VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

21/04/26 13:49:19Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 12[3]45678 ]
Subject: Na casa, em Lisboa


Author:
Judite de Sousa
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 14/06/05 14:00:34
In reply to: Secretariado do Comité Central do PCP 's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29

Na casa, em Lisboa

Judite de Sousa, JN, 14/06/05*

Foi a última entrevista. 6 de Março de 2001. Encontro-me com Álvaro Cunhal na sua casa, nos Olivais, em Lisboa. Pela primeira vez, o líder histórico do PCP abre as portas do seu espaço mais privado. Não esperava tal abertura e, por isso, guardo intensamente esses momentos.



Aproximavam-se os 80 anos do Partido Comunista Português. Já há muito tempo que Álvaro Cunhal estava afastado das lides partidárias. A passagem de testemunho tinha acontecido em 1992, quando Carlos Carvalhas foi escolhido como sucessor. No entanto, Cunhal mantinha-se vigilante e todos sabíamos que nada do que se passava no país e no partido lhe era indiferente.



Na minha agenda, tinha assinalado o aniversário do PCP. Algumas semanas antes, telefonei ao António Rodrigues, o assessor de Imprensa da Soeiro Pereira Gomes. Disse-lhe que gostaria de ter um testemunho de Álvaro Cunhal sobre os 80 anos do partido. O António, sempre afável e disponível, respondeu que iria fazer o contacto, não podendo prometer nada. Era compreensível. Álvaro Cunhal estava com 87 anos, os seus problemas de visão tinham-se agravado e já raramente o víamos em público.



Dias depois, estava no meu gabinete, ainda no edifício da 5 de Outubro, numa reunião de preparação do próximo programa, quando toca o telemóvel. Do outro lado da linha, estava Álvaro Cunhal. Expliquei-lhe o que pretendia. Ele disse que sim. Estava disponível para gravar o testemunho. Perguntei-lhe, então, quando e onde é que nos poderíamos encontrar. Para minha surpresa, Álvaro Cunhal dá-me a morada da sua casa e diz-me que é lá que me vai receber.



No dia e hora combinados, sigo para os Olivais, com dois operadores de câmara. Estacionámos à porta do prédio, um edifício de vários andares, habitado por famílias de classe média, gente de trabalho, nada de luxos. Uma criança com os seus 7 anos vem ter connosco, curiosa por ver saírem da mala do carro câmaras, cabos e tripés. O menino era vizinho de Álvaro Cunhal e é ele que segue connosco no elevador até ao sétimo andar. Na sala, espera-me Álvaro Cunhal. Encontrei-o já muito frágil fisicamente, mas mantendo a lucidez intelectual de sempre. Tinha à minha frente, na pequena sala da sua casa, um homem simples, que levava uma vida simples, com algumas memórias de família e pouco mais.



Sentámo-nos numa mesa de madeira de pinho. Ele de costas para a parede. Eu com o fundo da sala, discretamente. Senti que não devia " invadir " aquele espaço porque iria trair a confiança que em mim estava a ser depositada. Provavelmente, nunca nenhum jornalista ali tinha estado e mesmo os dirigentes comunistas mais próximos de Cunhal talvez nunca tivessem tido o privilégio de ser visita de sua casa. E eu ali estava, inquirindo-o sobre o aniversário do PCP, mas procurando igualmente saber o que pensava Cunhal dos renovadores que, no congresso do Parque das Nações, tinham consumado a ruptura com a linha oficial do partido. O que pensaria Cunhal de homens que lhe tinham sido tão próximos, como Carlos Brito, com histórias de vida semelhantes à sua, construídas nos difíceis anos da clandestinidade e que agora estavam a seguir outros caminhos ? Álvaro Cunhal respondeu, inabalável nas suas convicções.



Coerência. Esta é a palavra mais utilizada quando se fala de Álvaro Cunhal. Coerência por se ter mantido fiel aos princípios do marxismo-leninismo, apesar das encruzilhadas da História. Coerência porque o seu discurso político-ideológico era em tudo igual à vida que sempre levou e que estava bem evidente perante o olhar da jornalista...naquele dia de Março de 2001.

* Jornalista da RTP

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
Nunca ninguém te apanhou desprevenidoCatarina Pires14/06/05 14:04:24


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.