| Subject: Ainda a propósito das ideias e a realidade material... |
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Date Posted: 4/10/05 21:09:25
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's message, "Onde mora o marxismo? Resposta a PF" on 9/08/05 17:42:21
Ainda a propósito das ideias e a realidade material, uns rascunhos mal alinhavados.
1-O método
O método de investigação de Marx baseou-se numa concepção materialista e dialéctica da realidade. O processo de produção do conhecimento realizar-se-ia em duas fases. A primeira, consiste em ir do “concreto figurado (…) [passando] a abstracções cada vez mais delicadas até atingirmos as determinações mais simples”; a segunda, consiste em “caminhar em sentido contrário até se chegar finalmente de novo (…) [ao concreto], que não seria, desta vez, a representação caótica de um todo, mas uma rica totalidade de determinações e de relações numerosas”. Esta segunda fase “é claramente o método cientificamente correcto. O concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações, portanto unidade da diversidade. É por isso que ele é para o pensamento um processo de síntese, um resultado, e não um ponto de partida, apesar de ser o verdadeiro ponto de partida e, portanto, igualmente o ponto de partida da observação imediata e da representação”.
O abstracto designa um conceito produzido pelo método da abstracção, que consiste em extrair da realidade perceptível — como representação mental — uma parte ou aspecto específico, eliminando as características não essenciais e preservando a característica significativa. O abstracto, portanto, é um produto do pensamento, uma representação mental de um elemento isolado da realidade empírica, tal como ela se reflecte directamente no pensamento. Constitui uma fase elementar do conhecimento, mas não é ainda o conhecimento, pois este não se reduz à representação de um ou de diversos aspectos dispersos da realidade. O processo de produção do conhecimento visa a apropriação cognitiva do concreto, isto é, do objecto real como conjunto de componentes estruturados e inter-relacionados de modo definido.
O concreto representa o real, a totalidade existente como síntese de muitos elementos inter-relacionados, ou de muitas determinações, mas não constitui uma categoria da realidade empírica, permanecendo uma categoria do pensamento. Ao conceber o concreto como categoria do pensamento, Marx parece seguir Hegel, para quem “... a ideia é essencialmente concreta, visto ser a unidade de distintas determinações”. Existe, todavia, uma diferença essencial: para Hegel, o real situa-se no plano das ideias, sendo o empírico apenas aparência ou fenómeno, enquanto para Marx o real é o empírico, o mundo material, e as ideias o seu reflexo no pensamento. O concreto, enquanto categoria do pensamento, constitui somente o modo pelo qual o pensamento reproduz o real como ele é, como uma totalidade coerente de elementos estruturados e em inter-relação. Deste modo, a totalidade real, como integração dos seus componentes materiais, é a realidade empírica, ao passo que o concreto é apenas a sua reconstituição pelo pensamento.
Marx apresenta o conceito de concreto com duas significações essenciais distintas. A primeira, que podemos denominar concreto real, designa o ponto de partida do processo do conhecimento; a segunda, que denominamos concreto pensado, designa o resultado do processo de produção do conhecimento. O concreto real, por seu lado, deve ser entendido de duas formas: por um lado, como representação da realidade material, ou o mundo empírico realmente existente independentemente do pensamento; por outro lado, como representação do que constitui o ponto de partida do processo de produção do conhecimento, isto é, a sua representação mental, expressão da percepção imediata da realidade através dos sentidos, mas ainda representação caótica do todo. Uma denominação adequada da representação mental do concreto real, captada directamente pelos sentidos como aglomerado caótico e não como totalidade estruturada, seria a de concreto sensorial ou de concreto representado.
O concreto pensado, por seu lado, é o concreto como produto do processo de produção do conhecimento, elaborado através de processos de sínteses e de agregações, em que as diversas partes significativas da realidade são combinadas numa totalidade estruturada de modo dinâmico e definido. As partes da realidade cuja síntese constitui o concreto pensado são as partes apropriadas cognitivamente do concreto real, isto é, elaboradas pelo pensamento a partir do concreto sensorial, na forma de conceitos ou abstracções simples, isoladas e extraídas do todo caótico de que partiu e reduzidas às suas expressões elementares. As abstracções, portanto, constituem a matéria-prima necessária para a produção do conhecimento, representando os componentes significativos do real objecto do conhecimento. O seu agrupamento num conjunto, todavia, não constitui uma reconstituição coerente e estruturada do todo, mas apenas a representação dum conjunto de elementos discretos, dispersos e desconexos. Não constitui, por isso, conhecimento do concreto real, pois não o apresenta como um todo coerente internamente estruturado e não identifica as características do seu desenvolvimento.
