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Subject: Perspectivas para 2007


Author:
James Petras
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Date Posted: 4/01/07 10:57:48

Perspectivas para 2007

James Petras

“O enfraquecimento do regime político dos EUA abrirá uma janela de oportunidade para uma rotura decisiva com o Império dos EUA, provando que o ressurgimento dos movimentos sócio-políticos pode vencer os obstáculos colocados pelas novas elites de ex-esquerdistas e oligarquistas tradicionais”

James Petras* - 04.01.07

A Escalada do Conflito

Para perceber as relações entre os EUA e a América Latina no ano que agora finda e a sua provável trajectória em 2007 é necessário considerar 3 dimensões: 1) o contexto global das relações EUA – América Latina; 2) a dinâmica interna dos EUA e 3) as consequências político-económicas, na prática, dos processos eleitorais de 2006 na América Latina.

A política imperial dos EUA continua no encalço de vitórias militares no Iraque e no Afeganistão, a dar apoio incondicional à guerra movida por Israel contra o Governo eleito da Palestina e a ameaçar o Irão com um ataque directo ou através de Israel. Por outras palavras, as prolongadas, dispendiosas e inconclusivas guerras no Iraque, Afeganistão, Líbano e Palestina vão continuar em 2007. A continuação da escalada militar significa mais tropas e mais gastos para as guerras no Médio Oriente; mais 800 milhões de dólares extra, em adição aos 3 bilhões de dólares anuais para a guerra de Israel contra o Líbano, a Palestina e especialmente o Irão. Os comentadores que interpretaram a política dos EUA através dos inquéritos à opinião pública, processos eleitorais (a vitória dos democratas), relatórios de consultorias (o Grupo de Estudo para o Iraque, de Baker) e número de baixas no Iraque, e que previram uma retirada “gradual”, não perceberam a lógica da estratégia política da Casa Branca. Para o regime Bush, os insucessos militares são consequência da aplicação de insuficiente força militar. O que é necessário, dizem eles, é um maior número de soldados e maiores orçamentos militares (BBC, 12 de Dezembro).

A Polarização

Tanto nos EUA como na América Latina – como, de um modo mais geral, em todo o mundo – a política está a ser marcada por divisões cada vez mais profundas, que provocam conflitos crescentes. Nos EUA, e no que toca às questões fundamentais da confrontação ou negociação no Médio Oriente e na América Latina, a linha divisória atravessa os dois maiores partidos e o espectro liberal-conservador. De um lado, a Casa Branca, apoiada por belicistas tanto Democratas como Republicanos, os Presidentes das maiores organizações judaicas, grupos de veteranos de extrema-direita e de intelectuais neo-conservadores, e a maioria dos grandes órgãos de comunicação. Do outro lado, minorias dos maiores partidos e dos mass media, a maioria da opinião pública, sectores de militares no activo e na reserva, da intelectualidade e proeminentes críticos do lobby Sionista e das políticas de guerra como Brzezinski, James Carter, James Baker e outros.

Divisões semelhantes aparecem com relação à política Latino-Americana dos EUA. A Casa Branca, apoiada pelo lobby de exilados cubanos, pelo Pentágono e por uma minoria de ideólogos e de homens de negócios de extrema direita, favorece a ameaça e a intervenção contra Cuba, Venezuela e Bolívia e o apoio ao ilegítimo Presidente Calderon, aos separatistas de Santa Cruz na Bolívia e a outros extremistas autoritários na região. Em diferentes graus de oposição a esta política, estão congressistas liberais e conservadores apoiados por exportadores do agro-negócio, agências de turismo, a maioria da opinião pública, e sectores do Departamento de Estado liderados pelo Subsecretário para os Assuntos da América Latina, Shannon, o qual apoia um maior ênfase na diplomacia, negociações e uma abordagem do tipo “2-track”.

Similarmente, profundas divisões emergiram em 2006 na América Latina, as quais se irão aprofundar em 2007. No México, o regime minoritário de Calderon enfrenta uma larga oposição da coligação AMLO, das assembleias populares de Oaxaca, dos movimentos sindical e social. À medida que o regime for aprofundando a liberalização da economia e a militarização do país, a polarização aumentará.

Na Bolívia, os homens de negócios da direita e as elites do agro-negócio reorganizaram-se, tirando vantagem das políticas conciliadoras de Morales e da sua incapacidade de levar por diante políticas de redistribuição da terra e dos rendimentos – e consolidaram uma base de poder em Santa Cruz, a qual forçou Morales a recuar ainda mais nas suas reformas e levou ao descontentamento popular generalizado. Divisões semelhantes apareceram no Equador, entre os camponeses Índios da região Andina por um lado, e os senhores de terras e os banqueiros do litoral por outro. Na Colômbia, as divisões entre as forças paramilitares aliadas do Presidente Uribe e as organizações populares da sociedade civil (e a guerrilha) aumentaram (Boston Globe, 14 de Dezembro de 2006). Na Venezuela, a polarização entre socialistas e sociais-liberais Chavistas (e seus aliados entre a oposição “moderada”) vai emergir em 2007, à medida que Chavez for implementando o seu programa de mudanças no partido e no governo, de acordo com uma agenda socialista.

