| Subject: PALAVRAS NECESSÁRIAS (Parte I) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 22/04/05 0:36:19
Nota: Houve quem se queixasse (e com razão) deste texto ter sido aqui colocado às postas. Tentei pô-lo por inteiro mas excede em muito o máximo de caracteres permitidos. Sairá em três partes.
PALAVRAS NECESSÁRIAS (Parte I)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
O que vai relatar-se não constitui mais do que uma tentativa de explicar um vasto período de movimentação da vida proletária em Portugal, a partir de 1872 até 1927, particularmente no que respeita ao movimento operário sindical.
Pretende-se com este estudo, forçosamente deficiente e com abundantes lacunas, alargar e melhorar a nossa experiência de vanguarda do movimento proletário; fixar ideias acerca do comportamento revolucionário das várias tendências do movimento operário português, a relação delas com as concepções e actividades do proletariado internacional e, de tudo isso, tirar conclusões que auxiliem as nossas lutas contra a burguesia nacional,
Esta tarefa começa contrariada pela fundamental dificuldade da falta de documentos escritos e baseia-se toda em elementos de memória , provindos de leituras esparsas sobre alguns acontecimentos mais salientes e do conhecimento directo que tivemos de algumas fases e lutas do movimento operário no país.
Trata-se, portanto, duma modesta contribuição, salpicada de omissões e sem uma rigorosa precisão de datas, mas interessante pela aparição de novos elementos, até agora por nós ignorados, e que decerto reforçarão e melhorarão as conclusões extraídas das análises de estudos anteriores sobre trabalhos semelhantes.
(Nota preambular à 1ª edição)
As ideias socialistas fazem, entre nós, a sua aparição por alturas de 1871 e dão lugar a um entusiástico debate nas célebres conferências do Casino, com lugar de destaque para Antero e Eça de Queirós.
As ideias ali debatidas tiveram como imediato resultado a criação dum organismo conhecido pela “Fraternidade Operária”, que mais tarde se transformou em Partido Socialista.
Esta actividade organizativa derivava, em primeiro lugar, da reconhecida necessidade de organizar a luta contra os exploradores da população operária e, em segundo lugar, do entusiasmo trazido pelas lutas dos trabalhadores estrangeiros contra as suas burguesias e, mais do que tudo isto, do formidável acontecimento político que foi a revolução da Comuna.
É coisa estabelecida que a consciência política dos dirigentes operários dessa época era profundamente romântica e formada na escola de Proudhon e ainda alicerçada numa certa dose de idealismo hegeliano. Os efeitos duma tal orientação deviam produzir resultados pouco encorajadores no seio do proletariado. Por outro lado, o proletariado dessa época tinha toda ou quase toda a sua actividade laboriosa ligada à pequena produção manufactureira e artesã.
Num meio tão atrasado industrialmente, uma consciência revolucionária tão justa como a dos proletários de países como a Inglaterra, a França, a Alemanha, etc., era impossível. Contudo, o movimento operário ia crescendo e travando as suas lutas económicas parcelares contra os seus exploradores.
Azedo Gneco foi, a partir de certa altura, a figura mais saliente, o socialista mais capacitado, o que mais se aproximava das ideias de Marx, postas em marcha através dos princípios da Primeira Internacional. (...)
O objectivo essencial do pensamento de Gneco e dos seus amigos era a reorganização do Partido Socialista com vista à unificação dos Trabalhadores. Os elementos de apoio a este pensamento existiam nos sindicatos e nas cooperativas operárias de consumo (...).
O número de sindicatos e cooperativas e até dalgumas instituições de assistência e cultura ia aumentando sob o controlo socialista. Entre as últimas, destacava-se a Voz do Operário (...).
Nos começos do nosso século, o Partido Socialista é já uma realidade viva; todo o movimento sindical e cooperativista, principalmente, está sob a sua influência e controlo.
O quadro era prometedor para a época. A classe operária tinha um Partido, embora a sua orientação não fosse verdadeiramente revolucionária.
Durante a primeira década do século actual, assiste-se a certa estagnação da actividade política da Europa Ocidental. É na Rússia, para onde o centro da luta revolucionária se havia deslocado, que se dá o maior acontecimento político dessa época – a Revolução de 1905. A distância, os meios precários de comunicação e as diferenças de clima político entre nós e ela fizeram com que o facto quase não tivesse eco no nosso país.