2-A produção do conhecimento
O processo de produção do conhecimento, pelo qual se chega à apropriação cognitiva do real, consiste, em primeiro lugar, na elaboração de abstracções ou conceitos, a partir do concreto representado ou concreto sensorial; e, em segundo lugar, na reconstituição do real pela estruturação daqueles conceitos numa totalidade coerente, o concreto pensado. O processo parte do concreto representado ou concreto sensorial, que constitui apenas a etapa mental inicial do processo de produção do conhecimento, por ser o reflexo, mediado pelos sentidos, do mundo material na mente. Um tal reflexo não é uma relação entre sujeito e objecto de tipo individual e contemplativo, nem uma relação linear e contínua, que se inicie com a sensação e termine com o conhecimento, mas é um processo de repetição sucessiva, integrado no processo de interacção do ser humano com a natureza e a sociedade através do trabalho que realiza a produção material. Ao produzir, isto é, ao transformar a natureza, o ser humano interpreta continuamente os efeitos da sua acção sobre ela, e, com isso, interpreta a própria natureza, a sua estrutura e a sua dinâmica de desenvolvimento; ao observar os efeitos da sua acção baseada na interpretação anterior, ele testa permanentemente a sua interpretação, reformula-a e adapta-a em posteriores momentos do processo de produção do conhecimento. Pode-se dizer, portanto, que o processo de produção do conhecimento se realiza em duas fases: a primeira, pela acção material ou física do ser humano sobre a realidade material — a natureza, por um lado, e a sociedade, por outro — através do trabalho; a segunda, pela acção intelectual sobre a acção material, ou processo de produção mental do conhecimento com base no concreto sensorial.
O conjunto destas duas actividades constitui a prática, que é, simultaneamente, acção de produção material e acção de produção de conhecimento. Embora as duas actividades não existam isoladamente uma da outra — não se realiza actividade material sem conhecimento do que se pretende fazer, nem se elabora conhecimento sem realizar actividade material — elas podem ser exercidas separadamente, como actividades de indivíduos distintos, pela divisão social do processo de trabalho. Neste caso, o processo de produção do conhecimento do qual resulta o concreto pensado constitui um tipo particular da prática, no qual a componente intelectual é mais acentuada; o seu objecto continua sendo o concreto real, a realidade empírica existente; o seu objectivo é a apropriação cognitiva da totalidade que constitui a realidade empírica; e a sua função é dotar a prática de maior consistência e coerência na produção do concreto real. Por comodidade, e porque designações similares foram incorporadas ao marxismo, designaremos por prática teórica esta componente mais marcadamente intelectual da prática, cujo objectivo é a apropriação cognitiva do real, e por prática empírica a componente de produção material da prática, aquela que produz a realidade empírica existente e a transforma. O produto da prática teórica, o conhecimento ou concreto pensado resultante da apropriação cognitiva do concreto real, apresenta-se sob a forma de discurso teórico.
Os seres humanos organizam-se em grupos e produzem em grupo, através da divisão social do trabalho. Deste modo, a produção caracteriza-se por ser uma actividade social e não meramente individual, dado que a sua base não é o trabalho individual, mas o trabalho combinado socialmente numa estrutura de divisão do trabalho. O produto individual é apenas uma parte do produto total, em termos quantitativos e qualitativos, pois cada produtor fornece um produto diverso; nenhum indivíduo pode sobreviver do produto do seu próprio trabalho, do qual obtém apenas uma parte (tanto menor quanto mais desenvolvida a divisão do trabalho) dos meios de produção e de consumo essenciais à sua sobrevivência. O trabalho e o produto do trabalho são distribuídos entre os membros da sociedade, o que pressupõe um processo contínuo de interacção entre eles, condicionado pela estrutura do processo social de produção. Esta estrutura de interacções constitui o que Marx denominou de relações de produção e distribuição, que constituem a estrutura económica da sociedade e o objecto da economia como ciência.