Estas divisões internas nos EUA e na América Latina ocorrem num contexto internacional em que se radicalizam as confrontações de classe e nacionais.

O Contexto Internacional

Dois processos históricos à escala mundial influenciam a política dos EUA para a América Latina: 1) as longas guerras no Médio Oriente e 2) o dinâmico crescimento das 4 potências asiáticas lideradas pela China. As guerras do Médio Oriente e do Sul Asiático forçaram um crescimento desmesurado das forças militares dos EUA, minaram o apoio interno a novas guerras e esticaram severamente o orçamento. Estas consequências diminuíram a capacidade dos EUA para intervir militarmente na América Latina em apoio a golpes militares ou, ainda menos, para uma invasão directa. Assim, os EUA apoiam-se cada vez mais em clientelas domésticas locais para defenderem os seus interesses (Calderon, os senhores de terras e dos grandes negócios de Santa Cruz, Garcia, Uribe).

O dinâmico crescimento da Ásia (e particularmente da China e da Índia) e a procura de matérias-primas (ferro, cobre e petróleo), alimentos e produtos agrícolas (como soja) resultaram numa maior competição entre os EUA e a União Europeia pelo acesso aos exportadores e fornecedores Latino-Americanos, e em preços mais altos e maiores receitas para os cofres Latino-Americanos. A Ásia representa mais mercados e mais investidores para os exportadores latino-americanos. Estas mudanças significam menos dependência em relação ao financiamento externo (especialmente do FMI) e aos mercados dos EUA, o que significa que Washington tem menos capacidade política e diplomática para pressionar os regimes latino-americanos, incluindo os governos neo-liberais como os de Lula, Bachelet, Kirchner e Vazquez.

Confrontados com a erosão da capacidade militar e com o declínio da influência económica, Washington orienta-se agora para um “compromisso” entre os belicistas da linha dura da Casa Branca e os “negociadores” do Departamento de Estado, mais orientados para o mercado. A essência do compromisso é uma “2-track policy”: combinar o apoio à oposição subversiva onde ela é forte (Bolívia) com negociações em países onde ela é fraca (Venezuela). Em relação aos regimes neo-liberais, os quais têm algum grau de autonomia (Brasil, Chile e Argentina), Washington irá pôr ênfase nas relações bilaterais e irá maximizar as oportunidades económicas ao mesmo tempo que tentará desencorajar quaisquer concessões aos movimentos de massas, especialmente às reivindicações para reverter as privatizações. Nos casos de Cuba e da Venezuela, a “2-track policy” será combinada com promessas de diálogo e acordos sob condição de maiores cedências na diplomacia, regime de propriedade e investimentos, combinado com o contínuo apoio financeiro aos agentes da destabilização.

América Latina: Mudanças Políticas e Resposta dos EUA

A amena resposta dos EUA às mudanças de regime que resultaram das eleições latino-americanas em 2006 pode ser facilmente explicada pelo facto de que elas não originaram nenhuma mudança na estrutura sócio-económica, pelo menos no futuro previsível.

A mais clara demonstração do efeito marginal das vitórias eleitorais do “centro-esquerda” é o caso da vitória eleitoral de Lula, que tornou claro, até para os seus mais ardentes apoiantes intelectuais (Frei Betto, Emir Sader, João Pedro Stedile) que ele considerava o “esquerdismo como uma doença infantil” (La Jornada, 14 de Dezembro), uma clarificação que foi muito apreciada nos círculos de negócios do hemisfério. Sem dúvida, em Wall Street ficaram muito contentes quando souberam que o “Partido dos Trabalhadores” Brasileiro votou para que o salário dos congressistas mudasse para o dobro, de $6.500 para $12.000 por mês (e para duplicar o orçamento individual de cada congressista para $75.000 por mês) ao mesmo tempo que o salário mínimo foi aumentado em $7 por mês, de $159 para $166 (cerca de 1.7%, após a inflação) (Financial Times, 16 e 17 de Dezembro). Um em cada cinco congressistas brasileiros (e muitos são do partido de Lula) está actualmente sob investigação por corrupção. Os especuladores da Wall Street que foram recentemente investigados por fraude e que ainda por cima receberam chorudos prémios de fim de ano devem-se ter sentido em verdadeira comunhão com estes legisladores brasileiros que duplicaram os seus salários enquanto aguardam serem acusados por crime de corrupção.