Porém, o nosso meio andava agitado. Desde 1891 que a monarquia entrara em crise. Após a bancarrota de 1891, os republicanos (...) tinham intensificado os seus ataques à realeza. Entretanto, o Partido Socialista não agiu de modo a tirar vantagens possíveis do conflito (...). Pelo contrário (...) toda a experiência e vantagens políticas reverteram em benefício dos republicanos (...).
Fora o Partido Socialista um Partido Revolucionário e o proletariado português teria, em 1910, decidido as suas reivindicações dessa época e firmaria melhor as suas posições. Mas quem tinha a palavra era um Partido oportunista, um Partido que desviava a classe operária do seu justo caminho, colocando-a à mercê dos interesses da burguesia republicana.
As ideias anarquistas tinham, muito antes de 1910, conquistado muitos indivíduos entre nós (...). A sua acção exercia-se paralelamente à dos republicanos, embora se distinguissem por uma mais contundente linguagem e considerassem que a República liberal era o trampolim para uma sociedade sem Estado, Leis ou Autoridade.
Até 1904, os anarquistas, em França, tinham-se apercebido da impossibilidade de alargar a sua influência ideológica em concorrência com os seus émulos pequeno-burgueses, agrupados em organizações de esquerda liberal.
Esta constatação levou-os ao sindicalismo revolucionário com a “descoberta” dos sindicatos dos trabalhadores, para onde transferiram quase toda a sua actividade.
O esmagamento da Comuna tinha aberto a porta ao derrotismo e ao oportunismo; as ideologias estranhas aos justos interesses da classe operária entravam por essa mesma porta.
É que a maioria dos sindicatos franceses, impregnados de mentalidade anarquizante, decide aceitar, no congresso de Amiens, a concepção sindicalista revolucionária do Movimento Operário.
Esta nova concepção não pôde violar as fronteiras do Reno nem transpor o canal da Mancha, para além do qual se encontrava um proletariado industrialmente forte, com uma tradição socialista e dotado duma sólida consciência de classe. Estes mesmos obstáculos não existiam para aquém dos Pirinéus e, por isso, os princípios estabelecidos na chamada “Carta de Amiens” puderam instalar-se em Espanha e no nosso país.
Em 1909, quando em Portugal se efectua a primeira Conferência Sindicalista (...) já os sindicalistas revolucionários, com alguns sindicatos sob a sua influência, se instalam em posições de certo modo sólidas, de onde prosseguirão em progressivo combate contra o Partido Socialista.
As posições dos socialistas são numéricamente mais fortes: todos os sindicatos do Porto, têxteis da Covilhã, Fábricas do Tabaco e muitos sindicatos artesãos espalhados pelo país estão consigo. Os activos militantes Azedo Gneco, Martins Santareno, António José da Silva, estão no primeiro plano socialista.
Do outro lado, estão os corticeiros rurais de Beja, alguns sindicatos da Construção Civil, Gráficos e perspectivas de trabalho nos transportes ferroviários. Os chefes da oposição sindicalista revolucionária são mais aguerridos: Os seus nomes: Alexandre Vieira, Carlos Rates, Bartolomeu Constantino, Sebastião Eugénio, Peixe, etc.
A República implantara-se com o efectivo apoio da massa operária. Os dirigentes do Partido Republicano Português prometeram, em troca desse apoio, algumas reformas (...).
Decerto que o terão feito em reuniões conjuntas com os dirigentes operários socialistas e sindicalistas revolucionárias. Sabendo-se que a orientação reformista dos socialistas portugueses se subordinava à táctica da II Internacional de tomar o parlamento como elemento essencial da luta operária contra o sistema capitalista, pode-se admitir que entre socialistas e republicanos se acordara num compromisso de estreita colaboração partidária.
Por seu turno, os sindicalistas revolucionários, fiéis ao seu “apoliticismo”, deverão ter-se comprometido à prestação dum apoio, condicionado pela sua concepção ideológica e orientação de luta independente.
