| Subject: Re: Portas versus Louça |
Author:
observador
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Date Posted: 22/01/05 22:32:20
In reply to:
ED
's message, "Re: Portas versus Louça" on 22/01/05 12:52:44
Mas afinal qual foi a nova bacorada do Teixeira Lopes? È que esse gajo é propenso a asneiras. Qual foi a última?
>Eduardo Dâmaso
>Editorial, Público, 22/01/05
>
>Louçã e o sorriso das crianças
>
>Pela cartilha do BE, os que nunca geraram uma vida
>estão proibidos de se pronunciar sobre ela.
>
>Francisco Louçã disse anteontem à NOITA A Paulo
>Portas, durante um interessante debate na
>SIC-Notícias, que o líder do PP não tem direito a
>falar da vida porque nunca a gerou. Falava-se da
>despenalização do aborto e o diálogo foi assim: “Não
>me fale de vida, não tem direito a falar de vida”,
>disse Louçã. “Quem é o senhor para me dar ou não o
>direito de falar?”, protestou Portas, levando Louçã a
>responder: “O senhor não sabe o que é gerar uma vida.
>Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma
>criança”.
>
>É espantoso que tenha sido proclamada pela voz de um
>dos mais destacados e inteligentes dirigentes da
>esquerda a superioridade moral das famílias ditas
>tradicionais sobre todas as outras formas de união.
>Ainda para mais embrulhada numa espécie de fascismo
>genético e social que exclui todos os incapazes de
>gerarem uma vida, por opção ou impossibilidade física,
>a terem opinião sobre ela, a amar uma qualquer vida.
>
>Ficámos a saber que, pela cartilha do Bloco de
>Esquerda, os que nunca geraram uma vida são
>absolutamente incapazes, inabilitados e estão
>proibidos de se pronunciar sobre ela. Não são sequer
>capazes de apreciar o sorriso de uma criança, tal como
>Francisco Louçã é, pela simples razão de ser pai.
>
>Este tipo de argumentação, inesperado em Louçã, está
>para lá de toda a divergência de posições que
>defensores e opositores do aborto possam ter. Ele
>revela uma arrogância moral inaceitável, venha da
>esquerda ou da direita. Foi um truque baixo, uma frase
>assassina sem qualquer nexo de razoabilidade. É um
>símbolo nefasto de um puritanismo retrógrado, um
>populismo de esquerda tão inaceitável como qualquer
>outro e, no seu inverso, representa todo um programa
>de combate ao voto no BE. O que diria este partido se
>a frase em causa tivesse sido dita por Santana Lopes,
>apesar de ter gerado várias vidas e de, à luz da
>doutrina do Bloco, ter porventura uma legitimidade
>acrescida para poder pronunciar-se sobre a vida...!?
>
>O que interessa, afinal, para o debate sobre o aborto
>o facto de Portas nunca ter gerado uma vida? O que é
>que interessa a vida privada de Portas ou de qualquer
>outra pessoa?
>
>O que interessa que Louçã tenha gerado uma vida e que
>especial virtude lhe dá isso? O que interessa o
>sorriso de uma criança e ser mais ou menos capaz de o
>apreciar para esse debate? Que mundo é este que o BE
>defende quando se ouve um dos seus dirigentes,
>Teixeira Lopes, a defender que Portas deveria ter um
>estilo de vida conservador compatível com as suas
>conservadoras posições políticas?
>
>O BE quer mandar na vida privada de quem? O BE
>gostaria de ser o pastor das consciências tresmalhadas
>que vivem no pecado de defenderem publicamente valores
>que não são o cimento da respectiva vida privada?
>
>Alguém nos livre destes novos pregadores do
>virtuosismo, seja este visto como um mero instrumento
>de baixo combate político, ou a bandeira pura e
>imaculada dos que acham que todo o bem do mundo está
>na superioridade da família tradicional sobre todas as
>outras formas de união.
>
>Uns são de esquerda, outros de direita. Emergiram no
>rosto de Louçã, mas também já emergiram no de Portas,
>ainda que este nunca se tenha metido pelos caminhos
>que Louçã trilhou. Uma coisa é certa: a divinização de
>um certo virtuosismo, seja social ou individual, andou
>sempre mais próximo da tragédia do que da felicidade
>humana. A história política e religiosa da humanidade
>está cheia de infelizes exemplos.
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