| Subject: Re: Portas versus Louça |
Author:
ED
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Date Posted: 22/01/05 12:52:44
In reply to:
visitante atento.
's message, "Portas versus Louça" on 21/01/05 13:33:37
Eduardo Dâmaso
Editorial, Público, 22/01/05
Louçã e o sorriso das crianças
Pela cartilha do BE, os que nunca geraram uma vida estão proibidos de se pronunciar sobre ela.
Francisco Louçã disse anteontem à NOITA A Paulo Portas, durante um interessante debate na SIC-Notícias, que o líder do PP não tem direito a falar da vida porque nunca a gerou. Falava-se da despenalização do aborto e o diálogo foi assim: “Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida”, disse Louçã. “Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?”, protestou Portas, levando Louçã a responder: “O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança”.
É espantoso que tenha sido proclamada pela voz de um dos mais destacados e inteligentes dirigentes da esquerda a superioridade moral das famílias ditas tradicionais sobre todas as outras formas de união. Ainda para mais embrulhada numa espécie de fascismo genético e social que exclui todos os incapazes de gerarem uma vida, por opção ou impossibilidade física, a terem opinião sobre ela, a amar uma qualquer vida.
Ficámos a saber que, pela cartilha do Bloco de Esquerda, os que nunca geraram uma vida são absolutamente incapazes, inabilitados e estão proibidos de se pronunciar sobre ela. Não são sequer capazes de apreciar o sorriso de uma criança, tal como Francisco Louçã é, pela simples razão de ser pai.
Este tipo de argumentação, inesperado em Louçã, está para lá de toda a divergência de posições que defensores e opositores do aborto possam ter. Ele revela uma arrogância moral inaceitável, venha da esquerda ou da direita. Foi um truque baixo, uma frase assassina sem qualquer nexo de razoabilidade. É um símbolo nefasto de um puritanismo retrógrado, um populismo de esquerda tão inaceitável como qualquer outro e, no seu inverso, representa todo um programa de combate ao voto no BE. O que diria este partido se a frase em causa tivesse sido dita por Santana Lopes, apesar de ter gerado várias vidas e de, à luz da doutrina do Bloco, ter porventura uma legitimidade acrescida para poder pronunciar-se sobre a vida...!?
O que interessa, afinal, para o debate sobre o aborto o facto de Portas nunca ter gerado uma vida? O que é que interessa a vida privada de Portas ou de qualquer outra pessoa?
O que interessa que Louçã tenha gerado uma vida e que especial virtude lhe dá isso? O que interessa o sorriso de uma criança e ser mais ou menos capaz de o apreciar para esse debate? Que mundo é este que o BE defende quando se ouve um dos seus dirigentes, Teixeira Lopes, a defender que Portas deveria ter um estilo de vida conservador compatível com as suas conservadoras posições políticas?
O BE quer mandar na vida privada de quem? O BE gostaria de ser o pastor das consciências tresmalhadas que vivem no pecado de defenderem publicamente valores que não são o cimento da respectiva vida privada?
Alguém nos livre destes novos pregadores do virtuosismo, seja este visto como um mero instrumento de baixo combate político, ou a bandeira pura e imaculada dos que acham que todo o bem do mundo está na superioridade da família tradicional sobre todas as outras formas de união.
Uns são de esquerda, outros de direita. Emergiram no rosto de Louçã, mas também já emergiram no de Portas, ainda que este nunca se tenha metido pelos caminhos que Louçã trilhou. Uma coisa é certa: a divinização de um certo virtuosismo, seja social ou individual, andou sempre mais próximo da tragédia do que da felicidade humana. A história política e religiosa da humanidade está cheia de infelizes exemplos.
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