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Subject: O aprendiz de feiticeiro


Author:
Rui Ramos
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Date Posted: 17/05/06 12:26:19

Li o livro de Manuel Maria Carrilho. Li os comentários ao livro. Nem o livro nem os comentários me convenceram naquilo que mais interessa: explicar uma derrota política. Dizem os comentadores que Carrilho é arrogante, desagradável e incapaz de aceitar uma derrota. É Carrilho mesmo assim? Não interessa neste caso, porque os políticos de maior sucesso numa democracia não são sempre pessoas modestas, simpáticas e que gostam de perder. Pelo seu lado, o ex-candidato atribui-se qualidades tão irresistíveis - ideias suculentas, pureza de intenções - que só encontrou uma explicação para o desastre: o jogo sujo dos adversários, numa democracia dominada pelos media. Não discuto as virtudes do candidato, a malícia dos outros ou o domínio dos media. Admitamos que seja assim. A verdade é que os grandes políticos não vencem apenas quando enfrentam adversários justos e bem intencionados, com uma imprensa submissa e inocente.
O livro deixa antever outras explicações. O candidato infeliz apresenta-se como alguém que faz política, mas que simultaneamente se sente muito acima dela. Do partido em que está inscrito mantém uma higiénica distância. Não cultiva nenhuma identidade ideológica coerente: supostamente de esquerda, não se importa de definir a democracia como o regime da inveja contra os melhores. É cioso, em contrapartida, da sua identidade profissional: é o "professor catedrático", que nunca diz simplesmente que quer fazer parques de estacionamento, mas "assumir um novo paradigma da capitalidade".
Como é que se pode ser político assim? Ao contrário de Inglaterra, em que só entra no governo quem for deputado e em que para ser deputado é preciso disputar directamente uma eleição pessoal, em Portugal o patrocínio do primeiro-ministro é condição suficiente para o acesso ao governo, e pode-se ser eleito à boleia, graças ao sistema de eleição por lista. É possível andar pela política com nojo pelas "baixezas" da política, como independente e profissional de outro ofício, sem aturar correligionários no partido, eleitores na rua e adversários em confronto directo. Tudo depende da "protecção" que se tem na direcção dos partidos e nos media. A política enche-se assim de amadores ultrapromovidos, aprendizes de feiticeiro que estudaram a teoria dos feitiços, mas nunca experimentaram nenhum. E um dia, por qualquer razão, arriscam-se a uma guerra - por exemplo, uma eleição pessoal. E com indignação, encontram lama, cheiro da pólvora e outras coisas desagradáveis.
É essa a história de Carrilho. Durante a campanha eleitoral, como um bom amador, seguiu o manual de instruções: "Fiz algumas das coisas que, insistiam, um candidato autárquico tem que fazer, como por exemplo jogar futebol." Para seu espanto, descobriu que as "coisas" não funcionavam, e que os adversários não o queriam ajudar. Havia até, imagine-se, quem não fizesse jogo limpo. "O meu desespero era enorme", confessa (p. 152). Notou-se. E foi-lhe fatal, porque nada como a imagem de um político sem saber que fazer, a quem tudo corre mal, para atrair algozes e afastar eleitores. Quem poderá, com confiança, entregar-lhe um cargo em que, inevitavelmente, estará sujeito à pressão e à malícia do mundo? As eleições democráticas são os exames dos políticos. As perguntas devem ser difíceis.
A revelação mais espantosa do livro é esta: "Foi então que eu verdadeiramente descobri esse lado atroz, duríssimo, da política" (p. 153). Depois de cinco anos de governo e mais cinco de Parlamento, estava politicamente virgem. No fim de um dia de campanha, olha para o filho: "São assim as crianças quando o podem ser - simples e intensas. Gostava que a minha campanha tivesse sido assim, mas como consegui-lo quando se lida com gente que parece não ter um grama de ternura no coração?" (p. 132). É tocante, mas a política não pode nem deve ser um colo maternal.
Carrilho inquieta-se muito com a qualificação dos jornalistas. Mas o seu caso remete para outro problema: o da qualificação dos políticos. A política não existe porque somos maus e invejosos, mas porque não pensamos todos da mesma maneira. Mesmo que fôssemos todos bonzinhos, continuaríamos a jogar com dureza. A democracia portuguesa sofre de um sistema de protecção quase maternal que permite a demasiada gente fazer carreira política sem ser realmente testado. Uma classe política profissional e experimentada não significa necessariamente uma diminuição do poder dos cidadãos, mas o contrário: os bons políticos podem ser vistos como especialistas da comunicação, da organização e da mobilização, sem os quais as nossas ideias seriam menos claras, as nossas acções mais restritas e os nossos debates menos eficientes. Os amadores desesperados não são, em geral, bons políticos. E depois do fracasso raramente conseguem tirar as conclusões certas. Historiador

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