Author:
Fernando Penim Redondo
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Date Posted: 9/08/05 23:40:16
In reply to:
Visitante
's message, "Haverá um “comunismo” diferente do “comunismo proletário”? Resposta a FPR." on 1/08/05 23:20:06
Caro Visitante,
Hesito sempre muito antes de me abalançar a responder a textos como os seus. Em Agosto hesito ainda mais e por isso só agora lhe respondo.
A hesitação tem a ver com a sensação de que iniciar a resposta é embarcar numa longa viagem cujo destino é incerto e por um caminho semeado de escolhos e de questões que têm que ser evitadas por serem demasiadas. Tal viagem também não consente desistências durante o percurso embora, pela natureza dos meios utilizados, ela tenha sempre um carácter parcelar.
Foi precisamente por estar farto de abordagens parcelares que decidi compilar e publicar um livro onde, sem interrupções, me fosse possível expor a totalidade da minha visão.
Penso que o Visitante deveria fazer outro tanto.
Peguei numas quantas questões levantadas pelo Visitante porque me pareceu que eram suficientemente ilustrativas das nossas diferenças que é o que importa abordar.
1. Na fase introdutória seleccionei:
“Clarificando o completo logro histórico que constitui a utopia comunista proletária, talvez consigamos perspectivar formas mais profícuas de defender os interesses dos trabalhadores assalariados, ou, no mínimo, formas menos grotescas, se despidas do fanatismo religioso, e menos piedosas, se ultrapassarem a repetida denúncia da má sorte, da exploração e da injustiça, que são as que têm caracterizado a táctica política do PCP nos últimos trinta anos.”
Embora possa, erradamente, parecer secundário gostaria de esclarecer que há muito abandonei a ideia de que fazer política é defender os interesses seja de quem fôr.
Essa visão leva em linha recta ao que está a acontecer em Portugal em que cada corporação, ou corporaçãozinha, defende com unhas e dentes o seu pecúlio com a conivência dos partidos que se presumem de esquerda. E ninguém põe em causa o status quo.
Aposto é na transição, em tentar perceber como, e quando, fugiremos para o futuro.
Os grandes explorados do esclavagismo e do feudalismo não endireitaram as suas sociedades à mocada. Simplesmente fugiram e foram tratar da vida deles noutro lugar e de outro modo.
Outro tanto virá a acontecer connosco.
2. Seguidamente:
“Essa – a teoria do comunismo – ao contrário do que afirma o FPR, existe mesmo, começando por existir na sua própria cabeça (que é quem está mais próximo) e nas de muitos milhões de adeptos, além de estar publicada. Essa teoria, como todas, enquanto conjunto de ideias ou discursos produzidos sobre a realidade material é apenas um objecto ideal ou formal, sem existência na realidade material e traduzindo apenas uma representação mental desta, fielmente ou não. Qualquer crítica dum objecto deste tipo só pode ser feita com outro objecto do mesmo tipo, no caso, um outro objecto teórico. É desse tipo o objecto que uso para criticá-la. Daqui se pode depreender que a crítica que me é dirigida pelo FPR não tem qualquer sentido, já que a teoria do comunismo não é uma qualquer miragem.”
Detecto aqui uma ilusão comum, a da objectividade dos textos (recentemente tratei desta questão a propósito do Mercador de Veneza).
Todos os textos, mesmo os mais simples, são ambíguos.
O legado teórico de Marx, na sua globalidade, é extenso, por vezes incoerente, muitas vezes quase indecifrável (caso dos Grunrisse).
Isso significa que a generalidade dos seus seguidores (e opositores) teve contacto limitado com a sua obra, não percebeu uma boa parte do que leu, e acabou por arrumar o assunto com uma aboragem simplista qualquer que lhe impingiu alguém “de confiança”. Na melhor das hipoteses construiu a “sua” versão do Marx.
A imcompreensão de que se queixa o Visitante, noutro texto, tem a ver com isto.
Claro que é difícil arrastar as pessoas para um discussão em que o Visitante desanca um “fantasma” que só ele viu.
