| Subject: Re: O oportunismo do PCP ? |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 14/02/05 10:17:38
In reply to:
João Aguiar
's message, "O oportunismo do PCP" on 13/02/05 3:56:05
A política e as propostas do PCP formuladas pelo Jerónimo de Sousa não são , óbviamente , redutíveis a um exercício académico sobre o socialismo cientifico "in abstracto".
São ,antes de mais , um conjunto de propósitos que têm em linha de conta a realidade concreta deste país, o seu envolvimento internacional e as suas indesmentíveis debilidades estruturais.
Portugal não é um balão de ensaio , e as necessárias opções políticas e ideológicas não podem , não devem , ocultar as experiências alheias.
Como fazer tábua rasa dos sucessos e dos fracassos do campo socialista ?
Acaso devemos copiar os modelos desse socialismo ,com todas as deformações em nome de uma fidelidade dogmática à teoria? Ou, precisamente, com base nessas experiências e da nossa específica realidade vamos procurar e construir a nossa via para o socialismo ?
Os exercícios académicos ,sempre interessantes, nem sempre se ajustam à realidade complexa das situações objectivas.
de Sousa uma
>demonstração completa do que o PCP defende e que
>concepções norteiam a sua prática política (incluindo
>as percepções das várias classes sociais, partidos e
>instituições que fazem parte da sociedade capitalista
>portuguesa). Entre aspas estão as citações da
>entrevista.
>
>«Na Esquerda não há adversários?
>
>Quando muito, concorrentes.» «Não gostaria de
>diabolizar o PS»
>
>Nesta resposta Jerónimo de Sousa (JS) não acha que o
>PS é um partido burguês ou o BE é um partido
>oportunista ligado a interesses de classe muito
>específicos: tecnocracia intelectual apostada em
>assegurar lugares no aparelho de Estado. Ou seja, o
>mal do resto da esquerda (sobretudo do PS) é, para JS,
>não se aliar ao PC para se promover uma política da
>caridadezinha e que não toque em absolutamente nada de
>estrutural. Portanto, em vez de apontar a raiz de
>classe dos restantes partidos da "esquerda", JS
>defende a conciliação de classes, atrelando as classes
>trabalhadoras aos interesses e desígnios da burguesia
>e seus aliados. O PS é bom se se coligar connosco,
>senão já é mau. O que JS devia dizer é que o PS é
>anti-proletário em qualquer situação histórica, até
>porque é essa a sua função. Ou o JS já se esqueceu do
>Soares no PREC e de todos os PS's estrangeiros
>(Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, etc.) que se
>marimbaram para o socialismo e em contextos muito mais
>favoráveis às classes trabalhadoras.
>
>«Como aumentaria a produtividade do país?
>
>Primeiro, através do aumento do investimento público.
>Não desligamos isso do crescimento das receitas e da
>necessidade de outra justiça fiscal. Não queremos
>expropriar, renacionalizar, afrontar o que
>consideramos ser o capital financeiro, especulativo e
>imobiliário. Não é isso, mas um banco paga metade da
>taxa do IRC de uma pequena empresa. Retirar os
>benefícios injustificáveis poderia permitir - com
>outra justiça fiscal - receitas que, aplicadas no
>investimento público, poderiam ser uma solução para o
>crescimento económico.»
>
>Mas meu caro JS, estás preocupado com o aumento da
>produtividade do processo de mais-valia ou com a
>perspectiva de transformação social? Quer dizer, o que
>aqui é dito não passa de um receituário keynesiano
>preocupado com o aumento da intervenção estatal na
>dinamização económica através do aumento da procura
>interna e onde se dá uma predominância à burguesia
>industrial (hoje em grande parte subordinada à
>burguesia financeira). Assim, o que o JS e o PCP
>querem é tão somente a concretização de uma política
>expansionista, de raíz nacional, à boa maneira dos
>anos 50-70. Isto pode ser muito bonito mas não faz
>avançar um mílimetro que seja a consciência e a luta
>das classes dominadas contra o poder do capital. Que a
>revolução não está ao virar da esquina, estamos fartos
>de saber. Mas vender os objectivos últimos do
>proletariado a uma política de condicionamento face à
>burguesia nacional (e ligada ao aparelho produtivo)
>parece-me muito pouco consequente do ponto de vista
>revolucionário.
