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entrevista com Jerónimo de Sousa secretário-geral do pcp
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Date Posted: 16/02/05 9:39:26
entrevista
Jerónimo de Sousa secretário-geral do pcp
"Estamos prontos a falar com o PS sem condições"
Líder do PCP e da CDU, Jerónimo de Sousa recusa diabolizar o PS e afirma estar disposto a analisar políticas que englobem as principais preocupações comunistas
armando rafael
francisco almeida leite
DN-Natacha Cardoso
O Bloco de Esquerda e o CDS/PP são os principais adversários da CDU?
Não. O BE não é adversário. Quando muito, é um concorrente e, às vezes, bastante indelicado, com posições éticas muito discutíveis.
Diz isso porque o BE recuperou algumas bandeiras do PCP?
Não só. Não esperava, por exemplo, que Francisco Louçã tivesse usado uma crítica fulanizada para comparar o seu trabalho parlamentar com o meu. O Francisco Louçã esqueceu- -se de que fui deputado constituinte, deputado da República durante 17 anos, e que, além disso, conheci o que ele nunca conhecerá na vida a dureza da vida, as lutas sindicais...
Essa referência magoou-o?
Magoou, porque não são justas e porque foram feitas por um partido que não considero como adversário.
Pode dizer que o BE não é um adversário, mas há uma concorrência directa em vários distritos?
É um exagero. Não temos uma preocupação significativa que o BE nos retire eleitorado. Eles têm uma forma de ser, e de estar, que até pode ser atractiva e sedutora para algumas franjas do eleitorado...
Os mais jovens?
Isso merecia um estudo sociológico que nunca foi feito muitos dos votos que o BE obtém em Lisboa, em Alvalade ou em Benfica, por exemplo, são provenientes de camadas etárias mais elevadas.
Mas o BE pode atrair os críticos do PCP...
Neste momento, o que noto, e o que vejo, é uma reaproximação de muitos desses elementos...
Quem?
Não vou falar em nomes...
Mas onde é que notou isso?
Em Vila Real, em Viana do Castelo, Aveiro, Santarém, Alcácer do Sal, e também em Beja ou em Faro. Houve muitos camaradas do partido que, perante a nossa campanha, se reaproximaram, e que têm vindo a assistir ou a participar nas nossas iniciativas, o que para nós é algo muito importante.
Há outros...
Há aqueles seis ou sete que foram para o BE e que estão em trânsito para um destino incerto. Não quero julgar ninguém, mas verão que o tempo será muito severo para certas pessoas.
Como reage às acusações do BE, quando o acusam de ter tido um papel activo em todas as expulsões do PCP?
Que exagero... As decisões foram tomadas por um Comité Central com 180 membros. Somos um partido, com estatutos e um programa. As pessoas são livres de aderir ou não ao PCP. Mas se o fazem devem aceitar regras. Agora tenho também uma convicção sempre que há críticas e diferenças de opinião no PCP, o partido reforça-se. Tem sido sempre assim, ao longo da sua história.
Isso não representa uma mudança do discurso oficial do PCP?
Não. É uma experiência de vida. Não receio críticas nem autocríticas dentro do partido, porque isso é salutar. Mas o PCP também não é uma tertúlia, nem um grupo de excursionistas que permite tudo. Eu lembro-me sempre do caso de Zita Seabra. O que nós não pagámos por termos assumido uma medida que era incontornável. Foram precisos dez anos para que muitas pessoas que, nessa altura, se zangaram com o PCP tivessem percebido as nossas razões. Mas, neste momento, não é isso que nos anima. Não desejamos expulsões nem julgamentos. Antes pelo contrário, valorizamos o esforço de aproximação de alguns camaradas.
E o CDS/PP não é outro concorrente da CDU, designadamente em certas franjas do eleitorado?
O populismo tem destas coisas. Paulo Portas teve a arte de conseguir demarcar-se das políticas de um governo do qual fez parte. O CDS subscreveu as medidas mais gravosas e impopulares deste Governo, mas teve essa arte.
Paulo Portas teve arte?
Tenho de lhe reconhecer isso não é fácil fazer um golpe de rins desta natureza.
Os pensionistas foram um desses alvos?
E, no entanto, a promessa de aumento das reformas e pensões foi uma enorme mistificação aumentos de 2,9% a 9%. Isto foi dito assim. A verdade é que, do milhão e 600 mil reformados, só dez mil receberam os 9% e um milhão e 400 mil receberam aumentos abaixo da inflação. Mas não foi Bagão Félix que reduziu os subsídios de doença? Que foi o campeão do Código do Trabalho? E a ministra da Justiça do CDS não foi um desastre? Só que, de repente, Paulo Portas surge como uma espécie de Fénix renascida, atirando as culpas para o parceiro.
O que lhe valeu alguns elogios por parte do PS...
Pois, julgo que essa é uma questão pertinente que deve ser colocada ao PS, embora os socialistas já tenham proferido esta semana pequenas crítica, tímidas, é certo, ao CDS. Mas, em política, muitas vezes aquilo que parece é. E o PS poderá, não digo que o faça, sentir-se tentado a repetir experiências do passado.
Está a falar de um acordo entre o PS e o CDS/PP?
No passado já houve um, nem sequer seria uma originalidade. Mas, enfim, também existe uma jura formal do PS de que não faria uma aliança com a direita. A ver vamos.
Mas o PS não olha para si como um interlocutor. Ainda há dias um dirigente socialista se referiu ao último congresso do PCP como um retrocesso...
O PS faz esse discurso porque tem um problema nós não lhe fazemos o jeito, nem calamos críticas às suas responsabilidades no passado. Mas o que não concebemos é que perante uma derrota da direita, e uma vitória da esquerda, se mantenham políticas de matriz neoliberal. Não digo que o PS seja igual ao PSD, mas, em termos de instrumentos económicos, aquilo que se vê no programa do PS passa por manter o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o controlo do défice. E, no plano social, ainda há aquela ideia peregrina do aumento das idades de reforma.
O que está a enunciar são as condições prévias para um diálogo com o PS?
Não temos uma plataforma, nem um programa. O que nós dizemos é que estamos dispostos a analisar soluções de políticas que permitam acordos e entendimentos.
Sem condições prévias?
Sem condições prévias.
Mas há preocupações mínimas?
Há preocupações fundamentais. Validar medidas do género daqueles que enunciei não seria apenas mau para o PCP. Seria também mau para o PS e para a própria democracia. Se o PS pensa repetir uma matriz económica e social parecida com o Governo anterior e até com o Governo de António Guterres, isso é inquietante. Não porque o PS não acabasse, depois, por perder eleições, mas as pessoas deixariam, entretanto, de acreditar na própria democracia.
Mas o PCP já admitiu deixar passar um OE rectificativo que o PS possa vir, eventualmente, a apresentar...
Em relação a isso, e como diria a minha velha Olímpia, a melhor prova do pudim é comê-lo. Ou seja, só nos pronunciaremos perante a substância. Mas um OE rectificativo pressupõe rectificar o que foi feito.
Será difícil conciliar a tributação que a CDU preconiza com as medidas do PS, ou não?
O PS tem evoluído quanto à necessidade de uma outra política fiscal e de um combate à fraude. Não basta falar em despesas, também é preciso falar de receitas.
Essa pode ser a base de um acordo?
Já num dos governos Guterres houve a possibilidade de um acordo em torno do segredo bancário e de medidas fiscais mais justas, mas, depois, acabou por ir tudo por água abaixo.
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