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Subject: Anatomia de uma crise financeira de alcance planetário


Author:
Michael R. Krätke
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Date Posted: 7/09/07 10:34:50

Anatomia de uma crise financeira de alcance planetário

Quatro semanas atrás o mundo ainda parecia estar em ordem: a economia mundial e os mercados financeiros estavam no apogeu. Agora temos um crack bursátil a prazo que desagua numa crise do mercado monetário: os bancos centrais não deixam de injectar capital nos mercados financeiros. Na Alemanha, o Banco Regional da Saxónia está em sérias dificuldades e teve de ser resgatado pelas caixas económicas e outros bancos regionais com uma dose para a sobrevivência de 17,3 milhões de euros. O estado da Saxónia garante esta soma extremamente incomum, que ultrapassa o seu orçamento anual.

A classe política exercita-se em esconjuros de boa saúde, mas todos os afectados sabem que o pior está para chegar. O mais tardar, quando explodirem outras bolhas especulativas. Por agora, a bela nova ordem dos mercados financeiros internacionais "liberalizados" vê-se submetida a uma dura prova. O dogma popular, segundo o qual os mercados financeiros – e a economia mundial – são tanto mais "eficientes" e "estáveis" quando mais desregulamentados e liberalizados estiverem, essa fé dos broncos, ficou em suspenso. Por toda a parte ouve-se o clamor pela imposição de regras e travões aos agentes dos mercados financeiros.

Mais de 5 milhões de casas à venda nos EUA

O que se passou? Nos EUA explodiu uma gigantesca bolha imobiliária. Juros baixos, preços imobiliários em aumento constante (até 20% ao ano nos melhores lugares), um mercado hipotecário em expansão hiperbólica, mantiveram a economia dos EUA a trote. O boom alimentava o consumo privado, o endividamento das famílias estado-unidenses subia desaforadamente até chegar, em média, a 120% do rendimento anual, constituído em três quartas partes por dívidas hipotecárias. Os bancos hipotecários e os fundos imobiliários ofereciam crédito barato às pessoas, inclusive àqueles que nunca teriam podido permitir-se possuir casa própria. A ruína previsível de inúmeros proprietários de casas não representava o menor problema, enquanto, é claro, se mantivesse o boom. Os bancos e as sociedades financeiras ganharam fabulosamente com isso, tal como a multidão de gestores imobiliários.

Há meses agravam-se os atrasos [nos pagamentos], e as vendas forçadas sobem astronomicamente: mais de 5 milhões de casas estão à venda nos EUA. Pela primeira vez em dez anos começam a baixar os preços e disparam os juros. A crise explodiu – como não podia deixar de ser – no segmento subprime do mercado, entre as famílias mais pobres com poucos rendimentos (e, em termos reais, descendentes). Mais de dois milhões de norte-americanos perderam as suas casas, há mais de 500 mil milhões de dólares acumulados em atrasos: um tsunami de hipotecas falidas arrasa o país.

Com a quebra espectacular, em Junho último, de dois hedge funs multimilionários pertencentes ao quinto maior banco estado-unidense de investimentos – Bear Stearns – perderam-se, de imediato, 1.600 milhões de dólares. Além disso, as acções do Bear Stearns despenharam-se, tal como as de muitos outros fundos de investimentos, bancos e seguradoras: mais de 200 mil milhões de dólares perderam-se da noite para a manhã. A Wall Street estremeceu, e o resto dos mercados de valores do mundo reagiu de imediato. Pois o colapso dos fundos hedge era um sinal de alarme para todos os iniciados. Os bolsistas reagiram com pânico mas logicamente: pois os créditos atrasados encontram-se por toda a parte, e são bombas relógio colocadas não só no sistema financeiro estado-unidense como no mundo todo. Porque a bolha imobiliária só podia crescer na medida em que os financeiros continuassem a acreditar na possibilidade de por à venda, a qualquer momento, até os piores e mais arriscados créditos hipotecários. Esses créditos, tal como todos os demais tipos de dívida, assim como os pagamentos futuros de juros e amortizações, transformaram-se em mercadorias comerciáveis. De modo que até os créditos frouxos e ainda cambaleantes serviam de base a uma vertiginosamente expandida super-estrutura de derivados creditícios em mãos de especuladores profissionais. Créditos hipotecários e de outros tipos foram empacotados em massa e utilizados como garantia para novos títulos: os bancos hipotecários vendiam esses títulos respaldados por hipotecas (mortgage backed securities) transferindo assim o seu risco creditício para outros, para bancos, fundos de investimentos e seguradoras. Estes não se preocupavam com a qualidade da dívida hipotecária original, porque também eles, por sua vez, pretendiam vender esses títulos.

Enquanto se mantém um boom imobiliário, esses títulos são investimentos monetários lucrativos, os hedge funds os disputam, a securitization de todo tipo de dívidas e a emissão desses títulos apoiados hipotecariamente converte-se num ramo em auge, ao qual se abalançam fundos especiais. O comércio em escala planetária com esses derivados dá-se à margem das bolsas, a concorrência entre os grandes hedge funds dispara os seus preços, de maneira que sobre a bolha imobiliária forma-se uma nuvem de bolhas ulteriores de derivados.

