| Subject: Na casa, em Lisboa |
Author:
Judite de Sousa
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Date Posted: 14/06/05 14:00:34
In reply to:
Secretariado do Comité Central do PCP
's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29
Na casa, em Lisboa
Judite de Sousa, JN, 14/06/05*
Foi a última entrevista. 6 de Março de 2001. Encontro-me com Álvaro Cunhal na sua casa, nos Olivais, em Lisboa. Pela primeira vez, o líder histórico do PCP abre as portas do seu espaço mais privado. Não esperava tal abertura e, por isso, guardo intensamente esses momentos.
Aproximavam-se os 80 anos do Partido Comunista Português. Já há muito tempo que Álvaro Cunhal estava afastado das lides partidárias. A passagem de testemunho tinha acontecido em 1992, quando Carlos Carvalhas foi escolhido como sucessor. No entanto, Cunhal mantinha-se vigilante e todos sabíamos que nada do que se passava no país e no partido lhe era indiferente.
Na minha agenda, tinha assinalado o aniversário do PCP. Algumas semanas antes, telefonei ao António Rodrigues, o assessor de Imprensa da Soeiro Pereira Gomes. Disse-lhe que gostaria de ter um testemunho de Álvaro Cunhal sobre os 80 anos do partido. O António, sempre afável e disponível, respondeu que iria fazer o contacto, não podendo prometer nada. Era compreensível. Álvaro Cunhal estava com 87 anos, os seus problemas de visão tinham-se agravado e já raramente o víamos em público.
Dias depois, estava no meu gabinete, ainda no edifício da 5 de Outubro, numa reunião de preparação do próximo programa, quando toca o telemóvel. Do outro lado da linha, estava Álvaro Cunhal. Expliquei-lhe o que pretendia. Ele disse que sim. Estava disponível para gravar o testemunho. Perguntei-lhe, então, quando e onde é que nos poderíamos encontrar. Para minha surpresa, Álvaro Cunhal dá-me a morada da sua casa e diz-me que é lá que me vai receber.
No dia e hora combinados, sigo para os Olivais, com dois operadores de câmara. Estacionámos à porta do prédio, um edifício de vários andares, habitado por famílias de classe média, gente de trabalho, nada de luxos. Uma criança com os seus 7 anos vem ter connosco, curiosa por ver saírem da mala do carro câmaras, cabos e tripés. O menino era vizinho de Álvaro Cunhal e é ele que segue connosco no elevador até ao sétimo andar. Na sala, espera-me Álvaro Cunhal. Encontrei-o já muito frágil fisicamente, mas mantendo a lucidez intelectual de sempre. Tinha à minha frente, na pequena sala da sua casa, um homem simples, que levava uma vida simples, com algumas memórias de família e pouco mais.
Sentámo-nos numa mesa de madeira de pinho. Ele de costas para a parede. Eu com o fundo da sala, discretamente. Senti que não devia " invadir " aquele espaço porque iria trair a confiança que em mim estava a ser depositada. Provavelmente, nunca nenhum jornalista ali tinha estado e mesmo os dirigentes comunistas mais próximos de Cunhal talvez nunca tivessem tido o privilégio de ser visita de sua casa. E eu ali estava, inquirindo-o sobre o aniversário do PCP, mas procurando igualmente saber o que pensava Cunhal dos renovadores que, no congresso do Parque das Nações, tinham consumado a ruptura com a linha oficial do partido. O que pensaria Cunhal de homens que lhe tinham sido tão próximos, como Carlos Brito, com histórias de vida semelhantes à sua, construídas nos difíceis anos da clandestinidade e que agora estavam a seguir outros caminhos ? Álvaro Cunhal respondeu, inabalável nas suas convicções.
Coerência. Esta é a palavra mais utilizada quando se fala de Álvaro Cunhal. Coerência por se ter mantido fiel aos princípios do marxismo-leninismo, apesar das encruzilhadas da História. Coerência porque o seu discurso político-ideológico era em tudo igual à vida que sempre levou e que estava bem evidente perante o olhar da jornalista...naquele dia de Março de 2001.
* Jornalista da RTP
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