VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

8/05/26 5:40:18Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 1[2]345678 ]
Subject: A filosofia da realidade vista ao espelho.


Author:
Visitante
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 28/08/05 18:19:15
In reply to: Paulo J. N. Silva 's message, "Uma colherada na sopa filosofica" on 27/08/05 7:54:57

Paulo Silva.

Hesitei em responder-lhe, porque as questões que coloca, apesar de serem reflexo do idealismo voluntarista que caracteriza o marxismo e o marxismo-leninismo, o qual fundamenta a adesão de muita gente à utopia comunista, estão não só eivadas do desejo do cumprimento da profecia marxista como se apresentam cimentadas pela fé. Porque foi dos poucos que se dignou intervir comentando os meus textos, entendi que merecia a consideração duma resposta, não às suas questões em particular, porque seria fastidioso e repetitivo responder-lhes, mas ao tema geral a que respeitam. Se houver outras suas intervenções, peço-lhe apenas que utilize acentuação nas palavras, para evitar ter de reescrever correctamente as passagens do seu texto que eventualmente necessite de transcrever.

O que afirma acerca das forças produtivas (“forma de enquadrar a realidade do modo de exploração capitalista”); sobre a relação de exploração (“não é estabelecida independentemente da vontade do homem, é imposta pela parte que exerce a exploração, pois caso contrário esta não existiria” e “a exploração não é meramente económica”); sobre o pretenso interesse do proletariado de hoje (“o proletariado(s) de hoje tem interesse em que a capacidade produtiva social se desenvolva, mas que ao mesmo tempo tenha(m) uma fatia maior daquilo que produz(em)”); ou sobre o interesse dos trabalhadores no desenvolvimento dos processos produtivos (“parece-me que o marxismo-leninismo aponta para a superação das relações de exploração, e desta forma os trabalhadores estão interessados no desenvolvimento dos processos produtivos de forma que essa superação seja atingida”), não passa duma representação da realidade social completamente invertida, de acordo com a ideologia marxista, e, por maioria de razão, com a ideologia marxista-leninista.

Estou persuadido que não mudaria de ideias, por muito que eu me esforçasse a tentar mostrar-lhe os erros em que labora, porque a sua crença está no domínio da fé. A fé, como sabe, é uma graça concedida a alguns eleitos, e é um modo de crença que não exige qualquer justificação racional para aquilo que é o seu objecto, pelo que não é susceptível de qualquer discussão racional. Os fiéis acreditam: tanto lhes basta para serem felizes. Abençoados tais crentes, que ao contrário de mim, não têm dúvidas nem necessitam de se esforçar para tentarem compreender esta coisa complexa que é a realidade social. A sua profecia está escrita: resta-lhes esperar ou fazer por acontecer!

A realidade é difícil de compreender para além do seu reflexo espontâneo na mente das pessoas. Apesar disso, algumas delas julgam poder modificá-la através de actos de vontade. Confundem a parte da realidade social que constroem para fruição dos objectos e das coisas e para descanso do espírito – como, por exemplo, as actividades culturais e recreativas, levadas a cabo sob a égide do clube do bairro – com a produção dos objectos e das coisas essenciais para a produção e a reprodução da vida dos seres humanos. E, contudo, até para essas pessoas não será difícil compreender que se é possível a um grupo de compinchas, por um acto de vontade colectiva, organizar um bailarico hoje e transformá-lo noutro dia isso não é propriamente o mesmo que organizar continuamente a produção dos objectos e das coisas essenciais que asseguram a vida e a sua reprodução, e, muito menos, é comparável com o poder de decidir o tipo das relações sociais envolvidas naquela produção.

Apesar de ter compreendido o carácter histórico da realidade social e da sua independência da vontade dos homens, e de ter apontado as contradições de interesses entre proprietários dos factores produtivos como causa das lutas através das quais as sociedades progridem, isto é, respondem a necessidades sociais e inventam novas necessidades, Marx não escapou às teias do idealismo humanista e acabou justificando a concretização da utopia comunista, que marcara o seu envolvimento político, com uma revolução social levada a cabo precisamente pela classe dos não proprietários, isto é, a classe dos produtores de um dos factores produtivos, é certo, mas que aliena a sua utilização na produção por venda a outrem. Não sendo esta classe social proprietária do processo produtivo (dos factores, da organização e do seu produto), não sentindo qualquer entrave político e jurídico ao desenvolvimento da sua capacidade produtiva, o seu suposto interesse na revolução social só poderia advir da revolta contra a exploração de que se sentiria alvo, através da tomada de consciência dessa exploração e da aquisição da vontade de acabar com ela. Não tendo por base qualquer revolução económica, mas um juízo moral acerca da exploração, esta revolução baseada no idealismo voluntarista só poderia assumir a forma única de revolução política e jurídica, motivada por um acto de vontade colectiva e levada a cabo através do golpe de estado insurreccional.

