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| Subject: O fundamentalista português | |
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Author: João Carvalho |
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Date Posted: 11/07/06 10:54:50 O fundamentalista português é um intelectual profético, que está acima dos simples mortais, porque é dono da verdade suprema. Goza da liberdade de acesso à comunicação social, para impor e chamar a atenção para a obscuridade e malefício das ideias e acções alheias, dando à pátria o contributo genuíno, iluminado e único do seu génio redentor. Os outros, a ralé que não segue os ditames dos seus ideais de "bem público", são maléficos, conspirativos, perigosos, alvos a abater... Só ele vê, sabe e sente o que é ou não é bom para a nação, o que são usos e abusos da liberdade. Por exemplo, eu fumo, logo o meu direito de fumar é superior ao dos incomodadiços que ousam pretender igualdades. Esses são ditadores! Eu sou democrata! O fundamentalista português é uma mistura intelectualizada de cabo alemão, D. Quixote e Bandarra. Para ele, o porto de Lisboa é o novo herético a combater, o inimigo público número um da cidade. O Pozor (Plano de Ordenamento da Zona Ribeirinha de Lisboa), que, entre outros malefícios, fez as docas, embelezou a frente ribeirinha e permitiu de facto aos lisboetas conviver com o seu rio, era um demónio sob a forma de gigantesco moinho de vento de betão, derrotado a golpes da sua espada, à frente de um exército cívico de lisboetas. Mas alerta, lisboetas, que novos monstros existem no porto de Lisboa, desta feita sob a forma de contentores! São maléficos, são feios e ocupam espaços. Espaços que fazem falta a mais casinos, mais boîtes, mais "comes e bebes". É preciso expandir o Cais do Sodré a todo o território ribeirinho, viver o lazer e a folia! É necessário transformar o país em serviçal da Europa! Morra a economia, morra! Só assim aproveitaremos o rio, recapturado dos poderes ocultos do desenvolvimento económico e social da cidade e do país. Ponham os olhos em Madrid, que não tem porto de mar (apenas um porto seco), e não em Hamburgo, Antuérpia, Roterdão ou Barcelona, que são cidades bárbaras que acarinham, protegem e desenvolvem os seus portos e esses demónios vermelhos chamados contentores! De caminho, o fundamentalista português aproveita para zurzir em tudo e todos, exorcizando outros fantasmas, apelando à sua jihad contra outras guerras surdas em curso, medidas congeminadas ao mais alto nível do poder. O fundamentalista português está contra tudo e contra todos: ministros, presidente, autarcas, gestores... Em defesa da sua Dulcineia, pois claro!... E de um ego do tamanho do mundo! Eu, que pecador me confesso, leigo e simples alfacinha de gema, pretendo, todas as manhãs, usufruir do rio, continuar a ver entrar e sair os navios, a ver convivência salutar entre actividades lúdicas e económicas, isto é, um rio vivo e actuante, casado em plenitude com a cidade. Recuso-me a destruir o nosso rio em nome de uma desconstrução arrogante, prepotente e ignorante. É preciso recordar que Lisboa-cidade nasceu com e do seu porto. Lisboa-cidade ganhou grandeza, desenvolveu-se e criou riqueza com o porto. E é porque defendo Lisboa e a melhoria das condições de vida dos que aqui vivem e trabalham que reclamo mais porto para haver mais cidade. [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |