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| Subject: Como cada olho vê sua coisa...(II) | |
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Author: Robert Weil |
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Date Posted: 13/07/06 22:24:23 In reply to: AAD 's message, "Olho na China..." on 6/07/06 13:36:22 (continuação) Mas mesmo com tais êxitos, há muitas contradições nas práticas de Nanjiecun, pois retira do investimento estrangeiro muito do seu financiamento, e utiliza camponeses das áreas circunvizinhas — alojados em dormitórios decentes, mas decididamente menos confortáveis — como a força de trabalho principal nas suas "empresas da cidade", as quais estão plenamente integradas na nova economia capitalista. Recentemente, segundo activistas em Zhengzhou, incluindo dois que nos acompanharam numa visita à aldeia, Nanjiecun enfrentou sérias dificuldades financeiras, devido em grande parte à super-expansão para áreas de expansão novas e não familiares. Mas apesar de tais limitações — inevitáveis numa situação em que está cercada por um mar de capitalismo e deve competir na economia de mercado a fim de sobreviver — Nanjiecun serve como um ponto focal para aqueles que ainda acreditam que outro rumo é possível para a China rural. Chegam delegações diariamente — por vezes autocarros cheios de camponeses ou operários — de toda a parte do país para estudar como eles continuaram a praticar tanto a produção como a distribuição colectivizada. Também receberam a benção, e portanto a protecção, das autoridades provinciais de Henan. A carta aberta de 2004 dos veteranos de esquerda do partido a Hu Jintao apontava para Nanjiecun como um modelo do que ainda é necessário hoje nas áreas rurais. Mas mesmo onde a herança da era Mao não é tão proeminente, suas experiências e conceitos permanecem como o pano de fundo contra o qual as condições do presente estão constantemente a ser comparadas e analisadas. Um grande desenvolvimento aparente no verão de 2004 foi um novo movimento rumo à formação de cooperativas agrícolas, num esforço para melhorar o isolamento e insegurança das unidades agrícolas de responsabilidade familiar em face do mercado global. Estas cooperativas são destinadas primariamente a alcançar algumas economias de escala no mercado — através da compra colectiva de fertilizantes, por exemplo, e maior alavancagem na negociação de preços para suas produções — bem como a oferta de apoio financeiro e segurança aos seus membros. Tais esforços são um movimento significativo de afastamento das políticas individualistas do "nade ou afogue-se" do período da reforma, mesmo que não possam resolver todos os horrendos aspectos da situação enfrentada pelo campesinato como um todo. Embora não seja um retorno às comunas, e represente no máximo uma espécie de semi-recolectivização, elas continuam a inspirar-se não só nas experiências de movimentos cooperativos primitivos anteriores à revolução como também em conceitos da era Mao, nos quais os membros costumam estar bem versados. Não é inabitual, portanto, encontrá-los como responsáveis de uma cooperativa, como aquela que visitámos próximo de Siping, a noroeste da província Jilin, que apresentou uma análise muito pormenorizada das classes rurais e urbanas e sua situação hoje, ou o membro jovem da mesma que apresentou uma longa e profunda discussão do país de um ponto de vista socialista, não só internamente como na sua relação com o resto do mundo. As classes trabalhadoras chinesas não só têm coisas a ensinar aos intelectuais urbanos acerca do mundo real do trabalho e da exploração, pois também têm mais experiência na implementação do socialismo na prática. E em muitos exemplos elas estão mais plenamente desenvolvidas no seu entendimento e aplicação das bases do marxismo-leninismo-pensamento de Mao Zedong do que alguns dos jovens mais instruídos de esquerda. Ao mesmo tempo, a rápida polarização da sociedade está a mover muitos para dentro da nova classe média, pouco importando a sua ocupação ou posição específica, em condições parecem mais próximas daquelas enfrentadas pelos operários e camponeses, o que leva a um crescimento da base para a unidade entre eles, e ajuda a criar uma base de massa para o renascimento da esquerda. O sistema capitalista está a devorar-se a si próprio e a gerar rapidamente grupos cada vez mais vastos de alienados. Hoje, até muitos dos quadros do Partido Comunista nas antigas empresas estatais acabaram por ser chutados depois de as terem ajudado a vendê-las a investidores privados. Eles não são mantidos pelos novos proprietários capitalistas, uma condição