Mas o que acontece quando todos os créditos que se encontram na base falham em massa? Então torna-se imperiosamente claro para os afectados que estão a cavalgar sobre uma onda de valores fictícios gerada por eles próprios. Uma vez que as garantias não são de nada, desvanece-se o valor dos títulos garantidos, os bancos querem a devolução dos dinheiros emprestados a curto prazo, os hedge funds não podem continuar a vender os seus títulos e entram em bancarrota. Em consequência, também aqueles bancos, seguradoras e fundos de investimento que financiaram a especulação com esses derivados vêem-se em apertos muito sérios. Uma vez que esses derivados foram comercializados à escala planetária, vêem-se subitamente em dificuldades bancos que jamais financiaram uma hipoteca nos EUA. Mas participaram – como o IKB, como o Westdeutsche e o Banco Regional da Saxónia e muitos outros – em hedge funds, quando não criaram os próprios, que especulavam com tais derivados creditícios. Suas perdas repercutiram através das cotações dos mercados de valores. Por todo o mundo, os valores financeiros despenharam-se e, à espera de uma onda de quebras, os investidores fugiram em massa. Também os bancos que jogam na primeira divisão, e que nada têm a ver com a especulação imobiliária, vêem-se agora em apertos.

As economia exportadoras chinesa e alemã e o fim dos mercados estado-unidenses

Caídos os primeiros bancos, como nos EUA, ou penosamente resgatados, como na Alemanha, principia o acto seguinte do drama: a crise do mercado monetário. Uma vez que os bancos sabem que todos os demais estão atolados, mas não com que profundidade, põem limites severos ao empréstimo inter-bancário, exigindo juros elevados para créditos a curto prazo. Por outras palavras: o sector mais estável dos mercados financeiros, o tráfego creditício inter-bancário, contrai-se subitamente. Só os bancos centrais podem então intervir como lender of last resort – como prestamistas de último recurso –, o que fizeram maciçamente durante dias.

O Banco Central Europeu (BCE) injectou mais de 200 mil milhões de euros no mercado monetário para créditos a curto prazo, o FED estado-unidense abriu a torneira creditícia menos generosamente, mas baixou claramente os juros e alongou o prazo dos créditos a curto prazo. Em todo o mundo o exemplo foi seguido. Ainda que com isso parecesse superada de imediato a crise do mercado monetário, o certo é que a crise financeira mundial apenas começou.

Para cobrir perdas, os hedge funds e os bancos vendem os títulos que ainda conservam algum valor, títulos petrolíferos ou títulos de metais. Não tarda então a cair o preço do petróleo e os preços dos metais por toda a parte. Muitos investidores conservadores do mundo inteiro fogem procurando refúgio nos títulos seguros, ou seja, nos estatais. Simultaneamente, interrompe-se a onda de fusões e tomadas de controle empresariais – que só em 2007 já se elevava, no conjunto do planeta, a mais de 3 mil milhões de dólares – uma vez que os bancos restringem drasticamente as suas condições creditícias. Como agora é arriscado e muito caro conduzir com os créditos a longo prazo, muitos mega-negócios previstos ou já em andamento, quando não rompidos ou adiados, os bancos experimentam enormes dificuldades na hora de continuar a fornecer créditos multi-milionários já concedidos. As operações nos mercados de valores adiam-se, o mercado de novas emissões vem abaixo, o segundo motor do rally bolsístico entra em pane, adeus às acções em alta.

O fim do túnel ainda está muito longe de estar à vista. Os mercados de valores assinalam actualmente a descida de cotações mais abrupta dos últimos anos. Bancos e hedge funds no mundo inteiro continuam a afastar de si os derivados creditícios prenhes de risco que haviam financiado com dinheiro barato japonês; os créditos têm que ser devolvidos em yenes, logo dispara-se para cima o câmbio do yen e afundam as cotações em Tóquio. Virá agora a crise do dólar e, com ela, a crise do comércio mundial, de modo que para as economias exportadoras chinesa e alemã acabaram-se os mercados estado-unidenses.
05/Setembro/2007
Do mesmo autor: Crise dos mercados financeiros: vem aí o grande crash? , 19/Ago/07

[*] Estudou economia e ciência política em Berlim e Paris. Actualmente é professor em várias universidades alemãs e no estrangeiro, desde 1981 principalmente em Amsterdam. Co-editor da revista alemã SPW (Revista de política socialista e economia) e da nova edição crítica das Obras Completas de Marx e Engels (Marx-Engels Gesamtausgabe, nova MEGA). Investigador associado do Instituto Internacional de História Social, em Amsterdam. Autor de numerosos livros sobre economia política internacional.

O original encontra-se em http://www.refundacioncomunistapr.com/articulo_t.php?unitid=628

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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