Sem dúvida, os republicanos iriam, após o seu triunfo, explorar a falta de unidade operária, a diferença de métodos de luta entre socialistas e sindicalistas revolucionários e, mais do que tudo isto, a ausência duma justa consciência revolucionária do proletariado.
Ainda não iam decorridos dois meses, já o primeiro sinal de reacção do lado operário se manifestava com a declaração da primeira greve parcelar (Corticeiros de Almada). Este facto tornou-se um verdadeiro rastilho. Dentro em pouco, outras classes se movimentavam, alternando-se os seus resultados com vitórias e derrotas.
Estas greves eram promovidas e orientadas pelos sindicatos revolucionários. A rede dos seus sindicatos ia engrossando. A influência dos sindicalistas revolucionários crescia, enquanto a influência dos socialistas ia perdendo terreno com a passagem de alguns dos seus sindicatos para o lado dos seus oposicionistas. Ao mesmo tempo, os sindicalistas revolucionários criavam novos sindicatos, trazendo à luta, deste modo, muitos milhares de trabalhadores organizados.
As Constituintes tinham no seu seio, pelo menos, dois deputados socialistas – Ladislau Batalha e António José da Silva. O desespero destes, ao verem a influência do seu partido sobre as massas operárias em progressivo declínio, levava-os a lamentosas intervenções parlamentares, devido à falta de cumprimento das demagógicas promessas produzidas pelos republicanos, antes da derrocada monárquica.
O certo é que a República não afectara os interesses dos grandes proprietários agrícolas, nem tão-pouco os da banca e da grande indústria. Os capitalistas (...) tinham, em boa parte aderido ao Partido Republicano Português. Esta decisão (...) é que fundamentalmente pesava no comportamento e acção dos órgãos (...) da República.
A República significava o prolongamento do domínio da classe capitalista, o seu reforço, e nunca o seu desaparecimento.
A principal dificuldade da grande burguesia consistia em ter a sua classe dividida ideológicamente: dum lado os republicanos; do outro, os monárquicos. Era esta dificuldade que socialistas e sindicalistas não exploravam convenientemente.
Para o conseguirem, precisavam de unir todas as suas forças, ligá-las a um comando único e combinar a acção (...) no Parlamento com a luta dos sindicatos (...). Quer dum lado quer do outro, ligava-se mais importância aos princípios (...) dos respectivos movimentos que à realidade objectiva e ao interesse global da classe operária.
Apesar de o interesse dos capitalistas indicar uma adesão total à República, havia contudo uma parte que ficara fiel ao regime democrático e patenteava a sua discordância com incursões armadas ao longo da fronteira norte do país.
Esta hostilidade não era eficazmente combatida pelo Governo (...) o que gerava um descontentamento crescente entre as camadas populares da pequena burguesia e do proletariado. Mas o que fundamentalmente indispunha a classe operária contra o Governo da República era a falta de cumprimento das suas promessas (...).
A concessão feita aos operários arsenalistas da jornada diária de 8 horas fora estabelecida com o fim de atrair (...) a simpatia daquela classe. O estabelecimento oficial do direito à greve (...) era contrabalançada pela garantia oficial do direito ao trabalho.
A lei que suprimia as congregações religiosas, o direito ao divórcio e a laicização do ensino escolar, a lei da separação do Estado e da Igreja, etc., eram concessões aparatosas e ilusórias e não traziam encargos financeiros para a classe dos capitalistas no poder.
Era esta a situação de desequilíbrio entre as classes, agravada pela repressão governamental sobre as greves anteriores, quando, em meio de 1911, os sindicalistas revolucionários lançam a greve geral, avantajando-se assim aos socialistas, a quem acusavam de falsear os interesses da classe operária com a sua estéril actuação parlamentar.
OS sindicalistas, além de inscreverem no caderno das suas reivindicações o cumprimento dos acordos anteriores ao triunfo da República (...) reclamavam a jornada diária das 8 horas e, hábilmente, exigiam a liquidação rápida das incursões monárquicas (...).
O Governo, contando com o pacifismo dos (...) socialistas, acusa os sindicatos de perturbação da sua acção (...).
Envereda então pelo caminho da repressão violenta, assalta e encerra a Casa Sindical, depois de haver prendido ali algumas centenas (...) entre os quais os dirigentes do Movimento Grevista.