que um trabalhador descreveu como "queimar a ponte que você acabou de cruzar". Em consequência, muitos deles agora também estão desempregados e entendem melhor o que é realmente a "marquetização" — "isso elevou os seus níveis de consciência". Tais entendimentos novos resultantes das mudanças de condição nas suas próprias vidas são comuns. Ouvimos mais de uma estória daqueles que inicialmente haviam abraçado as reformas dengistas — tais como uma académica progressista com quem conversámos em Beijing — que agora estão a mover-se outra vez em direcção a Mao e mesmo a reexaminar a própria Revolução Cultural. Em alguns exemplos, isto é um resultado directo do seu "aprendizado a partir das massas". Tal é o caso de um proeminente mas anteriormente bastante conservador estudioso das áreas rurais, cuja "conversão" aconteceu porque, quando visitava os camponeses, nunca ouvia uma palavra de críticas ao Mao, mas muitas a Deng, forçando-o a reexaminar suas próprias atitudes em relação ao passado. Mas tais reavaliações têm raízes muito mais profundas do que apenas experiências pessoais. Para muitos, incluindo a elite intelectual, as várias tendências ideológicas que floresceram desde o princípio da era da reforma — desde as lógicas da marquetização e privatização com características especiais chinesas propostas pelos propagandistas do estado e do partido até conceitos liberais ocidentais encontrados principalmente em círculos académicos e ONGs — estão a demonstrar-se inadequadas para explicar o que está a acontecer na China de hoje. Como colocaram em conversas separadas tanto um antigo Guarda Vermelho como um jovem activista intelectual, tendo "tentado tudo", aqueles que inicialmente haviam favorecido as reformas políticas, mas que estão agora às apalpadelas para entender o que está a acontecer, "têm de retornar à luta das duas linhas e à Revolução Cultural para tratar do presente", porque eles tentaram outras abordagens e estas não proporcionam uma explicação. Enquanto há apenas uns poucos anos os problemas enfrentados pela sociedade chinesa pareciam ser específicos e, portanto, ainda passíveis de serem facilmente "reparados" — através, por exemplo, de uma campanha "anti-corrupção" — hoje há um sentimento crescente de que eles são sistémicos e intratáveis, exigindo uma transformação muito mais fundamental que o capitalismo e o mercado global não tem capacidade de executar, e que o estado e o partido, tal como actualmente constituídos, não serão capazes de resolver. Em resultado, a crítica do caminho capitalista que Mao propôs durante a Revolução Cultural parece outra vez cada vez mais relevante nos dias de hoje, pois estas ideias, avançadas nos últimos anos da sua vida, continuam a proporcionar a espécie de análise profunda do actual sistema que conduz às raízes das suas contradições crescentes, e apontam para soluções mais profundas do que simples tentativas de melhoria. Muitos tabús anteriores entre os intelectuais começam portanto a cair. Mesmo a Revolução Cultural, ainda um anátema para a maior dos académicos e outros da elite — dizem-nos que qualquer sugestão de uma atitude positiva para com ela poderia conduzir ao isolamento dos seus pares e à ruína de uma carreira — está outra vez a tornar-se um tópico de discussão e reexame. Isto é especialmente verdadeiro entre jovens de esquerda que estão a fazer a sua própria investigação histórica, a escavar materiais há muito esquecidos, a efectuar entrevistas com os que estiveram activos durante aquele período, apresentando suas descobertas na web, e a desafiar de outras formas a linha oficial do partido acerca dos acontecimentos daquela era. Há outros sinais altamente significativos desta crescente revivificação da esquerda e dos seus laços em expansão com a luta da classe trabalhadora. Em 1999 visitámos, com estudantes da Universidade Qinghua em Beijing — muitas mencionada como o MIT da China — que faziam parte de um pequeno grupo de estudos marxistas, uns poucos que haviam brotado recentemente, especialmente nas universidades mais de elite. Observei naquele tempo que para serem eficazes eles deveriam descobrir um caminho para saírem dos seus campos e ligaram-se às classes trabalhadoras, algo que movimento de 1989 dos estudantes de Tiananmen deixou de fazer. Naquela luta, apesar de muitos trabalhadores em Beijing, pelo menos, terem aderido posteriormente — e por sua vez sofrerem o impacto da violência assassina e da repressão que lhe pôs fim — o fosso entre estudantes e classes trabalhadoras não fora preenchido no fundamental. Em Changchun, no nordeste, por exemplo, onde uma versão mais pequena do mesmo movimento teve lugar, trabalhadores na grande fábrica First Auto recusaram-se a juntar-se aos estudantes que desfilavam fora das universidades — uma experiência amarga que deixou estes últimos expostos a repressão muito dura e levou-os a reavaliar o seu próprio isolamento das classes trabalhadoras. No fim, como tem acontecido frequentemente na história chinesa, foi em grande parte o exército camponês das províncias remotas que foi trazido para esmagar o movimento em Tiananmen — depois de os regimentos estacionados próximos de Beijing terem resistido a fazê-lo. As lições daquele tempo não foram perdidas pela actual geração de jovens estudantes de esquerda, e mudança no verão de 2004 não podia ter sido mais dramática. Hoje, activistas, estudantes activistas em números significativos estão a deixar os campus das universidades para contactarem as classes trabalhadores, estudarem suas condições, proporcionar-lhes apoio legal e material, e trazerem relatos do que está a acontecer nas fábricas e nas unidades agrícolas de volta às suas escolas. Um Guarda Vermelho veterano da Revolução Cultural que ainda é um organizador chave da esquerda em Zhengzhou explicou como houve ali uma grande mudança no relacionamento estudantes-trabalhadores. Já no princípio de 2000, estudantes do grupo de estudos marxistas da Univesidade Beijing, a principal instituição de ensino superior do país, vieram visitar fábricas naquela cidade. Desde 2001 até agora, grupos de estudantes da Universidade Qighua vieram todos os anos. Em 2004, até 80 estudantes vieram ainda de outros grandes campus de Beijing a Zhengzhou. As autoridades nacional estão receosas destes contactos em crescimento e tentam desencorajá-los. Em contraste com as viagens gratuitas em comboio e outros estímulos oferecidos a estudantes que queriam viajar pelo país durante a Revolução Cultural, o governo de hoje tenta travar este fluxo, recusando mesmo vender bilhete a delegações de estudantes, ou negando-lhe o direito de sair de Zhengzhou — mas eles ainda vêm. Eles vão às fábricas, e alguns viveram mesmo nelas durante as primeiras etapas da luta naquela cidade, para tentar ajudar a travar o encerramento das mesmas. Depois de este movimento ter começado em Zhengzhou, ele espalhou-se para o nordeste, bem como para outras partes do país. Também se estendeu a áreas rurais, onde estudantes vão às aldeias para efectuarem actividades semelhantes, trazendo materiais, estabelecendo contactos, proporcionando apoio legal, e geralmente rompendo o isolamento que sentem muitos activistas camponeses. Hoje, na Universidade Beijing e em muitas outras instituições de ensino superior, uma organização chamada os Filhos dos Camponeses — a qual, apesar do seu nome, inclui também muitas "filhas" — foi formada especificamente para esta finalidade. Um activista de esquerda com quem nos encontrámos em 1999, que naquele tempo parecia virtualmente solitário a investigar directamente as condições da classe trabalhadora e a encorajar outros a fazerem o mesmo, explicou em 2004 os estudantes já pareciam altamente motivados, não precisando mais da liderança daqueles como ele. Agora, são eles que estão a tomar a iniciativa. Este movimento é conduzido e facilitado pelas mudanças na composição e condições do próprio corpo de estudantes universitários. Com a triplicação das matrículas em faculdades desde 1999, números maiores de estudantes são retirados das famílias da classe trabalhadora e muitos deles enfrentam crescentes dificuldades para financiar sua educação e encontrar trabalho após a graduação. O resultado é uma base social em expansão para empatia e unidade entre muitos estudantes universitários e os trabalhadores e camponeses. As universidades chinesas hoje são menos território reservado dos privilegiados e têm um carácter mais de massa do que nos primeiros anos da reforma, quando, em reacção à Revolução Cultural, Deng Xiaoping enfatizou o "perito" ao invés do "vermelho" e forçou ao retorno de exigências de entrada mais exclusivas. Em consequência, estudantes de esquerda estão agora a preencher o fosso entre as elites intelectuais e aqueles que estão a lutar nas fábricas e nos campos — que hoje mais habitualmente seus próprios parentes, ou pelo menos membros das mesmas classes das quais eles provieram. Em alguns aspectos, portanto, a cena actual na China lembra nada menos que os dias primitivos da Revolução Russa, quando Lenin aconselhava estudantes marxistas a irem às fábricas dos distritos para ligá-los aos trabalhadores. A diferença crítica agora, naturalmente, é não só que mkuitos dos estudantes