próprias dúvidas, muito menos apresentando qualquer contribuição original alternativa, ainda que sob a forma de hipótese; ou, então, no lançamento de reptos e de desafios a outros (onde é que fulano fundamentou “isto” e “aquilo”? e se “isto” não for assim?), sem que ele se dê ao trabalho de comprovar se fulano disse ou fundamentou “isto” ou “aquilo” ou de demonstrar as implicações dos eventuais erros de fulano ou de beltrano. Em relação a uma questão fundamental — o valor das mercadorias no modo de produção capitalista — o Fernando Redondo afirma: “considero o trabalho a "fonte" do valor, mas (…) não considero o tempo de trabalho como forma de medir esse mesmo valor”. Como é seu hábito, faz apenas afirmações sem qualquer suporte argumentativo que fundamente quer o que o faz considerar o trabalho a fonte do valor, quer o que o faz não considerar o tempo de trabalho como medida do valor. Apesar das múltiplas e repetidas referências ao que terá vindo a dizer, desconheço qualquer argumentação sua sobre o tema, e encaro esta persistente postura proclamativa como totalmente desinteressante, porque não proporciona qualquer contributo para a discussão, e petulante, porque pretende exibir uma originalidade de que não se vislumbra qualquer vestígio. Em vez de argumentar em defesa das suas afirmações, parece esperar que alguém argumente por ele e lhe desfaça as dúvidas. Seria bem mais interessante que apresentasse com alguma clareza as suas ideias e a respectiva argumentação. Por esse simples facto, todos lhe ficaríamos agradecidos. Não comungo das dúvidas, nem das certezas, do Fernando Redondo, mas não quero deixar passar a oportunidade da referência ao assunto — que para mim constitui o aspecto fundamental da crítica marxista da economia política e aquele em que se podem detectar erros de interpretação que acabam por ser determinantes para a inconsistência da extensa obra do Marx — para pegar nele e expor, de forma um pouco mais sistematizada, as minhas próprias concepções. Para esse efeito, elaborei um pequeno texto, no qual critico a conceptualização marxista acerca da mercadoria vendida pelo trabalhador, do valor das mercadorias e da mais-valia no modo de produção capitalista. Pretendo demonstrar com esse texto que a conceptualização marxista é errada, no que se refere à identificação da mercadoria vendida pelo trabalhador como sendo a força de trabalho, à não distinção entre as categorias valor do custo de produção e valor de troca da mercadoria e à designação da mais-valia como valor suplementar produzido pelo trabalho em relação a um suposto valor da força de trabalho. Para esse efeito, parto da análise crítica daquela conceptualização. Identifico o trabalho como a mercadoria vendida pelo trabalhador, e demonstro que a capacidade para produzir trabalho ou força de trabalho, enquanto utilidade indissociável do seu próprio ser, apenas poderia ser vendida simultaneamente com a pessoa do trabalhador, o que não ocorre no modo de produção capitalista; demonstro também que o trabalho é o produto da capacidade para produzir trabalho inerente ao corpo humano e do consumo de energia proveniente de matérias-primas e auxiliares, que o trabalhador adquire e são igualmente de sua propriedade; que o trabalhador vende uma quantidade determinada de trabalho, correspondente à energia que consome durante a jornada de trabalho; que o trabalho, embora vendido, não é apropriado pelo capitalista, porque é mera energia consumida, transformada em trabalho com uma utilidade específica, e o que aquele adquire é essa utilidade do trabalho, que usa na transformação de outros produtos em mercadorias. Designo o trabalho humano presente ou vivo como a mercadoria comum a todas as outras mercadorias produzidas; defino esse trabalho como resultado da transformação, através do corpo humano vivo, de outra forma de energia, na qual está representada trabalho sob a forma de trabalho passado; demonstro que o valor do custo de produção do trabalho presente ou vivo é independente tanto do valor que pudesse ser atribuível ao corpo humano que o produz como do valor das mercadorias que o trabalhador consome, e é representado pela energia consumida apenas na sua produção, a qual constitui o seu próprio valor; identifico, por outro lado, o valor do custo de produção das restantes mercadorias com o do custo de produção da mercadoria trabalho, visto ser a sua produção simultânea com a produção das restantes e ser a sua utilidade a produzir a utilidade das restantes, transformando, com o seu consumo, a utilidade dos objectos sobre que incide noutras utilidades específicas. Efectuo a distinção entre o valor do custo de produção das mercadorias e o seu valor de troca, e demonstro que este pode ser distinto daquele, e que a concepção marxista da sua não distinção se baseia na aceitação acrítica do postulado veiculado pela economia política clássica de que as mercadorias seriam trocadas pelo valor do custo de produção, o que faria da troca uma mera troca de quantidades de valor equivalentes; demonstro também que a troca de mercadorias, em geral, independentemente de eventuais flutuações da oferta e da procura, é uma troca desigual, inerente à formação do valor de troca das mercadorias resultar da aplicação de taxas de lucro similares aos capitais desigualmente compostos com que podem ser produzidas, a qual tem por objectivo efectivar a apropriação da mais-valia e proceder à sua distribuição equitativa entre os capitalistas. Defino a mais-valia como parte do produto apropriado pelo capitalista, através da relação de troca desigual que efectua com o trabalhador na compra da sua mercadoria trabalho, ao pagá-la com mercadorias em cuja produção foi consumida menor quantidade de trabalho vivo, e situo a sua origem na esfera da circulação das mercadorias; como consequência, critico a paradoxal concepção marxista de que a mais-valia teria origem na esfera da produção, representando um hipotético valor suplementar criado pelo trabalho para além do suposto valor do custo de produção da força de trabalho. Afloro, ainda, sem desenvolver, algumas discrepâncias entre o conceito de mais-valia e a concepção marxista da determinação da sua taxa, e refiro as implicações que os erros de interpretação apontados tiveram nas concepções mais gerais do Marx, não só no que respeita à crítica da economia política, como no que se refere à sua concepção da revolução social, ao projecto político da instauração duma sociedade comunista, em que se empenhou, e ao papel histórico que atribuiu ao proletariado. Apesar da minha posição crítica, não deixo, porém, de reconhecer ao Marx o mérito de ter sido o pioneiro e o autor do que de melhor se produziu na crítica teórica da economia política. Não colho nenhuma simpatia pelos marxistas de qualquer época. Não estiveram à altura do mestre, porque não compreenderam muito do que disse, e foram meros apologetas recitadores, sem mostrarem qualquer capacidade crítica relevante. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |
| Subject | Author | Date |
| Re: O trabalho, o valor e a mais-valia no MPC. Introdução. | Fernando Penim Redondo | 26/07/06 14:20:47 |
| Re: O trabalho, o valor e a mais-valia no MPC (1) | José Manuel Correia | 26/07/06 21:21:29 |
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