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| Subject: O fim da galáxia Gutenberg | |
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Author: Paulo Querido (no Expresso de 29/7/2006) |
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Date Posted: 1/08/06 11:42:37 A vida era tão simples. Antes das tecnologias da informação e do acesso democrático à edição, quero eu dizer. O mundo percepcionado através dos «media» «convencionais» vinha até nós confortavelmente. Um livro era um livro. Um jornal era a mesma coisa, mas mais leve, mais curto no tempo - papel impresso com «l’air du temps». A rádio tinha música e alguns debates, e até a televisão, tão temida pelos educadores graças ao seu potencial de poder, estava domesticada - embora menos canina e mais felina, ronrona no nosso colo e de seguida rasga-nos o sofá. A comunicação era fácil de ensinar às crianças. E de fazer. Quando queríamos (ou era preciso) entrávamos na infosfera: na aula, abríamos o livro na página sugerida pelo professor, no café líamos as notícias e reportagens por cima do ombro do vizinho, tinha um amigo que se informava quase exclusivamente ouvindo os noticiários nos táxis, convidávamos o pivô da televisão a contar-nos como ia o mundo ao jantar. Quando queríamos, saíamos da infosfera: bastava fechar o livro ou o jornal e pousar os óculos ao lado da cadeira (a imagem de quem mergulha em reflexão, se não dormita), desligar o botão da rádio para ouvir o silêncio, premir o gatilho do telecomando para suprimir o bombardeamento das imagens. Os mecanismos de conhecimento estavam garantidos. A fiabilidade da informação era um dado adquirido (enfim). Tirando as excepções, em regra um autor era publicado depois de passar O Crivo, um batalhão de intermediários letrados ou até mesmo cultos cuja função consistia em tranquilizar a Humanidade acerca da proveniência, da conveniência e da competência das ideias escritas pelo autor. Os «media» construíam as suas reputações evitando noticiar mentiras, ou precisamente noticiando mentiras, e estabelecendo laços com os leitores, embarcando juntos na mesma Aventura Rumo à Verdade. Os excessos serviam muito realisticamente para reciclar: os maus autores eram ridicularizados noutro exercício autoral, os erros do jornalismo davam filmes e os desvios da televisão acabavam em teses. A vida era simples de perceber, quero eu dizer. Bons velhos tempos em que não era preciso procurar o contraponto a um artigo na Wikipedia. Aliás, nem sabíamos que era preciso procurar um contraponto: se vinha na enciclopédia, só podia ser verdade! Hoje, a vida é complicada: para descodificar a mensagem é preciso antes saber que tipo de envelope é aquele, pois isso vai condicionar quer a descodificação quer a absorção do conteúdo. Precisamos saber tanto ou mais sobre o meio do que sabemos sobre o assunto. Desconfio que não era exactamente a isto que McLuhan se referiu, mas entender o meio é fundamental para poder aceitar a mensagem. A literacia evoluiu: hoje, consiste em algo mais do que dominar alfabetos e gramáticas para estar habilitado a absorver conhecimento através da literatura (o «ensino primário», digamos). Desde a compreensão da importância das imagens (McLuhan mais uma vez), ser letrado implica também entender o posicionamento, o tempo de entrada, o ritmo, a relação entre os diversos espaços, o significado da duração e a perspectiva do audiovisual (o «ensino secundário»). E as técnicas de avaliação, análise, acesso e produção de comunicação, o processo de ser capaz de pensar criticamente e agir rapidamente sobre a informação recebida na infosfera omnipresente em cujo botão de «power» não carregámos nem temos a possibilidade de desligar (o «ensino universitário»). Nesse livro de grande utilidade intitulado É Preciso Salvar a Comunicação (edição portuguesa Caleidoscópio, 2006), Dominique Walton descreve o crescimento dos riscos de incomunicação com a globalização e o aumento de mensagens trocadas. «Já não é suficiente informar para comunicar ... E é o próprio aumento do volume de informação que, por seu turno, suscita uma comunicação mais difícil. É todo o esquema informação/comunicação, válido do século XIV ao século XX a Galáxia Gutenberg, que temos de rever». E diz em seguida: «Ainda por cima, para falar de comunicação, temos de tomar em consideração os três campos em que esta se manifesta. O mais visível, o que mudou de forma mais extraordinária, é o campo técnico. O segundo, em plena expansão, diz respeito à economia. O terceiro, o menos visível mas o mais importante na duração, refere-se à dimensão social e cultural da comunicação». O mais extraordinário das duas frases retiradas da página 14 é aquele «ainda por cima». Nenhuma outra expressão valorizaria tanto os «media». Como se não bastasse termos de perceber a mudança, ainda por cima temos de aprender o que antes era desprezível na comunicação: a natureza e a corporização do meio. O trabalho de Walton toca, mas não versa sobre a literacia dos «media». Esta, aliás, anda por aí