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Subject: Crowdsourcing: mão-de-obra sem rede


Author:
Paulo Querido
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Date Posted: 18/06/06 17:51:58
In reply to: Carlos Romero 's message, "Internet e tecnologia digital alimentam mundo "gratuito" de Agostinho da Silva" on 18/06/06 17:36:53

Há mais de uma década que o trabalho em rede produz bons resultados. Do nível da alta competência intelectual, capaz de produzir sistemas operativos, ao nível dos mais básicos ciclos de processador que se emprestam a projectos de investigação, do Linux ao Seti@home, nos últimos dez anos a Internet mudou substancialmente os mecanismos de produção. Mas, por vezes, é precisa uma palavra para iluminar as conexões entre técnicas aparentemente dispersas, fazendo com que o conceito ganhe sentido.

No caso, a palavra é «crowdsourcing». Foi inventada por dois jornalistas da «Wired», a revista americana que cobre a tecnologia e a sua cultura, para titular um artigo sobre a nova fonte de trabalho barato. «Deslocalizar o emprego para a Índia e a China é tão 2003», diz a entrada da peça «The rise of crowdsourcing» (em linha em http://www.wired.com/wired/archive/14.06/ crowds.html). «A nova fonte de trabalho barato: gente comum usando os seus recursos disponíveis (pessoais e informáticos) para criar conteúdo, resolver problemas, inclusive fazer investigação e desenvolvimento». Jeff Howe sabia que estava a lidar com uma palavra importante. Tanto que em Fevereiro, mais de três meses antes do artigo ser publicado, já a registava como endereço na Internet. Em www.crowdsourcing.com está a fazer o acompanhamento das reacções ao artigo, servindo também de portal de apontadores para as empresas e projectos especializados em tirar lucro da vasta quantidade de massa cinzenta tornada disponível graças à rede.

A palavra deriva do termo «outsourcing», que designa a compra de prestação de serviços no mercado fora da empresa. A (feliz) junção do palavra «crowd» (multidão em inglês) dá-lhe o tom: uma multidão de trabalhadores, de amadores a especialistas, antes inacessível por causa da geografia e que os mecanismos de pesquisa da rede podem, em segundos, materializar em torno de uma tarefa ou mobilizar para um projecto.


Embora só agora exista massa crítica para se aceitar a tendência (o termo teve imediatamente uma entrada na Wikipedia, ela própria, de resto, uma das aplicações emblemáticas do «crowdsourcing»), já tínhamos alguns exemplos de como a rede pode fornecer respostas novas para desafios nunca antes imaginados. Mas também respostas normais para questões regulares - só que a um preço muito menor.

O Google Anwsers (http://anwsers.google.com) é uma das primeiras plataformas criadas para o «crowdsourcing» - mesmo que nunca o termo lhe tenha sido aplicado. Libório Silva, responsável pela editora Centro Atlântico (www.centroatl.pt), está habituado a recorrer a esta fonte para «obter segundas opiniões, identificar novas fontes de informação e novos talentos». Os preços desta nova consultoria dependem «da complexidade das respostas e da sua urgência», sendo que quando oferece baixa remuneração «a tendência é responderem com um ‘copy-paste’ obtido algures na web», pelo que aconselha «um mínimo de 50 dólares».

Libório Silva chama a atenção para um dos problemas do «crowdsourcing»: «A explicação sobre a utilização da resposta a obter e a gestão da identificação de quem contrata o serviço devem ser sempre pensadas previamente, visto que as respostas ficarão disponíveis para o público em geral». Serviços pioneiros como o iStockPhoto (www.istockphoto.com), que revendem imagens e fotografias de amadores a preços insanamente baixos, também não podem garantir nenhuma exclusividade no acesso às imagens.

O «crowdsourcing» pode distinguir-se do «outsourcing» num factor: a relação entre «seekers» (quem precisa de resolver um assunto) e «solvers» (quem o pode resolver) não precisa de obedecer a nenhum dos cânones contratuais. Há exemplos, como o movimento pelos carros híbridos nos EUA, em que os «solvers» estão mais adiantados que o I&D das empresas, acabando por influenciar o rumo dos acontecimentos.

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