A greve fora esmagada e muitas dezenas de trabalhadores (...) deportados para o Forte da Graça, em Elvas. A acção repressiva do Governo não conseguia, porém, abafar o sentido de hostilidade das massas populares. O Governo (...) meses depois fazia algumas concessões e, (...) libertou os presos.
A tensão entre os socialistas, cujos métodos de luta reformista culminavam com a falência da sua exploração oportunista do parlamento, e os sindicalistas revolucionários, cuja acção combativa, embora esquerdista, era mais ajustada ao interesse das lutas (...) começou a tomar (...) o carácter de luta pela hegemonia do Movimento Operário.
Até 1912, data em que se realizou o Congresso Sindical em Tomar, (...) todo o tempo foi gasto pelos dois grupos em conflito a definir posições.
Era evidente que o papel dos socialistas, como partido dirigente da classe operária, se reduzia (...). A sua orientação reformista tinha feito uma experiência e os resultados tinham sido quase inteiramente negativos. O Congresso Sindical de Tomar corroborara (...) esses resultados e pronunciou-se, em maioria esmagadora, pela orientação sindical revolucionária.
Os socialistas com os poucos sindicatos que restavam em seu controlo e com todo o movimento cooperativista nas suas mãos, nunca mais voltariam a comandar o proletariado. A fidelidade aos princípios da II Internacional jamais seria posta de parte.
A República continuava a considerar-se no exclusivo interesse da burguesia capitalista. Até começos de 1913, só os sindicalistas revolucionários estiveram na brecha contra a classe dominante.
O seu esquerdismo levou-os a isolar-se dos outros sectores interessados em alterar o rumo do regime republicano em favor das massas populares. Este sectarismo das ideias dos militantes (...) e a falsa visão política dos dirigentes em breve causariam os seus efeitos.
Em 27 de Abril de 1913, dá-se uma intentona “putchista”, dirigida por Machado dos Santos, o homem que a República classificara de seu primeiro herói. Os sindicalistas revolucionários prestam efectivo apoio a esse movimento, patenteando (...) o seu oportunismo de esquerda. Por outro lado, a sua ligação com um grupo de oposição ao Governo punha em foco a incapacidade de o Movimento Sindical soldar a si todas as classes laboriosas e da pequena produção (...).
Esta insuficiência prática de ligar a si as massas derivava da errada concepção estratégica em que se baseava o movimento sindical revolucionário.
O proletariado ressentia-se da falta dum Partido que se tornasse o dirigente da luta revolucionária, e era isto mesmo que o tornava presa de qualquer grupo de aventureiros, exploradores desta suprema dificuldade.
O Governo, em fins de 1914, depois de ter esmagado algumas intentonas de Machado dos Santos (...) deportou-o (...). Entretanto, os sindicalistas revolucionários, no terreno das lutas (...) operárias, não cesssaram de levar as classes à luta, fortalecendo, deste modo, a sua posição de dirigentes únicos da classe operária.
O mundo capitalista caminhava para (...) a maior crise (...). Os antagonismos imperialistas geravam um ambiente propício à guerra. O atentado de Serajevo serviu de pretexto (...) em Julho de 1914.
Foi no meio de um clima social bastante convulsionado (...) em Setembro de 1914, que os sindicalistas revolucionários realizaram o seu primeiro Congresso, de onde devia sair a União Operária Nacional.
O “abrilismo” tinha causado muitas baixas no Movimento Operário. Alguns militantes sindicalistas revolucionários (...) haviam-se engolfado nos “putches” de Machado dos Santos e abandonado completamente a luta sindical. Porém, estas deserções tinham sido compensadas com a vinda à luta de novos elementos. O laboratório experimental da vida sindical (...) preparava com rapidez novos quadros. (...)
A guerra eclodira em Portugal, à parte os que lhe eram hostis, começavam a desenhar-se duas correntes de simpatia (...): a aliadófila e a da “entente cordiale”. A primeira era, de longe, a mais numerosa e ostensiva. A diplomacia inglesa começara a trabalhar (...).