O concreto real é constituído pelas relações estabelecidas pelos indivíduos, em determinada sociedade, na produção e distribuição dos meios necessários à sua sobrevivência. Estas relações integram as relações dos seres humanos com a natureza e as suas relações recíprocas na sociedade. A prática destas relações materiais integra também o processo de produção do conhecimento, ao nível da sua apreensão imediata, através do concreto representado, e, ao nível da sua reconstituição mediata, através do concreto pensado. A este último nível, o processo de produção do conhecimento neste campo resulta num concreto pensado específico, numa teoria das relações económicas, ou discurso teórico sobre uma totalidade coerente de múltiplos elementos inter-relacionados, que estrutura as abstracções ou conceitos discretos, dispersos e desconexos que exprimem aspectos das relações sociais de produção e distribuição. Deste modo, a teoria das relações económicas é uma componente da teoria das relações sociais de produção.
3-A validação do conhecimento
Para além das questões acerca da concepção materialista da realidade e do método adequado de a analisar, importa igualmente determinar com precisão o objecto do conhecimento, definindo-o. A realidade empírica é constituída por uma totalidade coerente de grande vastidão e amplitude, estruturada de modo definido e em permanente desenvolvimento, constituindo um objecto complexo. Devido a estas características, se não delimitamos o objecto do conhecimento, corremos o risco de nos perdermos na vastidão labiríntica da realidade empírica; se não o caracterizamos, corremos o risco de confundir como pertencendo a um propriedades de múltiplos objectos. Definir correctamente o objecto é condição para que a sua reconstituição mental possa resultar com ele coerente.
A representação da realidade tal como é apreendida directamente pelos sentidos, portanto, como categoria sensorial ainda não elaborada e reconstituída pelo pensamento, a qual designámos por concreto representado, apresenta-a como um aglomerado caótico de elementos discretos, dispersos e desconexos. Para que o objecto real possa ser apropriado cognitivamente e produzido o conhecimento sobre ele, a sua representação directa como aglomerado caótico terá de ser processada para ser reconstituída pelo pensamento como totalidade coerente, que a realidade de facto é. O resultado do processo de produção do conhecimento, o concreto pensado, é portanto um produto do pensamento, inteiramente construído com abstracções ou conceitos teóricos, e permanece uma categoria do pensamento e não da realidade; como tal, não tem correspondência directa na realidade empírica. O modo de produção capitalista, por exemplo, enquanto concreto pensado, não existe como tal no mundo real, nas suas formas históricas objectivas, que Marx denominou formações económico-sociais.
O concreto pensado, enquanto objecto teórico apresentado sob a forma de discurso, não sendo o próprio real, constitui uma representação lógica coerente do real, que Marx denominou a essência do real em oposição à sua aparência. Para Marx, e ao contrário do que para Hegel, a aparência não constitui uma manifestação fenoménica, aleatória e passageira de essências existentes na ideia absoluta, mas constitui uma forma de manifestação do real material, tal como ele é percebido pelos sentidos. A passagem da representação da aparência à representação da essência é efectuada pela apropriação cognitiva do real, através do processo de produção do conhecimento, e pela sua reconstituição mental como concreto pensado. Deste modo, o concreto pensado constitui uma representação da essência do real e uma forma deste existir reconstituído pelo pensamento.
Permanece em aberto a questão de determinar se o concreto pensado, que é tão só uma categoria mental, representa fielmente a realidade empírica, o concreto real como totalidade coerente. Se o processo de produção do concreto pensado foi formalmente correcto, pode-se deduzir que ele representa efectivamente a realidade a que se refere, mas falta comprová-lo. Produto da actividade mental, do trabalho intelectual, mas ainda assim parte integrante da prática, de que não pode ser excluído enquanto sua componente teórica, a sua validade só pode ser determinada pela eficácia da prática na transformação da realidade empírica que ele pretende representar.
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