vêm de famílias operárias e camponesas mas que jovens chineses de esquerda, mesmo quando tacteiam o modo de estabelecer um novo relacionamento com as classes trabalhadoras, têm por trás cinquenta anos de experiência revolucionária socialista sob a liderança de Mao sobre a qual construir. Os conceitos, políticas e relações daquela era não podem — ou não deveriam — ser aplicados sem alterações à situação muito diferente de hoje. Mas eles permanecem um vasto reservatório de ideias e práticas revolucionárias que a esquerda pode aproveitar no confronto das condições das classes trabalhadoras em face das reformas capitalistas no actual cenário de maquetização global. Longe de serem novas, as ideias de esquerda já estão profundamente embebidas entre os operários e os camponeses. No entanto, seria um sério erro exagerar estas tendências. A esquerda chinesa como força reconhecível é ainda pequena, marginalizada e dividida — como as próprias classes trabalhadoras — em muitos agrupamentos e facções. Tal como os de esquerda em todo o mundo, eles têm de enfrentar a desintegração do mundo que conheceram e estão a tentar descobrir novos caminhos para avançar sem qualquer conjunto único unificador de conceitos para se organizarem em torno. Em grande medida, são os próprios operários e camponeses que estão em destaque na China de hoje, efectuando por vezes enormes lutas. Embora estas muitas vezes sejam conduzidas por gente de esquerda, até agora há pouco, se algum, movimento organizado da esquerda como um todo. Novas ideologias competidoras — incluindo a liberal reformista e conceitos sociais democratas — também representam um desafio para os de esquerda. Num desenvolvimento que reflecte a situação nos Estados Unidos, mesmo o próprio termo "classe" é menos usado hoje, e ao invés há agora conversas de "grupos sociais fracos" no mercado, enquanto o próprio conceito de exploração é feito menos explícito. Estas tendências são reforçadas pelo estilo de vida de muitos profissionais urbanos, quaisquer que sejam suas políticas. Alguns intelectuais, incluindo aqueles que se consideram de esquerda, estão agora a ganhar bom dinheiro nas cidades e estão em grande parte isolados de quaisquer ligações práticas com as classes trabalhadoras, cujas condições podem parecer cada vez mais remotas comparadas com a sua própria experiência. Para aqueles que tentam tomar posições públicas ou traduzir suas ideias em acções, a supressão é frequente, embora não seja necessariamente focada sobre a direita ou a esquerda. Ao invés, se o governo toma alguma medida é mais uma questão de quão distante está do quadro estrutural aceite. Mesmo um organizador migrante que é favorável às reformas e advoga a privatização da terra a fim de tornar os camponeses "cidadãos independentes" foi detido por tentar efectuar uma reunião em Beijing para promover "direitos humanos". Uma linha que não pode ser cruzada são tentativas abertamente organizadas de por fim à regra de um só partido, e qualquer coisa que parece minar o domínio do estado sobre todas as áreas de actividade pública pode rapidamente levar a perturbações, sem importar o seu conteúdo político específico. A esquerda, entretanto, é vista como uma ameaça especial pelas autoridades, uma vez que tem o potencial para dar forma mais organizada à luta em rápida expansão da classe trabalhadora. Típico a este respeito é o encerramento do sítio web China Workers e de listas de discussão. Ao contrário de muitos outros fóruns, este foi "o primeiro sítio web na China que permitia a trabalhadores e agricultores conversarem acerca das suas lutas para defender o socialismo na China de hoje". Ali, intelectuais, incluindo aqueles dentro das próprias classes trabalhadoras, podiam "participar em discussões com trabalhadores acerca de questões de trabalhadores" (Stephen Philion, “An Interview with Yan Yuanzhang,” MRZine, http://mrzine.monthlyreview.org/philion130306.html). Esta ligação representa uma ameaça particular para os líderes do partido e do estado porque, como explicou um dos membros do colectivo editorial do sítio web em Beijing, "o governo não está a fazer socialismo". É sobre esta base que "os trabalhadores distinguem o Partido Comunista do período maoista e o partido de hoje". Do ponto de vista das classes trabalhadoras, é crítico terem as suas vozes ouvidas publicamente. "Isto é a espécie de coisa que uma democracia socialista desejaria, mas os trabalhadores têm a espécie de democracia que o capitalismo pode proporcionar". Mas o sítio web foi encerrado, através da imposição de uma exorbitante taxa de registo que membros das classes