A propaganda aliadófila fazia recair sobre a Alemanha as responsabilidades do conflito (...). A declaração de Kropotkine, um dos mais destacados teóricos do anarquismo, em favor da intervenção ao lado dos imperialistas aliados devia (...) ter tocado muita gente (...).
A própria posição traidora dos socialistas da II Internacional, estabelecendo o princípio da defesa da burguesia nacional contra o de “guerra à guerra”, proclamado anteriormente, era (...) um dos maiores apoios prestados aos imperialistas ocidentais.
Pois bem: contra esta corrente transbordante de simpatia (...) para com o bando imperialista aliado, o Congresso Sindicalista de Tomar, proclama-se contra a intervenção de Portugal na guerra. Esta justa decisão causara muito desagrado nos sectores partidários da Inglaterra.
A posição justa do Congresso encontrara a oposição de alguns (...) que alguns que agiam em torno do Movimento Sindical, os quais vieram a público manifestar-se pela intervenção: Carlos Rates, Manuel Ribeiro e José Augusto Machado (anarquizantes) e José Augusto Machado (socialista) eram os mais destacados.
Ao lado da União Operária Nacional enfileiravam os “Abrilistas” (...) e, (...) os “Unionistas” de Brito Camacho.
A oposição ao Partido Democrático tornara-se muito popular. Uma parte da grande burguesia agrária e bancária, ainda fiel à monarquia, aproveita-se deste sentimento hostil e provoca o “Movimento das Espadas” (...) declarando a sua incompatibilidade com o curso dado à política pelo Partido Democrático.
A crise abre-se, o PR encerra o Parlamento e entrega ao general Pimenta de Castro o encargo de formar ministério. Este declara governar com a lei, põe em liberdade os presos “abrilistas” e sindicalistas e promove, imediatamente, o julgamento e absolvição dum grupo de indivíduos acusados de ter atentado (...) contra a existência de Afonso Costa. (...)
A reacção de Pimenta de Castro viera provar que (...) o proletariado era uma força social que os políticos da burguesia utilizavam para os seus fins. A classe operária não era dona de si mesma. O primitivismo ideológico do Sindicalismo dificultara à classe operária criar um Partido revolucionário que a fizesse, de modo efectivo, intervir nas lutas políticas do País, a fim de, crescentemente, impor os seus fins de classe revolucionária. Esta situação ia demorar a transformar-se.
O Congresso Sindical de Tomar criara a União Operária Sindical. Data daí a introdução das uniões dos sindicatos. Além das decisões de não-intervenção, o congresso ratifica a sua adesão aos princípios da “Carta de Amiens”.
A guerra começara a fazer sentir os seus efeitos no nosso nível de vida. A União Operária Nacional (...) declara (...) a sua decisão de levar as classes à greve de reajustamento de salários. A proporção desta dupla corrida é favorável aos detentores da riqueza e dos utensílios de trabalho.
Em Maio de 1915, Pimenta de Castro é apeado por um golpe armado. Há gente do povo que em Fevereiro apoiara (...) e que participa agora contra ele, de armas na mão, ao lado dos democráticos.
É confuso tudo isto (...) dá a medida da justa falta de mentalidade política. Este golpe foi auxiliado pela Inglaterra e dá começo, com Norton de Matos no Ministério da Guerra, a uma efectiva política de intervenção.
Em fins de 1915, cria-se a Juventude Sindicalista. O seu órgão de imprensa é o “Despertar”. Os seus princípios são os de Amiens.. A sua aparição coincide com a altura em que quase toda a imprensa burguesa (...) se mostra inclinada com a participação de Portugal na guerra. Já nessa data haviam sido enviados para as Colónias alguns barcos carregados de tropas (...).
É a juventude que toma a cabeça da luta contra a guerra (...). Os manifestos nos quartéis convidando os jovens à deserção circulavam com profusão. O governo reprime (...). Não há, entretanto, uma concepção de organização que se combine com toda esta acção directa de agitação. A orientação política da juventude tinha a mesma marca da União Operária Nacional. Por isto mesmo, este trabalho (...) não produzia resultados práticos.
Gritava-se nos arraiais intervencionistas que as Colónias (...) estavam em perigo de ser (...) tomadas pelos alemães. Só a entrada de Portugal na guerra podia pôr termo aos planos (...), dizia-se. Se a Inglaterra, ainda em 1912, tinha acordado com os imperialistas alemães a partilha das Colónias (...) agora, afirmava-se, só o esforço de Portugal na guerra, ao lado da Inglaterra, salvaria as Colónias (...).
Em Março de 1916, a oposição fora dominada e o Parlamento declarara guerra à Alemanha. Servia-lhe de pretexto um recontro (...) entre tropas portuguesas e alemãs no Sul de Angola (...). Uma boa parte (...) do povo continua contra a guerra.
A burguesia que exportava produtos, os oportunistas do comércio e todos os que duma maneira ou de outra lucravam com a guerra, eram seus partidários. (...).
Uma coisa se verificava: era que o proletariado, sem um guia seguro, andava ao sabor do primeiro aventureiro político que lhe tocasse o sentimento. A sua vanguarda seguia o mesmo destino.
Em Dezembro de 1917, Sidónio Pais, apoiado num grupo de oficiais não-intervencionistas, na classe operária, nos “Abrilistas” e na indiferença e no sentimento antibelicista da maioria do povo, lança um “putsch”. Este golpe foi bem sucedido.
Sidónio Pais empreende demagógicamente, uma nova era de “messianismo político”. Era a “República Nova” quem ia resolver os problemas fundamentais da Nação.
É evidente que quem mais contribuiu para o ataque à política de colaboração imperialista do governo português, com a sua efectiva entrada na guerra, foram a União Operária Nacional e a Juventude Sindicalista.
A larga agitação e as numerosas manifestações de rua (...) criaram nas massas populares (...) profunda hostilidade contra a entrada de Portugal no conflito.
Este ambiente precisava de apoio político, dum partido revolucionário da classe operária que reunisse à sua volta esse descontentamento e o transformasse num acto político popular insurreccional, do qual resultassem o derrubamento do governo dos capitalistas e a sua substituição por um governo de coligação popular.
Porém, a vanguarda proletária existente não tinha uma justa consciência do seu papel. A sua estruturação “apolítica” e as suas tácticas de combate mais uma vez patenteavam a sua incapacidade de colocarem a classe operária como força dirigente e independente.
Na realidade, o nosso atraso industrial, a ignorância do marxismo e o baixo nível de cultura geral (...), tolhiam o passo ao proletariado para mais largos objectivos políticos.
Esta situação de classe inferiorizada politicamente era e continuava sendo aproveitada pelos oportunistas de todos os matizes políticos da burguesia. A experiência de 1910, a parceria dos sindicalistas como os “Abrilistas” e a sua benevolência para com Pimenta de Castro, nada disto havia servido para eliminar a linha geral do oportunismo de esquerda que continuava preparada para receber qualquer cavaleiro que oportunamente a quisesse montar.
Sidónio Pais apreendeu bem a situação. Com um plano, cuja demagogia ocultava bem a sua finalidade reaccionária, reuniu, duma assentada, a participação dos sindicalistas revolucionários e a dos “Abrilistas”.
Sem este valioso apoio, Sidónio não teria triunfado. Mais, não teria sequer tentado o golpe. A entrada de Portugal na guerra teve como consequência imediata um agravamento orçamental. Os créditos que a Inglaterra nos fornecia, e que não tinham uma aplicação útil, teriam de ser pagos por quem deles não colhia benefícios: o povo. A moeda desvalorizava-se e este facto repercutia-se no custo de vida, que começara a subir.
Estes e outros factos ruinosos (...) despertavam cada vez mais o profundo sentimento de hostilidade para com o governo. A luta de classes reacendera-se (...). Era evidente que tudo isto contribuía para o enfraquecimento do regime capitalista.
Não havendo um Partido revolucionário que fosse capaz de ligar ao proletariado as massas de todos os sectores da vida nacional, incompatibilizadas com a política do governo (...), não só se não podia esgotar a burguesia intervencionista, como era impossível evitar o golpe da burguesia mais reaccionária. Foi o conjunto da situação existente que gerou o sidonismo.
