| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (16) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 17/04/05 15:56:57
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (16)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
Os sindicalistas revolucionários saíram-se bem do seu jogo. A sua manobra dera os resultados previstos. O modo como agiram esclarece e prova que eles conheciam a preparação da Conferência e as conclusões a que ia chegar.
Disse-se, mais tarde, não se sabe com que fundamento, que a reunião de Berlim se preciputara por razões não estranhas à data da realização do Congresso Sindical Português. Pode-se aceitar esta versão, sem grande esforço, considerando as boas razões existentes entre a CGT portuguesa e a CNT espanhola e a União Ibérica há muito preconizada por sindicalistas portugueses e espanhóis. De facto, sob as considerações do sectarismo do Movimento Sindical espanhol, essa unidade não seria possível desde que a CGT houvesse dado a sua adesão à ISV.
Pode, portanto, concluir-se que, não convindo à mentalidade sindical dos portugueses quaisquer relações com a II Internacional, a ISV, devido à sua importância revolucionária, era, de facto, para onde tendia o interesse da massa sindical portuguesa.
Ora, a esta tendência veio interpor-se, finalmente, o aparecimento da A I dos Trabalhadores. Sem a criação deste organismo, o desvio não se teria dado. A simpatia da massa sindical portuguesa pela Revolução Russa confundia-se com a própria ISV.
A sua longa experiência de luta no terreno sindical, travada com a burguesia, indicava-lhe, embora de modo empírico, que havia necessidade de passar a um plano de formas de luta superiores. A orientação da ISV propunha isso mesmo.
Como foi possível então desviar a inclinação das massas sindicais do interesse da adesão à ISV? Houve várias razões. Mas as que de modo imediato agiram em favor de Berlim foram duas: a primeira foi a exploração maquiavélica que os anarquistas faziam contra a Ditadura do Proletariado e a aliança que havia entre a IC e a ISV; a segunda deve-se à incapacidade e ao modo arbitrário como os partidários da ISV faziam a defesa da ISV.
A causa mais profunda residia na incapacidade do Partido Comunista: era pouca ou nenhuma a importância que deu ao problema.
Os anarquistas exultaram de contentamento com a adesão a Berlim. Berlim representava uma reacção pequena-burguesa, infiltrada no Movimento Operário, contra a Revolução Soviética. Berlim significava a tradição da “Carta de Amiens”, a influência nefasta do doutrinamento anarquista no seio dos trabalhadores, através do Movimento Operário.
A AIT definia-se como uma nova concepção sindical quando, no fundo, sob o ponto de vista da realidade objectiva, o que havia era somente uma alteração de nomes. Entre a concepção do Sindicalismo Revolucionário, com base na Carta de Amiens, e a concepção anarco-sindicalista de Berlim não há nenhuma diferença fundamental. Estão ambas tão intimamente ligadas, têm uma origem tão comum, que só diferenças de forma as poderão distinguir.
O período histórico em que se deu o aparecimento da AI dos Trabalhadores, o período mais laboriosamente intenso da consolidação do regime soviético na Rússia, pôs singularmente em foco a dialéctica do aparecimento do oportunismo de direita e do oportunismo de esquerda no seio da classe operária. Parecendo repelir-se, pelo modo distinto como actuam, eles encontram-se na mesma síntese (mantendo as distâncias aparentes): campanha contra a Pátria Socialista dos Trabalhadores, contra a IC, a ISV, e contra tudo e todos que se destinassem a apoiar a Revolução Russa.
Com a CGT agora anarco-sindicalista, as fronteiras entre o proletariado revolucionário e a burguesia, definiam-se cada vez menos. Era fácil reconhecer um proletário pelas suas condições de vida económica, mas dintingui-lo pela sua estrutura mental e política era quase impossível.
Esta afirmação resulta do número de vezes sem conta que a classe operária apareceu comprometida em movimentos políticas putchistas, desde os liberais aos mais reaccionários, sem nunca ter tomado qualquer papel dirigente.
O Congresso Sindical da Covilhã reforçara o sectarismo da CGT. Era o aparecimento do Partido e dos Partidários da ISV que a compelia cada vez mais para esta situação. A sua linha oportunista continuava a determinar as suas directrizes.
(continua)
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