A revolta dos explorados contra a inumanidade do capitalismo, para restituir a humanidade à classe que vivia em condições inumanas, foi elevada à categoria de missão redentora dos pecados da Humanidade desde a constituição das sociedades de classes, como que para vingar as indignidades e humilhações sofridas pelos explorados de todos os tempos. A suposta necessidade desta revolução contrariava todas as evidências históricas, e a sua fundamentação foi feita contra tudo o que Marx conseguira até então realçar acerca dos instrumentos e dos agentes da mudança social no passado. Na base da errada fundamentação da revolução comunista proletária está precisamente um conceito metafísico – as forças produtivas – que embora representando coisas materiais – os factores envolvidos na produção – é dotado de propriedades que as coisas não possuem, como, por exemplo, necessidades de desenvolvimento e a capacidade de entrar em contradição com os seres humanos e com as relações que estes estabelecem, como se as máquinas fossem dotadas de capacidades dos seres e adquirissem ascendente sobre os humanos que as criaram. Embora este seja um tema preferido de certas produções literárias e fílmicas de ficção científica, o certo é que ainda não chegámos lá, e mal de nós se algum dia lá chegarmos!

O erro tem muitas raízes, algumas das quais se podem descortinar na obra do Marx. Uma delas, por exemplo, é a constatação de que tendo a relação salarial, na qual se baseia o capitalismo, existido noutras épocas históricas sem que o capitalismo tenha surgido então como modo de produção social tal se terá ficado a dever ao fraco desenvolvimento das forças produtivas. No entender do Marx, existindo relação salarial, mas faltando o desenvolvimento das forças produtivas, seria o desenvolvimento destas que decidiria o tipo das relações sociais que poderiam emergir e vingar na sociedade. É certo que noutras épocas houve retribuição pelo salário (quer dos mercenários romanos, quer dos trabalhadores dos burgos, dos portos e dos navios), tal como houve troca desigual entre produtores directos e entre estes e os comerciantes, assim como houve também comerciantes e banqueiros de grossos cabedais, e o capitalismo não emergiu como modo de produção social. Se tal não aconteceu é porque a relação salarial que caracteriza o modo de produção capitalista é mais qualquer coisa do que a relação salarial que existiu antes dele, e que as necessidades sociais a que ele respondeu eram também diferentes das de outrora. E, de facto, assim é.

Primeiro que tudo, ele é um modo de produção, isto é, uma forma social de produzir as coisas e os objectos necessários para a existência da humanidade, não é uma mera prestação de serviços nem um mercantilismo que exista na esfera da circulação das mercadorias, para as escoar de onde são produzidas para onde existem necessidades do seu consumo, independentemente da forma social como sejam produzidas, mas é precisamente uma forma social de as produzir. Depois, mesmo na produção, ele tem uma história que o antecede e que é sua contemporânea: ele nasce por desenvolvimento da produção utensiliária corporativa, também ela baseada numa forma de relação salarial. Para que tal tenha ocorrido tiveram de ocorrer igualmente as condições que o tornaram necessário e possível. A primeira dessas condições foi, sem dúvida, o crescimento das necessidades sociais que a expansão do comércio tornara visível, isto é, o aumento da procura ou a imaginação de oportunidades de escoamento do aumento da produção, através da possibilidade de substituir a concorrência produzindo mais barato; segunda, a existência de meios de produção (ou de produto acumulado, ou de crédito, sob a forma de dinheiro, que possibilitasse a sua aquisição) e de força de trabalho livre disponível; terceira, a libertação da relação salarial existente na oficina dos entraves do contrato corporativo (que regulava a admissão na aprendizagem e o exercício dos ofícios), reduzindo-a a um contrato de trabalho sem outras obrigações mútuas que não a estrita compra e venda da capacidade para trabalhar; quarta, o aumento da jornada de trabalho (e, eventualmente, a diminuição do salário médio), como forma de aumentar o sobreproduto (certamente compensado, para os novos operários, com a maior continuidade do emprego e a regularidade do salário); quinta, a subdivisão do processo de trabalho, tornando-o possível a uma força de trabalho cada vez mais numerosa e menos qualificada (dado que não sujeita à demorada aprendizagem de um ofício); sexta, o aperfeiçoamento dos meios e dos instrumentos de trabalho, para aumentar a produtividade e com ela o sobreproduto; sétima, a liberdade de estabelecimento e de produção em qualquer ramo e de circulação das mercadorias por todo o território. Oitava, nona… e assim por diante, em suma, a sua emergência ficou a dever-se às necessidades de aumento da produção a que o modo de produção existente não respondia (para o que teve de instituir a completa liberdade de produção e de mobilidade das mercadorias – dos produtos e dos factores produtivos), e o seu desenvolvimento só foi possível porque respondeu às necessidades sociais de forma mais eficiente e mais eficaz, isto é, com um maior sobreproduto e com o desenvolvimento da produção e dos meios de produção possibilitados pela aplicação duma parte do sobreproduto.