desde antes de McLuhan e tem sido até aplicada aos programas escolares - embora sobretudo em perspectivas, digamos, estreitas, como a educação para o cinema (França), o foco na cultura popular (América do Norte), ou as preocupações com as ideologias e as discriminações (Reino Unido, África do Sul e Austrália). Perspectivas meritórias, mas estreitas, porque reféns, ainda, das referências da Galáxia Gutenberg, nomeadamente a linearidade na aquisição do conhecimento ou da informação e a dicotomia entre emissor e receptor - duas premissas feitas explodir pelo advento das tecnologias da informação. Contrariamente ao que se passou no século dele, no século XXI tratamos com o enlevo merecido Paul Virilio e os seus avisos sobre a velocidade; já conhecemos na carne das sociedades avançadas os efeitos da supressão dos tempos de maturação, substituída que foi pela velocidade de rotação da «actualidade». Saber ler os «media» num contexto de supressão/compressão do tempo e do espaço é o rito de iniciação ao mundo comunicacional pós-Gutenberg (conceito aqui tomado no sentido amplo e não pela mera substituição do livro de átomos pelo livro de bits). É preciso ir a Lawrence Lessig, um dos raros proeminentes académicos mundiais na área da cultura livre (no duplo sentido da liberdade e da gratuitidade), para desencantar um pensamento mais estruturado sobre as necessidades práticas da «media literacy». «Num mundo onde as crianças vêem em média 390 horas de comerciais televisivos por ano, ou entre 20 mil a 45 mil mensagens publicitárias em geral, é cada vez mais importante perceber a ‘gramática’ dos ‘media’. Porque da mesma forma que há uma gramática para a palavra escrita, também há uma para os ‘media’. E da mesma forma que as crianças aprendem a escrever escrevendo muita prosa de má qualidade, as crianças aprendem a fazer ‘media’ construindo pilhas de (pelo menos no princípio) produtos mediáticos de má qualidade» (Free Culture, Penguin Press, 2004, disponível livremente em http://ebooks.helptools.net/lessig/free_culture/). «Um número crescente de académicos e activistas vê esta forma de literacia como crucial para a cultura da próxima geração», escrevia Lessig nesse longínquo ano de 2004, profético mas ainda assim distante do que viria a acontecer: no ano seguinte, o serviço YouTube (www.youtube.com) veio revolucionar a distribuição de vídeo e nunca mais o mundo do audiovisual será como antes. A geração YouTube substituiu a geração MTV, os adolescentes deixam de «ver» televisão e passam a «ser» televisão: com equipamentos de baixo custo, gravam as suas versões dos clips modernos e antigos e distribuem-nos através da Internet para consumo de quem quiser ver (alguns com audiências na casa das dezenas de milhões). Abandonada a televisão (e de passagem os meios «clássicos»), relacionam-se com o mundo, na vertente informativa, formativa e de lazer, através da Internet (comunicação de todo o alcance) e dos telemóveis (comunicação de espectro reduzido). No mundo pós-Galáxia Gutenberg, a vida é complicada sobretudo para os educadores. «Embora quem escreve perceba o quão difícil é escrever - a dificuldade de dar sequência à história, de manter a atenção do leitor, de trabalhar a linguagem para a tornar compreensível -, poucos de nós fazemos ideia da dificuldade de produzir ‘media’. Ou melhor, poucos temos ideia de como funcionam os ‘media’, como mantêm a audiência através da narrativa, como espoletam as emoções ou constroem o ‘suspense’», recorda Lessig. Como pode um professor captar a atenção dos alunos se estes sabem manifestamente mais sobre o que precisam - destacarem-se na sua comunidade através do brilho pessoal nos ringues actuais, como o YouTube e o Fotolog e a Web em geral - do que sabe o suposto mestre? Como pode um pai nascido e crescido num mundo «read only» ensinar comportamentos e técnicas a um filho que cresce num mundo «read and write»? O desafio, porém, é maior do que uma simples disposição do testamento cultural comum. Além dos resultados de um novo «generation gap» do qual não tomamos consciência, porque a mensagem do individualismo vitorioso se sobrepõe a tudo, a mudança para o pós-Gutenberg contribui para esticar o elástico social e deixar culturalmente isolados, ou no pelotão da retaguarda, os actuais letrados que recusem ou não queiram adaptar-se à comunicação «read and write». O fim da Galáxia Gutenberg chegou sem aviso e traduz uma ruptura menos geracional e mais epistemológica que está a alastrar pelo universo mediático mais depressa do que disso se toma consciência. O que não impede a reacção económica, uma vez que os realinhamentos dos grupos de «media» reflectem já a primazia do CGU, conteúdo gerado pelo utilizador (incorporado no conglomerado de Rupert Murdoch), e da gratuitidade (a Apple a estabelecer-se no antigo negócio da música). (Consulte pauloquerido.net/cibercultura/pos_gutenberg para «follow-up» e lista de fontes e documentação deste artigo) Texto de Paulo Querido [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |