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Subject: Março, 9


Author:
DN
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Date Posted: 30/04/06 12:35:45



Março, 9



Cipriano Justo
Professor universitário

Com a tomada de posse de Cavaco Silva, o dia 9 de Março marcou formalmente o encerramento de um ciclo político em Portugal. Tal como o 25 de Novembro de 1975 representou o fim do que poderíamos designar de comuna portuguesa e o 19 de Julho de 1987 punha cobro aos últimos vestígios desse período e dava início à "normalização" da vida política, com o PSD a alcançar a maioria absoluta dos votos e o PCP a ter pela última vez uma votação na casa dos dois dígitos, também a eleição, pela primeira vez, de um Presidente da República representando a família política do centro-direita sinaliza simbolicamente o arrefecimento do 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais. Subjectivamente, os portugueses nunca sentiram que Cavaco Silva representasse o regresso ao fascismo ou sequer a uma direita musculada, e quanto ao 25 de Abril sempre, por obstinação dos partidos de esquerda em se preocuparem prioritariamente com o tratamento dos seus quintais, há muito que vinha sendo coberto com a patine das coisas que se querem museologizadas.

Nestes 30 anos de regime constitucional, tendo havido tempo para se experimentar quase todas as combinações eleitorais entre poder local, Assembleia e Presidência da República, nem por isso nos encontramos numa situação económica e social suficientemente confortável para seleccionarmos aquela que tenha produzido o efeito mais próximo das expectativas do voto dos eleitores - criar as condições para melhorar a vida, que é instrumentalmente para isso que afinal os portugueses vão às urnas. É verdade que ainda estão por demonstrar os resultados que a combinação de um Governo de maioria do Partido Socialista e de um Presidente da República politicamente situado à sua direita pode oferecer. Mas tudo indica, a avaliar pelo que já se conhece de José Sócrates e Cavaco Silva, que é mais aquilo que os une do que aquilo que os separa.

Se não ocorrer nenhum sobressalto político, vamos poder acompanhar o modo como a esquerda avaliou os resultados das legislativas de 2005 e as recentes eleições presidenciais, que lições retirou desses dois acontecimentos políticos e que medidas entretanto foram tomando para enfrentar o ciclo eleitoral que se inicia em Junho de 2009. Nomeadamente, se os portugueses, ao terem escolhido o Partido Socialista para governar com maioria absoluta, se contentam com uma política de alternância, mesmo revista e actualizada, ou se o resultado de 20 de Fevereiro de 2005 não foi além de um epifenómeno gerado pelo sentimento de que era necessário proceder-se a uma higienização da vida pública; se a derrota nas autárquicas e o descalabro do candidato oficial da direcção socialista às presidenciais são indicadores de que uma importante fracção da sua base social de apoio começa a distanciar-se das medidas que vêm sendo tomadas; se o estancamento do declínio eleitoral do PCP é mais conjuntural do que real; se os ganhos de influência política do BE se mantêm centrados em causas, dando maioritariamente expressão política aos problemas emergentes das gerações que despertam para a intervenção cívica.

O resultado eleitoral obtido por Manuel Alegre em 22 de Janeiro merece um comentário específico, uma vez que, dadas as condições em que ele se verificou, constituiu um fenómeno político que o tempo se encarregará de dizer se foi simultaneamente um fenómeno sociológico cujas consequências ainda estão por emergir no mapa político-partidário e nos resultados dos futuros actos eleitorais. Mesmo correndo o risco de estarmos a inferir de uma amostra auto-seleccionada para o universo de mais de um milhão de votos, arriscamo-nos a dizer que a estrutura sociodemográfica dos 3450 apoiantes de Manuel Alegre que voluntariamente se inscreveram no site da sua candidatura foi tendencialmente a mesma da sua base eleitoral de apoio. Analisando a composição daqueles apoiantes, em média tinha 43 anos, 50% eram técnicos e licenciados, chegando aos 80% se lhes juntarmos os estudantes, administrativos e quadros dirigentes, mais 25 pontos percentuais do que o valor médio nacional. Estaríamos, assim, perante uma base eleitoral de apoio constituída por uma classe média diferenciada, maioritariamente assalariada, que em 2006 escolheu a via da dissenção à esquerda convergindo no sentido de dar um sinal de oposição, em parte ao modo como os partidos trataram o dossier das presidenciais, mas sobretudo às medidas que o Governo tomou e que vieram travar as expectativas prometidas durante a campanha eleitoral. Significativamente, este eleitorado não foi atraído nem por Jerónimo de Sousa nem por Francisco Louçã, podendo isto querer significar que, se entretanto nada continuar a acontecer no PS, no PCP e no BE e se em 2009 o resultado das medidas de austeridade tomadas pelo Governo continuarem a ser sentidas como estigmatizantes por aquele milhão de eleitores, a direita poderá, enfim, concretizar a ambição de Sá Carneiro: uma maioria, um Governo, um Presidente.

Ou seja, se os níveis de corrupção e de fuga ao fisco não sofrerem alterações demonstráveis, se o sistema judicial não der mostras de maior equidade e transparência, se a administração pública continuar a ser tratada como uma espécie de inimigo interno do Estado, se o desemprego não desacelerar, se o poder de compra da maioria dos portugueses continuar a diminuir e se as desigualdades sociais alastrarem, de pouco terão servido a introdução do inglês no ensino básico, o choque tecnológico, o cartão único de identificação, a reorganização administrativa do território ou a diminuição do défice das contas públicas para 3% do PIB.

Em 2009, boa parte daquele milhão de portu- gueses ditará então em que prato da balança irá depositar o seu voto. Se for no prato da direita, talvez a esquerda aprenda finalmente a lição.

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