Author:
João Luís de Melo e Castro
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Date Posted: 15/06/05 20:45:20
In reply to:
João Tunes
's message, "Respeitar Cunhal" on 15/06/05 18:34:13
Não gritei "assim se vê a força do PC" porque a força do PCP estava ali diminuída pelo desaparecimento do mais ínsigne dos seus militantes; não bati palmas porque acho supinamente aberrante essa moda de bater palmas nos funerais. Curvei-me apenas perante a urna do Homem Ínsigne, do Português Ímpar, do Herói, do Humanista que foi Álvaro Cunhal e senti com profunda mágoa que uma época terminara e a minha juventude e esperança porventura também. Mas apesar de tudo a luta continua.
>Por respeito, não vou ao velório nem ao funeral.
>
>Devo-lhe isso. A sua dimensão merece a homenagem de
>não ter um punho caído no meio dos punhos fiéis na
>devoção.
>
>Devo-me isso. Pelo tempo em que o segui e tremia de
>orfandade antecipada ao lembrar-me que ele não era
>eterno. Segui-o e combati-o. Agora, respeitemo-nos,
>respeitando-nos.
>
>Ele com os seus, eu sem meus. E, no nós, não cabemos
>os dois, mesmo que cada qual na sua dimensão – a dele
>a transbordar moldura imperial, a minha em letra
>sumida de rodapé passageiro como as letrinhas
>apressadas a anunciar notícias frescas ou velhas a
>seguir no telejornal.
>
>Não retiro uma letra ao meu combate contra o seu
>modelo, a sua liderança, a sua teimosia, o seu
>egocentrismo, a sua autoridade unicista e a sua
>herança. Muito menos agora que a qualidade de vencido
>pela vida, somando-se à de vencido político, o
>banaliza na absolvição com que os portugueses tratam
>os seus mortos, auto-absolvendo-se da cobardia das
>dentadas que não lhes deram enquanto vivos.
>
>Amei-o décadas a fio.
>
>Na noite fascista, ele foi o farol do exemplo máximo
>de combatente feito homem. Não o seguir seria
>claudicar. Pior, era colaborar. E para lutar, mudar,
>respirar, só ele tinha direito a lugar no centro do
>altar. Cunhal era o Santo em cujo manto de aço se
>afiava a espada do combate contra o fascismo, a
>opressão, o obscurantismo da sotaina, terço e
>sacristia, a exploração desenfreada, a falta do ar da
>liberdade, a porrada por discordar e a caneta partida
>para não se escreverem sonhos de um qualquer amor.
>Concordo com os que dizem que foram Salazar e
>Cerejeira que nos ofereceram Cunhal. Para mais, Cunhal
>ou estava preso, ou clandestino ou exilado, distante
>sempre. Isso mais a têmpera única, fizeram o mito.
>
>Na revolução, ele foi guia na bebedeira revolucionária
>de querer empurrar a história a pontapé. Porque era o
>mais sóbrio de todos. Este abstémio a servir-nos copos
>de três em rodadas permanentes transformou o seu mito
>numa forma de carisma feita culto, distância e
>sabedoria. Além de Santo, passou a Sábio. Inacessível?
>Sempre.
>
>(Estive com ele várias vezes. Duas vezes, face to
>face, em que me senti palerma, seco de palavras e de
>capacidade de pensar, esmagado por aquele olhar de
>expectativa e só disponível para argumento grande e em
>ambas suei a bom suar na pressa de me libertar do
>magnetismo da sua companhia que me reduzia à mais
>ínfima insignificância. Numa outra vez, no meio de um
>auditório gordo de malta quente de fervor, ousei falar
>para discordar do seu discurso, sentindo o que valem
>centenas de olhos – menos os dele - virados contra o
>peito pela obscenidade da ousadia profana. Muitíssimas
>vezes fomos companheiros de balcão na Sede para
>entreter o estômago para a reunião da noite e
>confirmei como se fazia silêncio absoluto para lhe
>retribuir a distância no culto maníaco pela lonjura
>iluminada, percebendo que, afinal, chamar-lhe camarada
>era apenas exercício ritual daquele ofício entre
>desiguais.)
>
>Fui seu adversário político noutras décadas. Desde que
>entendi que ele não era Santo nem Sábio, apenas o
>Maquinista de um projecto imutável e cruel. E percebi
>que, estar onde ele estava, com ele, só fazia sentido
>para lhe dar o Poder que ele usaria, com a mesma
>determinação com que combateu o fascismo e a
>contra-revolução, mas agora para nos retirar,
>primeiro, a liberdade e depois implantar outra
>desigualdade, restringindo a fraternidade a um círculo
>de aristocracia dos devotos mais próximos. Deixou de
>me fazer sentido servir Cunhal para voltar a Caxias.
>Com Cunhal ou sem Cunhal, porque a sua herança legou
>uma versão menor. A última coisa que lhe devo, a
>herança que me deixou, foi ter-me conciliado com
>alguém que eu detestei décadas a fio – Mário Soares.
>Mas, definitivamente, fiquei com o altar vazio de
>ícones, curtindo a solidão de perda do nós. Paciência,
>não se pode ter tudo.
>
>Respeito a partilha de emoções. Mesmo se colectivas
>(ou colectivizadas). Até quando são encenadas.
>Desculpo até alguma histeria no excesso de dor para
>conferir grandeza emprestada e disfarçada de partilha.
>Por causa disso é que não vou ao velório nem ao
>funeral. Por respeito.
>
>in http://agualisa3.blogs.sapo.pt/
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