Contrariamente às expectativas da Casa Branca, mas muito para seu agrado, o regime de Evo Morales aplicou políticas fiscais austeras destinadas a criar excedentes fiscais e virou as costas a qualquer política redistributiva (praticamente não houve expropriações de terras, minas ou energia). Enquanto Moralez desmobilizou os movimentos sociais e centrou a sua acção em infindáveis processos legais, a oligarquia reorganizou-se, expandiu a sua base de poder em Santa Cruz e ameaça deitar abaixo o governo. Enquanto a clientela oligárquica boliviana de Washington dá passos para tomar o poder (La Jornada, 16 de Dezembro) Evo Morales prossegue as suas políticas auto-destrutivas de retórica populista radical e de maiores concessões às elites. Washington tem mantido um pé em cada campo, dando acima de 60 milhões de dólares em ajuda externa a Morales e uma quantia não revelada à oposição de Santa Cruz, organizando massivas demonstrações “separatistas” (HoyBolivia.com, 16 de Dezembro).

Os negociadores da linha “soft” de Washington (Shannon) fortaleceram a sua posição face à política de “linha dura” da Casa Branca em relação à Venezuela, apontando a vitória eleitoral de Chavez como um motivo para uma reaproximação (La Jornada, 14 de Dezembro). Em Washington, Shannon avançou o argumento de que um significativo sector do governo de Chavez estaria aberto à negociação de um pacto envolvendo a manutenção do status quo, abrandamento das críticas à política imperial dos EUA, consolidação dos acordos no gás e no petróleo e uma travagem nos passos em direcção à socialização da economia.

Perspectivas para 2007

A situação dos EUA na arena internacional vai continuar a deteriorar-se em 2007 – a próxima escalada militar no Iraque, a transferência de armamento em larga escala para Israel para ameaçar ou atacar o Irão, a Síria, o Hezbollah ou o Hamas – não vão debilitar a resistência armada no Iraque. Um ataque de Israel ao Irão, com o apoio dos EUA, irá estender o conflito armado aos Estados do Golfo, incluindo a Arábia Saudita. Em 15 de Dezembro, Bush condecorou o extremista israelita Natan Sharansky – apologista da “transferência” genocida de todos os palestinianos do “Grande Israel” – com a Medalha Presidencial da Liberdade, simbolizando a comunhão de ideais entre o militarismo imperial dos EUA e o brutal expansionismo colonial de Israel. A completa rejeição de qualquer nova iniciativa diplomática (como as recomendações do Grupo de Estudo sobre o Iraque, de Baker) é o resultado da conjugação de forças do poderoso lobby pró-Israel e da Casa Branca de Bush-Cheney-Rice.

Sobrecarregados militarmente no Médio Oriente, Washington aplicará a sua “2-track policy” na América Latina. Apoiará a clientela de serviço (como Uribe, Calderon e Garcia); os Departamentos de Estado, do Tesouro e do Comércio irão empenhar-se em acordos comerciais com os regimes neo-liberais mais “autónomos” como os de Lula, Bachelet e Kirchner, encorajando um maior distanciamento em relação a Cuba e Venezuela e mais estreitos laços diplomáticos com os EUA. No que respeita à Bolívia, Washington continuará a pressionar Morales para fazer ainda maiores cedências à coligação de direita oligárguica baseada em Santa Cruz, permitindo à elite de negócios local “fazer o jogo” para os interesses imperiais dos EUA. Na Venezuela, a “2-track policy” tentará aprofundar as divisões no movimento Chavista com vista a bloquear quaisquer novas iniciativas de Chavez em direcção a uma maior socialização e a promover uma nova configuração política de “oposicionistas moderados” e Chavistas liberais.

O elo mais fraco da estratégia projectada por Washington para a América Latina é o ressurgimento dos movimentos sócio-políticos como os que irromperam no final da década de 90 e nos primeiros anos deste século: o Movimento dos Sem Terra (MST) no Brasil, os movimentos de trabalhadores, camponeses e índios na Bolívia e Equador, e o levantamento popular em Oaxaca e os protestos eleitorais no México estão num processo de reorganização, nenhum deles tendo sido derrotado. Todos os movimentos populares de vulto preservaram as suas estruturas organizativas e recuperaram a sua independência política. Em breve, estarão em condições de, uma vez mais, empenharem-se em grandes movimentos de protesto e de confrontação política com as oligarquias no poder ou com as suas tropas de choque nas ruas.

O Novo Ano não promete “mais do mesmo”. Ele vai iniciar com uma grande escalada militar dos EUA no Médio Oriente mas provavelmente terminará com uma ainda maior derrocada militar, assegurando o aprofundamento da crise política e da instabilidade económica tanto no Médio Oriente como nos EUA e na América Latina. O enfraquecimento do regime político dos EUA abrirá uma janela de oportunidade para uma rotura decisiva com o Império dos EUA, provando que o ressurgimento dos movimentos sócio-políticos pode vencer os obstáculos colocados pelas novas elites de ex-esquerdistas e oligarquistas tradicionais.


* Este artigo foi enviado a odiario.info pelo autor, nosso amigo e colaborador especial

Tradução de Francisco Lopes Pereira

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