trabalhadoras não podiam permitir-se. Entre os operários e camponeses, as fileiras mais vastas de intelectuais, e dentro da nova classe média também, há uma ampla exigência de maior transparência tanto no sistema económico como político e pelo direito a ter uma acção mais participatória nas decisões que os afectam. Apesar de o estilo eleitoral americano de "democracia" não ter apelo generalizado, muitas pessoas estão a falar acerca de direitos democráticos bastante abertamente. Para algumas delas a liberdade de discurso é o objectivo principal, para outros são partidos. Muitos trabalhadores agora falam de como o "sistema de um partido não funciona". Fóruns estão a ter lugar, mesmo dentro do partido, à procura de caminhos para ter mais espaço para debate aberto, e as ONGs que brotam da "sociedade civil" cobrem um vasto conjunto de questões, como os direitos das mulheres e o ambiente. Os sentimentos pró-democracia estão generalizados, portanto, e o governo sabe que não pode apenas reprimi-los. Ele está a tentar, ao invés, atender este desafio pela introdução gradual de mudanças. Mas as políticas oficiais da reforma nesta área — tais como eleições de governos de aldeia — apesar de uma democratização superficial, são muitas vezes encaradas com cinismo pelas classes trabalhadoras, uma vez que elas são amplamente utilizadas para ratificar nomeações do partido de cima para baixo. Aqui, como em muitas áreas, as memórias da era socialista, e especialmente a participação de trabalhadores e camponeses na direcção das suas fábricas e unidades agrícolas, e mesmo universidades e governos locais, durante a Revolução Cultural, ainda continua a servir como uma referência e ergue-se em agudo contraste com o despojamento hoje de tais direitos políticos. "Reformas democráticas são implementadas até agora pelo governo invertendo a revolução de Mao com a cabeça para baixo, e invertendo as vidas dos trabalhadores de pernas para o ar — elas são uma forma de retaliação e represália sobre a classe trabalhadora". A chave para uma abordagem aceitável para a reforma política será, portanto, descobrir um meio por juntos outras vez os conceitos de esquerda de controle operário e camponês com a democracia participatória que agora é parte da agenda global progressista. Esta investigação já começou. Na carta de 2004 a Hu Jintao, da esquerda dos veteranos da revolução, uma das exigências de princípio era revigorar as lutas de massas a partir de baixo como meio de controlar o abuso de poder e dar às próprias classes trabalhadoras um papel directo nas funções do partido e do estado, como parte de um sistema democrático. As barreiras para construir um movimento unido e executar tais mudanças revolucionárias são, entretanto, tão assombrosos na China como em qualquer outra parte nos dias de hoje. Apesar da sua herança do passado, trabalhadores e camponeses estão receosos de que se um novo nível de luta pelo socialismo não for alcançado em breve, a memória da era da revolução morrerá, e aqueles na geração mais jovem não conhecerão e buscarão nada senão o desejo de ficar rico e juntar-se à cultura do consumidor. Neste caso, eles terão de começar tudo outra vez, como se fosse do zero, se e quando eles finalmente enfrentarem a necessidade por mudanças fundamentais. Mas os chineses têm a vantagem de terem estado ali, de terem feito isso antes. Tão distante como a perspectiva possa por vezes parecer, a China ainda tem a possibilidade de um caminho rápido para a revolução socialista renovada, um desenvolvimento que mais uma vez sacudiria o mundo. Isto é, naturalmente, apenas um entre os muitos cenários possíveis para o que acontecerá na China no futuro próximo. A complexidade e polarização da sua estrutura de classe estão a empurrar a sociedade chinesa em direcções contraditórias, com potencial de uma vasto leque de desenlaces. Isto é evidente em desenvolvimentos recentes, tanto nas condições das próprias classes trabalhadoras e na resposta do partido e do estado aos novos desafios. Numa tentativa de deter novas perturbações nas regiões rurais, os dois principais líderes, Hu Jintao e Wen Jiabao, introduziram uma série de mudanças na política rural que tiveram efeitos bastante dramáticos. Isto incluiu a eliminação do imposto agrícola sobre os camponeses, bem como a maior parte das taxas locais — muitas delas ilegais — que eram uma importante fonte de protestos. Também há planos para investimento acrescido nas áreas rurais, incluindo em fábricas nas cidades mais pequenas e nas aldeias, e especialmente na educação e em cuidados de saúde, e na restauração ambiental. Juntamente