As revoluções sociais só acontecem num determinado estádio de desenvolvimento das ditas forças produtivas – ou da capacidade produtiva social – como não poderia deixar de ser, e acontecem, antes de tudo, na esfera económica da sociedade, nas formas sociais de produzir as coisas e os objectos necessários para a existência das sociedades humanas, ainda que com o mesmo tipo de meios de produção e de capacidade para trabalhar (as tais forças produtivas) existentes. Estas formas sociais, apesar de novas, têm a sua história, não são produto da vontade de chico espertos armados ao pingarelho que um dia, ao acordarem, resolvam dar uma de inovadores nem são produto de projectos congeminados na mente de ideólogos iluminados nem de cenários possíveis prospectivados por sábios que entretanto hajam adquirido conhecimento sobre a realidade social; e, muito menos, são produto de exigências de desenvolvimento colocadas pelas chamadas forças produtivas. Elas resultam das formas sociais até aí suas contemporâneas, das quais se diferenciam por pequenas particularidades que ao desenvolverem-se acabarão por distingui-las abertamente das que lhes deram origem. Não há dúvida, também, que a revolução económica por que se inicia a revolução social é muito mais lenta e pacata do que a revolução ideológica – nomeadamente, nos domínios político e jurídico – que lhe sucede, tendo em vista remover os entraves ideológicos ao pleno desenvolvimento do novo modo de produção social. Esses entraves são antes de tudo restrições às novas práticas e à sua expansão, de que os participantes tomam consciência de forma empírica e que também de forma empírica procuram ir resolvendo. Se possível, a bem, pela negociação e pelo compromisso; em caso de impossibilidade, pela violência. Mas lá por esta componente da revolução social ser a mais visível, em termos históricos, ela não é o seu único acto, porque a peça da revolução social é constituída por dois grandes actos, cujas cenas se arrastam no tempo: a surda revolução económica e a espaventosa revolução ideológica.

O melhor do drama social em que produzimos e reproduzimos a nossa existência, porém, não é a revolução social, mas a evolução que ocorre pelo desenvolvimento do novo modo de produção social e pelas realizações de que ele se mostra capaz. Pelo grande impacto que tem nas formas de viver, expandindo-se a todos os ramos produtivos, inventando novos ramos, criando novos objectos, novos meios de os produzir, novas necessidades, novas ideias, enfim, transformando todas as esferas da vida social, da produção aos comportamentos e aos afectos, não falta quem confunda esta fase da existência social – que designamos por evolução social – com a revolução social, quando ela não passa do seu produto, do resultado da revolução. A evolução social só é possível porque uma parte do produto social – o chamado sobreproduto – é reaplicado no desenvolvimento dos meios de produção e da capacidade para trabalhar; os seus ritmos mais elevados têm acontecido porque a distribuição do produto social não tem sido equitativa, isto é, porque a produção se tem baseado nalguma forma de exploração de uns intervenientes por outros. Do ponto de vista dos explorados, toda a exploração é uma iniquidade moral. A evolução social, porém, parece ocorrer mesmo contra o ponto de vista dos explorados, como se as novas formas de exploração tivessem contrapartidas para os explorados que de alguma forma compensassem a exploração.

No caso do modo de produção capitalista, o que até agora teve o maior impacto conhecido nas formas de viver dos seres humanos e nas formas destes se relacionarem com a natureza, proporcionando-lhes as melhores condições jamais existentes, pela primeira vez uns ideólogos iluminados aparecem a atribuir-lhe maiores malefícios para a humanidade do que benefícios, apesar das suas realizações e contra todas as evidências. Pela primeira vez, também, esses ideólogos iluminados aparecem a atribuir à classe dos explorados – neste caso, o proletariado, a classe explorada pelo capitalismo – a capacidade de promover a revolução social, fundamentada na iniquidade da exploração de que é alvo e nos juízos morais que tem sobre ela. Pela primeira vez, ainda, esses ideólogos iluminados aparecem a proclamar que a revolução social não se iniciaria por qualquer revolução económica que exigisse depois transformações ideológicas, mas se restringiria à própria revolução ideológica, que se encarregaria de promover posteriormente uma revolução económica. À revolução proletária, esses ideólogos iluminados atribuem a missão histórica de remissão dos pecados que todas as sociedades de classes cometeram para com os seus explorados, como que purificando a sociedade de todos os males sociais presentes e passados, conferindo ao proletariado a mais heróica e sublime das missões. A representação mental que estes ideólogos iluminados fazem da realidade social não passa duma imagem invertida dessa mesma realidade, e o guião que escreveram para o desenrolar do drama social em que permanente participamos não passa de uma farsa. O drama real em que os actores sociais participam não tem guião pré-escrito, não tem autor conhecido e escapa totalmente à vontade dos actores: vai sendo continuamente inventado à medida das necessidades e das possibilidades do cenário!

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
A filosofia da realidade vista ao espelhoVisitante30/08/05 17:39:07
    É... Os acontecimentos caem todos assim, do céu aos trambolhões...Visitante divertido30/08/05 19:17:22


    Post a message:
    This forum requires an account to post.
    [ Create Account ]
    [ Login ]
    [ Contact Forum Admin ]


    Forum timezone: GMT+0
    VF Version: 3.00b, ConfDB:
    Before posting please read our privacy policy.
    VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
    Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.