>
>«Muitas vezes, há quem veja os trabalhadores e os
>sindicatos com a faca nos dentes, a querer bater no
>patronato, mas os trabalhadores são os primeiros
>interessados em que as empresas dêem lucro»
>
>Que treta é esta? Onde está a contradição
>capital-trabalho, base fundamental da constituição da
>luta de classe operária? Os comunistas agora têm de
>defender o conluio com o patronato? Para o PCP parece
>que sim. E esta é uma prova irrefutável do seu
>carácter reformista e completamente institucionalizado
>que não se propõe lutar pelo objectivo final da
>sociedade comunista. Que o JS me dissesse que vivemos
>uma época de recuo organizativo e ideológico do
>proletariado seria uma coisa. Outra coisa é
>propagandear a conciliação do trabalhador com o
>patrão, como se este não fosse um antagonista daquele
>no processo de produção de valor. Como se o patrão se
>se tornasse mais qualificado e menos corrupto, os
>trabalhadores poderiam finalmente dormir descansados
>porque podiam ser explorados na mesma, mas com mais
>carinho e consideração!!
>
>«Em nome dos pobrezinhos, acabou por prejudicar-se
>quem trabalha - as classes médias. Este Governo criou
>uma mistificação do Robin dos Bosques, de combater os
>ricos para dar aos pobres. Sendo os ricos, para o
>Governo, os que ganham 300 a 500 contos.»
>
>Esta é outra frase, no mínimo, muito pouco
>revolucionária para quem se afirma comunista. No
>fundo, para o JS, quem é lixado no capitalismo não são
>as operárias texteis do Vale do Ave que ganham pouco
>mais do que o salário mínimo ou os desempregados de
>longa duração que campeiam pelos bairros sociais de
>Porto e Lisboa. Para ele os desgraçados são os
>pequenos empresários e os profissionais liberais - as
>classes médias. Por outro lado, este uso do termo
>classes médias - e isto é o mais grave da sua
>afirmação - é um significado profundo do eleitoralismo
>do PCP. Mas afinal o que é isso de classes médias? É
>que analisar o mapa das classes sociais a partir do
>critério de quem tem um carro, casa e passa férias no
>Algarve todos os anos, não me parece lá muito
>marxista. Por outras palavras, se um trabalhador dos
>Correios não viver num bairro ou não passar fome já é
>da classe média. Sim senhor, a direita não diria
>melhor! E o facto de esse trabalhador vender a sua
>força de trabalho em ordem a produzir valor, que
>posteriormente vai ser acumulado pelo capitalista não
>conta é? Na prática, o PCP substitui a análise de
>classe a partir de pré-requisitos económicos e
>políticos (se é que alguma vez a teve, mas isso é
>outra história muito mais longa) pela análise
>oportunista e trauliteira a partir do conceito da
>(suposta) equalização das classes.
>
>Resumindo, o PCP, demonstra ser um partido que nada
>tem a oferecer às (cada vez mais complexas e
>heterogéneas) classes trabalhadoras a não ser a
>confusão ideológica e o atrelamento dos explorados a
>uma política burguesa keynesiana. Da preparação
>contínua e de longo prazo da consciencialização das
>massas proletárias para o socialismo nem uma linha!
>Provavelmente, porque JS pensou que um partido (que se
>diz) comunista defender os interesses dos
>trabalhadores contra os interesses do capital num
>jornal seria pouco adequado. Lá está, porque isso
>podia induzir nos patrões a ideia abominável (cruzes
>credo!) de ver «os trabalhadores e os sindicatos com a
>faca nos dentes, a querer bater no patronato»! E isso
>o PCP (e o BE e a RC) não quer(em)!
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