| Subject: O oportunismo do PCP |
Author:
João Aguiar
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Date Posted: 13/02/05 3:56:05
In reply to:
Grande Plano com Jerónimo de Sousa, JN, 12/02/05
's message, ""Não gostaria de diabolizar o PS"" on 12/02/05 23:00:32
Há nesta entrevista de Jerónimo de Sousa uma demonstração completa do que o PCP defende e que concepções norteiam a sua prática política (incluindo as percepções das várias classes sociais, partidos e instituições que fazem parte da sociedade capitalista portuguesa). Entre aspas estão as citações da entrevista.
«Na Esquerda não há adversários?
Quando muito, concorrentes.» «Não gostaria de diabolizar o PS»
Nesta resposta Jerónimo de Sousa (JS) não acha que o PS é um partido burguês ou o BE é um partido oportunista ligado a interesses de classe muito específicos: tecnocracia intelectual apostada em assegurar lugares no aparelho de Estado. Ou seja, o mal do resto da esquerda (sobretudo do PS) é, para JS, não se aliar ao PC para se promover uma política da caridadezinha e que não toque em absolutamente nada de estrutural. Portanto, em vez de apontar a raiz de classe dos restantes partidos da "esquerda", JS defende a conciliação de classes, atrelando as classes trabalhadoras aos interesses e desígnios da burguesia e seus aliados. O PS é bom se se coligar connosco, senão já é mau. O que JS devia dizer é que o PS é anti-proletário em qualquer situação histórica, até porque é essa a sua função. Ou o JS já se esqueceu do Soares no PREC e de todos os PS's estrangeiros (Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, etc.) que se marimbaram para o socialismo e em contextos muito mais favoráveis às classes trabalhadoras.
«Como aumentaria a produtividade do país?
Primeiro, através do aumento do investimento público. Não desligamos isso do crescimento das receitas e da necessidade de outra justiça fiscal. Não queremos expropriar, renacionalizar, afrontar o que consideramos ser o capital financeiro, especulativo e imobiliário. Não é isso, mas um banco paga metade da taxa do IRC de uma pequena empresa. Retirar os benefícios injustificáveis poderia permitir - com outra justiça fiscal - receitas que, aplicadas no investimento público, poderiam ser uma solução para o crescimento económico.»
Mas meu caro JS, estás preocupado com o aumento da produtividade do processo de mais-valia ou com a perspectiva de transformação social? Quer dizer, o que aqui é dito não passa de um receituário keynesiano preocupado com o aumento da intervenção estatal na dinamização económica através do aumento da procura interna e onde se dá uma predominância à burguesia industrial (hoje em grande parte subordinada à burguesia financeira). Assim, o que o JS e o PCP querem é tão somente a concretização de uma política expansionista, de raíz nacional, à boa maneira dos anos 50-70. Isto pode ser muito bonito mas não faz avançar um mílimetro que seja a consciência e a luta das classes dominadas contra o poder do capital. Que a revolução não está ao virar da esquina, estamos fartos de saber. Mas vender os objectivos últimos do proletariado a uma política de condicionamento face à burguesia nacional (e ligada ao aparelho produtivo) parece-me muito pouco consequente do ponto de vista revolucionário.
«Muitas vezes, há quem veja os trabalhadores e os sindicatos com a faca nos dentes, a querer bater no patronato, mas os trabalhadores são os primeiros interessados em que as empresas dêem lucro»
Que treta é esta? Onde está a contradição capital-trabalho, base fundamental da constituição da luta de classe operária? Os comunistas agora têm de defender o conluio com o patronato? Para o PCP parece que sim. E esta é uma prova irrefutável do seu carácter reformista e completamente institucionalizado que não se propõe lutar pelo objectivo final da sociedade comunista. Que o JS me dissesse que vivemos uma época de recuo organizativo e ideológico do proletariado seria uma coisa. Outra coisa é propagandear a conciliação do trabalhador com o patrão, como se este não fosse um antagonista daquele no processo de produção de valor. Como se o patrão se se tornasse mais qualificado e menos corrupto, os trabalhadores poderiam finalmente dormir descansados porque podiam ser explorados na mesma, mas com mais carinho e consideração!!
«Em nome dos pobrezinhos, acabou por prejudicar-se quem trabalha - as classes médias. Este Governo criou uma mistificação do Robin dos Bosques, de combater os ricos para dar aos pobres. Sendo os ricos, para o Governo, os que ganham 300 a 500 contos.»
Esta é outra frase, no mínimo, muito pouco revolucionária para quem se afirma comunista. No fundo, para o JS, quem é lixado no capitalismo não são as operárias texteis do Vale do Ave que ganham pouco mais do que o salário mínimo ou os desempregados de longa duração que campeiam pelos bairros sociais de Porto e Lisboa. Para ele os desgraçados são os pequenos empresários e os profissionais liberais - as classes médias. Por outro lado, este uso do termo classes médias - e isto é o mais grave da sua afirmação - é um significado profundo do eleitoralismo do PCP. Mas afinal o que é isso de classes médias? É que analisar o mapa das classes sociais a partir do critério de quem tem um carro, casa e passa férias no Algarve todos os anos, não me parece lá muito marxista. Por outras palavras, se um trabalhador dos Correios não viver num bairro ou não passar fome já é da classe média. Sim senhor, a direita não diria melhor! E o facto de esse trabalhador vender a sua força de trabalho em ordem a produzir valor, que posteriormente vai ser acumulado pelo capitalista não conta é? Na prática, o PCP substitui a análise de classe a partir de pré-requisitos económicos e políticos (se é que alguma vez a teve, mas isso é outra história muito mais longa) pela análise oportunista e trauliteira a partir do conceito da (suposta) equalização das classes.
Resumindo, o PCP, demonstra ser um partido que nada tem a oferecer às (cada vez mais complexas e heterogéneas) classes trabalhadoras a não ser a confusão ideológica e o atrelamento dos explorados a uma política burguesa keynesiana. Da preparação contínua e de longo prazo da consciencialização das massas proletárias para o socialismo nem uma linha! Provavelmente, porque JS pensou que um partido (que se diz) comunista defender os interesses dos trabalhadores contra os interesses do capital num jornal seria pouco adequado. Lá está, porque isso podia induzir nos patrões a ideia abominável (cruzes credo!) de ver «os trabalhadores e os sindicatos com a faca nos dentes, a querer bater no patronato»! E isso o PCP (e o BE e a RC) não quer(em)!
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