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Date Posted: 09:21:07 04/24/07 Tue
Author: Adeilde Nunes (Boa tarde!)
Subject: O quieto animal da esquina

– O Quieto Animal da Esquina pode ser visto como uma miniatura dessa espiral. O jovem narrador, desempregado e morador, com a mãe, de um condomínio invadido, nutre o secreto desejo de ser poeta e vive mais na nunca declarada esperança de encontrar uma realidade em que possa se dedicar unicamente à poesia do que na crença de que possa se adequar ao mundo vazio de significado que o rodeia. Levado por um impulso deambulatório sem fim, que o faz vagar pelas ruas do centro de Porto Alegre não à procura de um emprego, mas em busca da possibilidade de vivenciar, com todos os sentidos, o tempo, a “duração” onipresente e avassaladora que, no entanto, não remete a significado algum, o narrador, solitário e desajustado, parece permanentemente acuado, um animal numa jaula, ainda que, paradoxalmente, viva boa parte de sua horas (parafraseando um outro título de Noll) “a céu aberto”. Essa sensação de acuamento, que irrompe concretamente em suas reações por vezes violentas e inesperadas, é o signo que rege até mesmo suas relações mais próximas, o que faz com que seus envolvimentos amorosos – assim como acontece com todos os narradores de Noll – se realizem sempre pautados pela cisão entre a libido e o afeto. Tal cisão se materializa mais explicitamente no episódio vivenciado com Mariana (uma vizinha a quem força uma relação sexual), e que o leva à prisão. Da prisão é resgatado por Kurt, um desconhecido, que sem qualquer razão aparente o acolhe e o leva para sua casa, uma propriedade numa zona rural próxima de Porto Alegre, onde o narrador passa a viver sem pedir nem receber nenhuma explicação. Num ambiente pleno de estranhamentos e acordos tácitos, o narrador passa a conviver com a personalidade forte e autoritária de Kurt, com os caracteres submissos e resignados de Gerda, sua esposa, e Otávio, um amigo com quem Kurt mantém uma relação ambígua, e com a personalidade dissimulada de Amália, empregada da casa, com quem acaba por ter um envolvimento. Com o agravamento da doença de Gerda (ela sofre de câncer), o narrador vai com Kurt ao Rio de Janeiro para acompanhá-la num tratamento. Gerda morre e Kurt e o narrador voltam ao Sul, para o casarão, de onde partiram Amália, fugida com um sem-terra de um acampamento próximo, e Otávio, mudado para o interior. O estranho poder exercido por Kurt sobre aqueles que o rodeiam acaba, no entanto, trazendo-os de volta. Fisicamente decadentes – Otávio envelhecido; Amália inesperadamente obesa – , seus retornos enfatizam ainda mais o sentimento de premência de que as coisas tomem um rumo mais concreto e apaziguante. Numa noite, o narrador decide sair, e no centro da cidade, tendo como pano de fundo um comício pré-eleição presidencial, conhece Naíra, com quem tem um rápido envolvimento, nos moldes de seus relacionamentos habituais. Na volta dessa incursão noturna, encontra Kurt, bêbado, e Otávio e Amália constrangidos, o que lhe exacerba a sensação de estar à mercê de forças ocultas que controlam seu destino. O contraponto às situações equívocas nas quais involuntariamente se envolve é a poesia e o sonho, nos quais se refugia em busca de transcendência e transfiguração do entorno. Mesmo esses interlúdios, no entanto, revelam-se insuficientes para romper com a ordem externa imutável e incompreensível que vai se materializando num crescente embate psicológico inútil e desgastante com Kurt. Ambíguo, porém, e impermeável até o fim, o relato finda com o narrador tomando um banho no lago da propriedade, nadando em direção à margem onde Kurt – sorrindo “como quem se sente pequeno diante de uma situação” – o espera com roupas secas nas mãos.
Contradizendo-se a cada instante e induzindo o leitor à contradição, O Quieto Animal da Esquina não consuma qualquer idéia de “mensagem”; o sentido, se há algum, se projeta pelas frestas do comportamento dos personagens, não pela trama (a rigor inexistente, se a tomarmos como um encadeamento lógico de causas e conseqüências, como uma seqüência de focos narrativos facilmente identificáveis), que nunca é, verdadeiramente, o suporte da literatura de João Gilberto Noll.

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