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Subject: A crise não é dura. É mole!


Author:
João César das Neves
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Date Posted: 17/10/05 14:21:17

O problema de Portugal é que a crise é pouco grave. Os analistas e conversas de café repetem que estamos numa "crise profunda e séria, que nos acompanhará décadas". Mas infelizmente o que se passa é exactamente o contrário. As coisas, afinal, até não estão assim tão mal. É isso que é terrível. As condições não são duras. Pelo contrário, são moles. O que temos, de facto, não é uma crise, mas uma pasmaceira. Portugal não sofre de cancro ou tuberculose. É só obesidade.

Isso vê-se bem ao tomar atenção ao que, alegadamente, compõe a actual crise. Ao contrário do que se diz, não estamos numa recessão. Antes estivéssemos.

O que temos, há mais de três anos, é a economia estagnada. O produto flutua, não cresce, mas também não cai.

Numa queda, como dói, a economia reage, defende-se, incentiva-se a recuperar; a recessão limpa o sector produtivo, elimina ineficiências, aguça o engenho. Mas uma estagnação é pastosa, soporífera. Nessas ocasiões a economia não reage. Geme.

Fala-se muito da baixa produtividade, da ameaça da China, da decadência do têxtil. Mas as barreiras às importações permanecem, os subsídios vão chegando, e lá se vão remediando as coisas. No fim, são mais as vozes que as nozes e cá se vai andando. É verdade que o desemprego subiu. Mas ainda é inferior à última recessão e continua dos mais baixos da Europa. Além disso, quem o sofre são os desgraçados do costume, a quem a sociedade não liga. O desemprego não chega para criar problemas. Isso vê-se nas manifestações, que são, não dos desempregados, mas dos empregados.

Quem protesta com a crise não são os que sofrem a crise, mas os que têm rendimentos imunes aos efeitos dela. O que se ouve são funcionários, militares, professores, enfermeiros a gritar a indignação por "medidas intoleráveis", "cortes inaceitáveis" e "condições de miséria". Ao ouvi-los, parece que vão perder o emprego, passar fome, viver em bairros de lata. Mas a discussão é à volta de pormenores nas regalias e detalhes nas benesses. A retórica é de angústia; a realidade é de privilégio.

A contestação vira a crise do avesso. Portugal é o país da zona euro que mais gasta percentualmente em salários públicos. Como os serviços administrativos estão entre os piores da Europa, isso aponta para um criminoso desperdício no sector. O que seria de esperar era uma manifestação indignada da economia produtiva contra este peso paralisante da despesa pública. Mas a economia está mole. Assim, pelo contrário, quem protesta são as repartições, escolas, hospitais, que gastam milhões dos impostos dos pobres para mal cumprirem os seus deveres. E é o Governo que é atacado quanto tenta timidamente corrigir o terrível desequilíbrio.

O debate do novo Orçamento será a prova definitiva de que a crise, afinal, até nem é grave. Toda a gente fala já de sacrifícios, medidas corajosas, cortes dolorosos. E para o marasmo em que estamos até pode ser que sejam.

Mas se a crise fosse mesmo profunda, ver-se-ia como estas reduções são tímidas e curtas. Até a Europa amoleceu, permitindo-nos adiar a redução do défice. Tanto medo por tão pouco!

A fraca crise não impõe medidas drásticas, e lá se vão remediando as coisas. Como as despesas se dizem incompressíveis e as estruturas permanecem, a discussão fica-se por pormenores nas regalias e detalhes nas benesses. Está tudo aos gritos por coisa nenhuma. No fim de contas, é o OE que consagra o criminoso desperdício e o terrível desequilíbrio.

A única boa notícia, nesta apatia morna, é que se anda a dizer que a crise é profunda e séria e nos vai acompanhar décadas.

É verdade que, para muitos, este discurso negro é o pedantismo habitual e a tradicional melancolia. Mas, ao mesmo tempo, ele vai alarmando as pessoas e motivando a mudança.

É por isso que, apesar de tudo, se vão tomando medidas, se corrigem bloqueios, se chocalha o marasmo. Portugal não está em crise dura, mas ver os outros a crescer no espaço aberto assusta e estimula. Talvez assim esta pasmaceira não nos acompanhe décadas.

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