com preços mais favoráveis para bens agrícolas, estes ajustamentos aliviaram significativamente a pressão económica sobre muitas famílias camponesas. Há mesmo uma conversa oficial de Novas Aldeias Socialistas, embora o significado dessa expressão até agora não esteja claro, e pode simplesmente ser uma tentativa de dar uma etiqueta com tonalidade de esquerda às políticas rurais já introduzidas. Mesmo a profundidade das reformas dentro das reformas que foram anunciadas está para ser vista, especialmente considerando o registo da não implementação ao nível local — o que um factor endémico na governação chinesa — e a implacável liquidação de terras de aldeia para urbanizações por responsáveis frequentemente corruptos, as quais continuam sem pausa em muitas áreas. Um impacto já é muito claro, contudo. Numa gritante inversão da situação de apenas três anos atrás, as zonas de exportação das regiões costeiras estão a experimentar uma crescente escassez de trabalhadores, pois os migrantes estão a retornar em grande número às suas aldeias, ou pelo menos a cidades do interior mais próximas dos seus lares, em parte para aproveitarem da melhoria de condições ali, assim como por uma crescente rejeição da dura exploração das fábricas costeiras. Esta migração inversa é um reflexo da consciência elevada, da resistência e da auto-organização dos migrantes, muitos dos quais são agora veteranos temperados, e que não mais aceitarão as condições que os atrairam nos seus anos de juventude. Mesmo o fluxo de jovens trabalhadores migrantes, e especialmente mulheres camponesas pobres, que eram preferidas pela fábricas e enfrentavam as mais extremas condições de exploração, está principiando a secar. Enquanto isto tem tido o efeito positivo de forçar as indústrias exportadoras a começar a elevar salários e benefícios num esforço para continuar a atrair uma força de trabalho suficientemente grande, também já há sinais de que os empregadores estão a correr para a base, deslocando suas fábricas para países de custo ainda mais baixo como o Vietnam, a Índia e Bangladesh. Não há solução simples para o modo de alterar o actual sistema, portanto, toda acção desencadeia novas contradições, dada a natureza do mercado capitalista global ao qual a China está cada vez mais ligada. Embora o mercado interno esteja a crescer, qualquer queda séria na competitividade global e a resultante redução do crescimento económico — o grande medo que assombra a liderança chinesa — não só minaria rapidamente a capacidade de executar as revisões políticas que Hu e Wen estão a tentar, incluindo a nova ênfase na "equidade social", como também ameaçaria provocar a desordem numa escala maciça. A incapacidade da marquetização capitalista para resolver tais contradições continua a dar força à nova esquerda. Um exemplo gritante desta influência crescente foi evidente em Março de 2006, Pela primeira vez em talvez uma década, o Congresso Nacional do Povo, dirigido pelo Partido Comunista, a legislatura foi consumida com um debate ideológico sobre socialismo e capitalismo que muitos assumiram ter sido enterrado há muito pelo longo período de crescimento económico rápido da China. A controvérsia forçou o governo a por de lado um projecto de lei para proteger os direitos de propriedade que fora esperado ser aprovado numa passagem pro forma e destacou a influência renascida de um pequeno mas sonoro grupo de académicos e conselheiros políticos de tendência socialista. Estes pensadores de esquerda do velho estilo utilizaram o crescente fosso de rendimentos na China e a inquietação social acrescida para levantar dúvidas acerca do que vêm como a busca precipitada da riqueza privada e do crescimento económico orientado pelo mercado... Aqueles que afastaram este ataque como uma reminiscência de uma era anterior subestimaram o apelo contínuo das ideias socialistas num país onde gritantes disparidades entre ricos e pobres, corrupção exuberante, abusos trabalhistas e arrebatamento de terra proporcionam recordações diárias de quão longe a China desviou-se da sua ideologia oficial. (New York Times, March 12, 2006) Embora a lei da propriedade provavelmente venha a passar de alguma forma no longo prazo, proposta para "permitir um papel expandido para o mercado na educação e nos cuidados de saúde", e mesmo apelos mais radicais para a privatização da terra, foram postos de lado, pelo menos por enquanto. Mesmo a liderança de topo sentiu-se obrigada a voltar-se, pelo menos superficialmente, mais uma vez na direcção do socialismo — o qual permanece a base teórica do governo e do Partido Comunista, apesar