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Miguel Romão, A Capital, 14/06/05
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Date Posted: 14/06/05 17:47:08
In reply to:
Secretariado do Comité Central do PCP
's message, "Faleceu Álvaro Cunhal" on 14/06/05 13:39:29
Cunhal e Eugénio
Miguel Romão, A Capital, 14/06/05
Álvaro Cunhal passou pela vida como os homens descritos nos tempos vitais da poesia de Eugénio de Andrade: inteiro, indestrutível, incorruptível. Ontem, 13 de Junho, a morte de ambos fez corresponder absolutamente este destino. «Nenhum amor é estéril», escrevia Eugénio, e a vida de Cunhal assim o disse também.
Cunhal foi o Partido Comunista em Portugal, desde o tempo da organização sistemática do seu aparelho até ao fim do século XX, em que só a idade o afastou da liderança do PCP. A dedicação total, a capacidade de resistência e sacrifício e a inteligência radiosa eram reconhecidas por todos, mesmo pelos seus antagonistas políticos, que o receavam tanto pelas suas qualidades próprias como pelos seus ideais políticos.
Nos últimos anos, Cunhal passou progressivamente de actor político a exemplo moral, dentro e fora do círculo comunista, com a atenuação das limitações e a exaltação das virtudes que normalmente nestes processos se encontram.
Todavia, talvez neste caso se desencontrassem pouco o mito e o homem. Cunhal foi o sedutor, o jurista brilhante e também o resistente de anos à tortura física, um homem que poderia ter sido tudo o que quisesse dentro do Estado Novo e o rejeitou sempre. E não muitos o fariam.
Eugénio de Andrade, outro desaparecido, era o poeta que encarnava hoje Portugal, depois de Pessoa e de Sophia. Os seus versos de uma simplicidade desconcertante, com uma luz sempre matinal, onde quase se ouvia água a correr, de despertares profundos, terrestres e olhares limpos, são tão-só aquilo que corre dentro de nós - sempre que calamos o resto e esquecemos o sangue.
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