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Ruben de Carvalho, DN, 14/06/05
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Date Posted: 14/06/05 17:32:36
In reply to:
Secretariado do Comité Central do PCP
's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29
Depoimento
A dimensão da coerência
Ruben de Carvalho, DN, 14/06/05
O traço justamente mais sublinhado sobre Álvaro Cunhal é o da firme coerência, a determinada fidelidade às suas convicções de sempre.
É de uma visão justa, mas que faz correr o risco de um perturbante equívoco. Na verdade, essa coerência, levada às últimas consequências de empenho e sacrifício, não relevava de uma personalidade unidemensional, de um universo intelectual limitado ou obcecado, antes era o resultado do pensamento e do coração de um ser ricamente contraditório, o resultado de opções tanto mais ricas quanto viviam de um diálogo interior de uma enorme riqueza.
O pensamento político de Cunhal é sublinhado como uma pura obediência teórica marxisma-leninista e é inquestionável que Cunhal era um rigoroso conhecedor de Marx e Lénine. Mas nada se compreenderá se ficarmos por aqui.
Esta assumida matriz ideológica não se traduzia (como durante décadas foi marca universal do pensamento comunista) na citação convocada a argumento de autoridade, na repetição mecânica de fórmulas ou análises cuja riqueza antes residia na adequação à sua contemporaneidade. Era na rigorosa e constante preocupação com a realidade, na atenção ao quotidiano e no estudo sistemático de dados que Cunhal revelava e ganhava a sua autoridade e eficácia.
Esta vertente teórica dele não fazia, contudo, um frio intelectual de gabinete. A par e passo, havia o observador com um profundo sentido prático das coisas, sempre virada a compreender o Homem, a integrar tal compreensão na visão e na proposta política.
Nem, por outro lado, se pense encontrarmo-nos ante o adepto da construção de esquemas e projectos frios resultado de análises falamos de um político capaz de intuições surpreendentes, que as fazia dialogar com o rigor analítico e, quantas vezes, acabavam por ser responsáveis por sínteses de espantosa fertilidade. Recorde-se, por exemplo, quanto representa de criatividade teórica e política uma ideia como a de que o futuro transformador do 25 de Abril resultaria do binómio povo-MFA e como essa criadora e aparentemente simples síntese se viu confirmada como uma evidência definidora da realidade 74-75.
Da mesma forma se poderá falar da imagem de dura intransigência com a qual se tende a emoldurar a coerência, quando se sabe da multiplicidade de interesses e talentos, de uma vida interior fina e cultivada, de uma sensibilidade estética criadora, de um conceito e prática de vida em que se integravam afectos, prazeres, alegrias e tristezas.
A surpresa que para muitos constituiu o livro "A Arte, o Artista e a Sociedade" ver-se-ia certamente ampliada quando se soubesse que uma reunião com Álvaro Cunhal podia perfeitamente terminar com uma polémica face à sua opinião de que a culinária mais apaixonante é aquela que a partir dos ingredientes utilizados cria um sabor novo e inexistente na natureza (perspectiva, de resto, inteiramente marxista!) ou que do seu conceito de exercício do cargo de secretário-geral fazia parte a concepção de dever guardar segredo, mesmo face ao partido, de aspectos pessoais da vida de um quadro, fosse questão do foro efectivo ou de uma doença grave.
O que dá grandeza à figura de Álvaro Cunhal não é qualquer cega determinação de um iluminado, um qualquer sectarismo filho de uma visão limitada do mundo. É, bem pelo contrário, a forma como um homem a quem quase tudo teria sido possível, fez a sua empenhada e exemplar opção de vida não limitando ou mutilando personalidade ou talentos, mas antes vivendo-os com humana vontade.
O que explica que recordemos Álvaro Cunhal como um grande Homem é estarmos face a alguém que lançou na vida de entrega aos outros que escolheu tudo aquilo de que a vida o dotou e tudo o que da sua própria vida justamente recebeu.
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