Tem-se atribuído ao sidonismo o papel de percursor do fascismo. Conquanto a sua política não tivesse tido tempo para se desenvolver e definir completamente, o modo como soube aproveitar-se da falta de justa consciência política do proletariado, a sua demagogia inicial, a liquidação do sistema parlamentar democrático, a censura imposta à imprensa, a tendência para a centralização de poderes, etc., parecem confirmar aquela opinião.
Na realidade, o fascismo nos outros países, bem como no nosso, depois de 1926, deu os seus primeiros passos pondo em prática medidas idênticas. Pode-se admitir que a experiência sidónica tivesse sido estudada pelos antiliberais da burguesia de outros países e, particularmente, pela do nosso.
Os sindicalistas revolucionários é que, sem dúvida, não a estudaram. E se o fizeram, concluíram, sómente, que um novo Costa, de pistola na mão, nos libertaria de qualquer ditador, de qualquer aventureiro que nos pretendesse usurpar a nossa liberdadezinha. Esqueceram-se de que a reacção não dormia e que esta se havia de precaver contra os futuros Costas, matadores de Reis e presidentes.
Sidónio Pais não fora ao poder para resolver os problemas imediatos dos trabalhadores. Sidónio fora até lá por indicação da burguesia.
Sidónio Pais, cujo primeiro cuidado fora o de tomar conta das alavancas de comando do Exército, não se esqueceu, porém, de criar um aparelho especial de repressão política (...). A par destas medidas reaccionárias, rearmou a Polícia de Segurança Pública e transferiu para a capital as unidades militares da sua maior confiança.
A fim de se certificar do poder da sua armadura repressiva, provocou, dois meses depois da sua ascensão ao poder, uma “pavorosa” no seio da Marinha de Guerra. Os marinheiros nela envolvidos foram esmagados e muitos deles deportados para África.
O conjunto repressivo funcionara excelentemente e ele enchera-se de confiança para agir à vontade.
A prisão dos adversários mais irrequietos foi o começo da sua obra de “saneamento”. Dentro em pouco, verificava-se que a promessa de não ser enviada mais gente para a guerra não era cumprida. As reclamações dos trabalhadores não eram atendidas. Medidas de benefício popular não surgiam. Os trabalhadores expiavam as culpas da incapacidade política dos seus dirigentes.
Em Março de 1918 (...) a classe operária irrompe para a luta. Por virtude dum decreto que cerceava aos ferroviários algumas regalias (...) declararam a greve geral (...). Machado dos Santos (...) sai do Governo (...). Sidónio (...) cedeu.
Mas ele não viera ao Poder para fracassar frente aos trabalhadores. Tratou de se preparar com vista ao futuro.
Pouco tempo depois, são as corporações marítimas do porto de Lisboa que (...) procuram, por meio da greve, melhorar económicamente. A despeito duma resistência de três meses (...) o resultado foi uma derrota completa.
A este insucesso dos trabalhadores ligaram-se outros.
Sidónio Pais, que se havia desfeito dos elementos mais liberais (...) atulhando as prisões com milhares de adversários, tinha (...) contra si sómente os trabalhadores mais conscientes.
Em Julho de 1918, começou uma verdadeira ofensiva contra os salários dos trabalhadores do Estado. Muito embora o custo de vida se agravasse (...) reduziu os salários (...).
A reacção mais potente (...) deu-se no dia 18 de Novembro. A União Operária Nacional declara a greve geral política. A sua palavra de ordem central é: Abaixo o Sidónio.
A luta estendeu-se (...) deram-se recontros (...). Onde a luta tomou um verdadeiro carácter insurreccional foi (...) no Alentejo, com a participação dos trabalhadores assalariados à frente.
A greve terminou com um fracasso completo. Muitos rurais alentejanos foram deportados para Luanda. O proletariado não conseguiu chamar a si a totalidade dos camponeses e as camadas pequeno-burgueses hostis ao sidonismo. O seu esmagamento não surpreendeu. (...)
Quando Sidónio foi assassinado, em 14 de Dezembro de 1918, pelas prisões de África e do país haviam passado cerca de 20 mil pessoas (...)
A morte de Sidónio abalou profundamente o regime. O oficial do exército e advogado Tamagnini Barbosa era quem se esforçara na presidência do Ministério por prolongar o sidonismo. Mas o fim da guerra e a insistência restauracionista dos monárquicos apressam a crise. As manifestações populares contra a continuação do regime sidonista crescem. A barreira repressiva fende-se e deixa passar em tumulto a inundação libertadora.