Quer as visões simplistas quer as mais elaboradas estão para a obra de Marx como as teorias estão para a “realidade material”ou seja, nas palavras do Visitante, limitam-se a ser “uma representação mental”.
Isso não deve espantar-nos pois que as ideias do Marx nos chegam precisamente como objectos materiais, os livros, de que os nossos sentidos têm que se encarregar como de qualquer outra informação (o som dos claxons, a textura do corrimão, ou o cheiro dos carapaus).
Na maneira como cada um de nós trata a informação ao perseguir os seus propósitos é que reside o conhecimento. É isso que faz a diferença, e o valor, e é isso que interessa discutir. (Ver "Digitalismo - Novas formas de dominação económica").
Mas como não entramos dentro da mente de cada um só quando esse conhecimento se converte de novo em informação, seja de que tipo fôr, é que podemos avaliar os seus resultados.
3. E também:
Aliás, o FPR ao afirmar não ser “adepto da concepção das classes que transformam a sociedade serem “as que nada têm a perder senão as suas grilhetas”” e pensar “que a história mostra que as transformações foram lideradas por aqueles que julgavam ter muito a ganhar” está numa posição ambígua, porque os que não tinham nada a perder (os proletários) também julgavam que tinham um mundo novo (logo muito, tudo) a ganhar.
“Julgavam”, diz muito bem. Por isso não chegaram a parte nenhuma. Pelos vistos estavam exactamente na mesma posição dos escravos e dos servos que não constituiram, enquanto tal, as classes emergentes.
4. Tomemos:
“...o essencial da concepção marxista não é a de um modo de produção ser substituído por outro quando passa a constituir um entrave ao progresso social...”
Eu acho que é precisamente, do marxismo, aquilo que tem um carácter mais imune ao tempo e que continua a ser um instrumento importante.
“O essencial do marxismo é constituído por uma série de concepções erradas, nomeadamente, a do comunismo como sucessor necessário do capitalismo, a da classe social protagonista do progresso absoluto (o proletariado), a das causas que originam a revolução social (a celebérrima, quanto errada, contradição entre as forças produtivas e as relações de produção), a teoria do valor como tempo de trabalho e a concepção da exploração capitalista como extorsão da mais-valia produzida pela força de trabalho”
A contradição entre as forças produtivas e as relações de produção até tem muito a ver com aquilo que o Visitante dizia não ser o mais importante em Marx, ou seja, “...um modo de produção ser substituído por outro...”.
Creio precisamente que a tal contradição é a chave para a compreensão da transição, mesmo que a contradição assuma formas diferentes. Na época actual, penso eu, a contradição regista-se entre as modalidades de geração de valor e o assalariamento, “não joga a bota com a perdigota”.
O assalariamento nasceu para regular as relações num contexto de trabalho repetitivo em que os trabalhadores repetiam, dia após dia, a produção de produtos identicos. Hoje os robots e os computadores replicam quase tudo (a informação) e o trabalho humano necessário é a interpretação criadora da informação.
5. Ainda:
“Uma última observação, para desfazer mais este equívoco do FPR. A revolução industrial permitiu a expansão do capitalismo (a massificação do assalariamento, como diz), mas permitiu-a não só porque ele já existia como porque a burguesia tinha entretanto conquistado boas fatias do poder no país onde aquela se iniciou (lembremo-nos que mais de cinquenta anos antes tinha rolado a cabeça de um rei no patíbulo e houvera, inclusivamente, uma primeira experiência republicana de governo, ainda que fracassada), removendo muitos dos obstáculos que até aí entravavam o seu desenvolvimento.”
A ciência tem constatado que as espécies se adaptam às transformações operadas no seu habitat. Penso que as relações sociais progridem de forma similar mesmo quando é uma dada mutação pré-existente que vinga num habitat de novo tipo.
Claro que o assalariamento já era conhecido mas nunca se poderia ter estabelecido com relação dominante numa estrutura produtiva feudal. Encontrou na Revolução Industrial o habitat que lhe permitiu multiplicar-se.
Boa Noite, Boas Férias.
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