das suas práticas capitalistas. Desde a sua chegada ao poder em 2002, o sr. Hu também tentou estabelecer suas credenciais de esquerda, enaltecendo o marxismo, louvando Mao e financiando investigação para tomar frequentemente ignorada ideologia socialista oficial do país mais relevante para a era actual. (New York Times, March 12, 2006) Os métodos da era Mao foram mesmo ressuscitados num esforço para restaurar a evanescente legitimidade do partido, o qual é agora amplamente encarado como profundamente corrupto. Tal como uma companhia gigante preocupada com a confusão organizacional e uma imagem pública a afundar-se, o Partido Comunista Chinês está a tentar refazer-se a si próprio como uma máquina eficiente e moderna. Mas para fazer isso, ele escolheu uma das suas mais antigas ferramentas políticas — uma campanha ideológica estilo maoista, completada com os necessários grupos de estudo. Durante 14 meses, aos 70 milhões de membros da base foi ordenado que lessem discursos de Mao e Deng Xiaoping, bem como enfastiante tratado da 17 mil palavras que é a constituição do partido. Reuniões obrigatórias incluem sessões onde os quadros devem apresentar auto-críticas e também criticar toda a gente. (New York Times, March 9, 2006). Encarada seriamente por alguns como um esforço para a reforma, e recebida com considerável cinismo por outros, a campanha pode ser menos importante pelo seu impacto directo do que pela sua admissão de que o partido extraviou-se demasiado longe do seu papel de "servir o povo", como Mao apelava, e ainda mais dos seus objectivos revolucionários originais. Poucos, se é que alguém, esperam que Hu e Wen conduzam a um renascimento da revolução socialista, ou mesmo que façam desvios radicais do caminho capitalista em que o partido e o estado tem estado comprometidos durante trinta anos, e com as forças económicas com as quais estão tão firmemente atados. Mas a promoção oficial dos conceitos socialista e o estudo de Mao podem apenas abrir mais espaço para um renascimento da esquerda para cuidar do abcesso da crise. Revertendo uma certa tendência para a insularidade e o isolamento dos fóruns globais recentes, há também conhecimento crescente dos mesmos e laços mais estreitos com as lutas das forças de esquerda por todo mundo — apesar das tentativas do governo para limitar tais ligações — através das novas redes de comunicação global e de organização. A pioria das condições das classes trabalhadoras estão a empurrá-las rapidamente numa direcção mais radical e militante. Dentro das fileiras não só dos trabalhadores e camponeses, mas entre muitos intelectuais e pelo menos uma parte da nova classe média, há um profundo e crescente entendimento de que o capitalismo global não tem resposta para as suas situações, e que o socialismo revolucionário que eles construíram sob Mao proporciona pelo menos o esboço de um outro caminho de avanço hoje em dia. Nas fábricas e nos campos, operários e camponeses na China não só resistem às novas formas de exploração capitalista como têm memórias de um outro mundo que eles já sabem ser possível. A partir das suas vidas durante a era socialista antes das reformas, eles estão conscientes de que alternativas viáveis existem para o enlouquecimento descontrolado do capitalismo global. Apesar desta herança, qualquer terno simplista ao passado não é nem possível nem desejável. Demasiado mudou, e demasiados génios foram deixados escapar da garrafa para simplesmente colocá-los de volta outra vez. Os fracassos e erros do passado, bem como os êxitos e vitórias, terão de ser reexaminados, e novos caminhos terão de ser descobertos para ultrapassar as limitações da primeira era do socialismo, na China como alhures. Nenhuma previsão fácil é possível quanto à direcção que tomará a luta no período que se avizinha. Mas quando se movem para a frente, as classes trabalhadoras chinesas podem também olhar para trás para descobrir o seu próprio caminho para uma nova sociedade socialista, um caminho que combine as suas lutas históricas e de actuais como os movimentos globais de hoje, e que produza uma transformação revolucionária mais uma vez. [*] Autor de Red Cat, White Cat: China and the Contradictions of “Market Socialism” (Monthly Review Press, 1996), e de artigos e documentos sobre condições económicas, políticas e do trabalho na China. O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/0606weil.htm Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ . 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| Subject | Author | Date |
| Como cada olho vê sua coisa...(I) | Robert Weil | 13/07/06 22:30:46 |