A reacção monárquica estava iminente e Tamagnini foi forçado a transigir com o sentimento liberal do povo. As prisões foram abertas, a censura abolida e, como medida de segurança para a República, faziam-se substituições de comandos no Exército e na Marinha.
Os monárquicos, compreendendo que a oportunidade se lhes escapava, precipitaram em 19 de Janeiro de 1919, a restauração monárquica no Porto.
Tamagnini manda imediatamente avançar forças leais para o Norte e permite a organização de batalhões voluntários em Lisboa. Dias depois, os monárquicos, em Lisboa, secundam a reacção do Norte e instalam-se em Monsanto, de onde exigem a rendição do Governo.
A reacção monárquica foi esmagada pela intervenção decidida e efectiva das massas populares. Instintivamente, vendo o perigo, todos os dirigentes das organizações liberais e operárias se uniram no mesmo objectivo de guerra à monarquia e fizeram avançar as suas formações para o combate. A República foi salva. A demagogia democrática ia novamente imperar.
A paralisação das indústrias de produção de guerra e a desmobilização, que o fim da guerra tinha ocasionado, motivaram o aparecimento dum grande exército de desocupados que passavam a combater numa nova frente contra o seu inimigo de sempre – o capitalismo.
A burguesia portuguesa tinha este grave problema para resolver. Os meios de que dispunha não eram muito eficientes. A guerra trouxera-lhes encargos e as “compensações” constituíam ainda um fardo mais pesado. Dívidas a subirem de volume e os efeitos ruinosos da estagnação de um certo progresso industrial, útil enquanto decorreu a guerra.
A República estava salva mas os problemas económicos do país tinham-se agravado. Este estado de coisas equivalia a um aumento de crise revolucionária.
O Governo, com o coronel António Maria Baptista à sua frente, lança mão dos socialistas, a quem entrega a pasta do Trabalho.
Por seu turno, a União Operária Nacional concentra todas as suas atenções no modo de lançar as classes na luta pelas suas reivindicações económicas e ameaça o Governo de desencadear a greve geral nacional pela conquista da jornada das 8 horas de trabalho.
Os socialistas, fiéis ao seu oportunismo político, encabeçam no Governo e no Parlamento a satisfação desta reclamação. O Governo cede e a lei é votada e aprovada. Consumara-se a conquista, a mais cara aspiração dos trabalhadores industriais e empregados do comércio. Contudo, os trabalhadores agrícolas ainda hoje trabalham de sol a sol.
O Governo julgara deter as disposições de luta da União Operária nacional publicando o decreto da jornada diária de 8 horas. Mas não; as greves sucediam-se e os protestos contra a falta de medidas oficiais que eliminassem o desemprego cresciam e tomavam corpo em manifestações operárias em que se empunhavam bandeiras pretas e outras com dísticos de: pão e trabalho. O Governo (...) resolveu votar um crédito de emergência, a fim de obviar o desemprego.
Foi a União Operária Nacional quem preparou e conduziu a jornada pela eliminação do desemprego, pois entre sindicalistas e socialistas não se havia préviamente estabelecido qualquer acordo ou compromisso de luta.
Não obstante, os socialistas, quer no Parlamento, quer no Governo, apressaram a decisão governamental. São ainda os socialistas que propõem a abertura dos trabalhos do Parque Eduardo VII, dos bairros da Ajuda e do Arco do Cego, com o duplo fim de empregarem alguns milhares de trabalhadores e da produção de casas baratas para a população operária.
Apesar disto, os trabalhadores apercebiam-se de que os socialistas tinham em vista a reconstituição do seu antigo prestígio e não correspondiam aos seus apelos postos a circular através do seu órgão, “O Combate”.
A burguesia utilizava o concurso dos socialistas como um elemento amortecedor entre si e o proletariado revolucionário. Mas era evidente que o limite das suas concessões estava à vista e os socialistas não tinham outra alternativa: ou seguir o proletariado revolucionário, ou seguir a burguesia.
O futuro provou que a classe burguesa lhes era mais querida.
(continua)
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