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Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (14)


Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 16/04/05 22:02:41
In reply to: Bento Gonçalves 's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11

PALAVRAS NECESSÁRIAS (14)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927

Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973

Também os antagonismos entre as camadas da burguesia se tornavam, dia após dia, mais agudos. Estes patenteavam-se através dos grupos parlamentares, em permanentes pugnas entre si. Os frequentes “putsches” do Partido Radical também denunciavam uma profunda ruptura entre a pequena e a grande burguesia. Tudo isto resultava numa instabilidade ministerial. Os ministérios sucediam-se com rapidez vertiginosa.

A reacção não dormia. O fascismo italiano tinha-lhe despertado a atenção. Era indubitável que a luta de classes, em Itália, tinha sido dominada. As greves e as querelas entre classes pareciam ter sido eliminadas.

A grande burguesia portuguesa tomara já consciência das suas dificuldades. Mas, por outro lado, dominava-a o sentimento da impossibilidade de impor em Portugal um regime autoritário. Por isso, ela se agarrava ao Partido Democrático como meio de salvação transitório e o lançava cada vez mais pelo desfiladeiro do descrédito.

O Partido Democrático era o partido da maioria parlamentar. O fundamento da sua existência era constitucional, o que devia forçar a reacção a verificar que tal partido lhe não proporcionaria inteira segurança. Entretanto, era possível utilizá-lo numas acções excepcionais contra a classe operária. Lá estava a sua imprensa para forjar o ambiente de apoio às medidas consideradas de “emergência”.

As prisões preventivas começaram a tomar um carácter de massas e de certa permanência. Criou-se um tribunal de excepção (Tribunal de Defesa Social) para julgamento dos bombistas. O “lock-out“ começou a ser empregue contra a classe operária por intermédio da Confederação Patronal, criada recentemente.

Todo o aparelho repressivo do Estado foi reforçado e a sua acção começou a intensificar-se indo até à célebre aplicação da lei de fuga, então muito usada em Espanha. As primeiras grandes vítimas da Confederação Patronal foram os operários da indústria de mobiliário, numa greve de indústria em Lisboa. À greve dos operários respondeu a Confederação Patronal com o “lock-out”. O governo colocou-se ao lado dos patrões. Ao fim de 6 meses de luta encarniçada, e a despeito da solidariedade de outras classes, os mobiliários foram completamente esmagados.

Em Abril ou Maio de 1922, Caetano de Sousa e Pires Barreira, delegados do Partido e da Juventude Comunista, (...) tinham voltado do IV Congresso da IC e da IJC (...).

Iniciaram as suas tarefas com algumas conferências entre os filiados (...). Nessas conferências foram colocadas e desenvolvidas as tarefas centrais do IV Congresso, que consistiam rigorosamente na aplicação dos 21 pontos, refiliação partidária e transformação do esquema organizativo. Além de outras recomendações, tais como a questão da disciplina, os dois últimos pontos diziam respeito à SPIC. A base da organização devia assentar na célula de empresa.

Estas conferências não tiveram projecção imediata no trabalho do Partido. Os elementos do Partido, com raras excepções, não eram elementos revolucionários honestos. A sua concepção partidária era baixíssima e arrivista. Havia de facto algumas dezenas de filiados que tinham amor ao Partido, mas esses eram anarquizantes.

O certo é que Caetano de Sousa era pouco simpático e, para maior desgraça, não pertencia à classe operária, pois era funcionário público (...). O membro do Partido que mais se podia impor à consideração (...) era José de Sousa, mas este, nessa data, estava em Setúbal a trabalhar e havia deixado a direcção do Partido.

Caetano de Sousa fora também encarregado de reunir elementos com o fim de instituir um agrupamento da ISV (..). Dentro em pouco formava-se esse agrupamento (Partidários da ISV) (...). Sob o ponto de vista prático, foi este o único trabalho comunista imediatamente produzido.

Até Março de 1924, o Partido ia entrar numa fase de verdadeira confusão, num perfeito caos. Cessara de publicar “O Comunista” e pela sua direcção passaram os indivíduos mais exóticos e bizarros (...). Caetano de Sousa ia sempre ao leme, calmo e resoluto como um obstinado.

Pires Bandeira andava, desorientado, às voltas com os problemas da Juventude. (...) Era engenheiro auxiliar mas não tinha experiência proletária. Houve-se tão bem do seu trabalho político, disciplinar e organizativo que, dentro em pouco, quase toda a Juventude tomava a vanguarda do terrorismo operário à bomba e a tiro.

Lenine disse que a Juventude era a chama mais ardente...A Juventude portuguesa ía começar a “arder”.

Na realidade, em 1925, só havia cinzas dela.

Perfeito de Carvalho, que a CGT enviara (...) ao Congresso da ISV, como “mirone”, voltara imediatamente fazendo alarde da sua conversão aos princípios comunistas.

A CGT incumbira-o de fazer um informe (...) a fim de com ele abrir, no seu Conselho de Delegados uma discussão (...) sobre a conveniência (...) da adesão do Movimento Sindical Português à ISV. Perfeito de Carvalho nega-se a fazê-lo, acrescentando que o faria somente de modo verbal (...). O conselho reune-se e recusa a sua proposta (...). Em face de nova negativa, o Conselho demite-o do corpo redactorial de “A Batalha”.

Perfeito de Carvalho volta a Moscovo mas é mal recebido. Não temos a certeza de quais foram os motivos (...). É possível que um deles tivesse sido o modo impolítico e negligente como interpretou o interesse da ISV para com o Movimento Operário Português. O caso é que, de lá, veio para Paris e tornou a Portugal a pedido dos Partidários da ISV interessados em que ele se apresentasse no Congresso Nacional Operário que se efectuou (...) na Covilhã, em 30 de Setembro de 1922.

(continua)

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Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (15)Bento Gonçalves16/04/05 23:42:02


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